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O BELO, do Gilberto Mendonça Teles

Belo é o que me excita à fraude (como em Freud)
do invisível — escrita num céu de celulóide.
O que, chiste ou desejo, se manifesta e cala:
o espelho e seu lampejo, mola solta na mala.

Rampa de mim no mesmo ou no outro que me sobra, 
o que ficou a esmo entre o rascunho e a obra,
o belo — esta carência da face mais secreta:
a cena da inocência no aceno do poeta.

Sem lapso de reserva, o seu remorso é tal
que sempre se conserva algum tique ou recalque.
Sem sujeito e cabresto, sem história, sem pecha,
o etc. do texto tem a sua própria brecha.

Na sedução do risco há delírios, há febre,
há marcas de algo arisco como pulo de lebre.
Mas só na barra está o avesso delirante:
lá canta o sabiá com seu significante.

Pela palavra do Outro o espírito da letra
se transforma no potro sem falo que penetra
qualquer fenda, de lado, pela cárie do dente,
como um sílex afiado num vão do inconsciente.

Belo é assim o branco de tudo que te escreve,
o fragmento que arranco do silêncio, de leve,
o sonho que te solta de mim, quando perdido,
e no ermo da revolta te dá forma e sentido.

Se é belo o que me falta e me alimenta a gula
da coisa que te exalta e nunca te articula,
é belo o que te embala, o que sempre te mostra
na língua que te fala ou te degusta em ostra.

E mais que tudo é belo o que não vem à tona:
o fantasma e o castelo, os limites da zona
que sempre te reprime e te põe sempre à escuta
da luta do sublime, mas sem sublime e luta.

 

Exibições: 96

Comentário de EstherRogessi em 9 julho 2012 às 22:47

Ótima noite,Ivanisa... Obrigada pela visita e comentário.

Esse poema do Gilberto Mendonça Teles, deixa-me pasma.

Simplesmente revela o seu intelecto...muito mais que poético.

Impossível lê-lo uma única vez... Parabéns pela partilha.

Um grande abraço

Receba os meus aplausos.

Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 10 julho 2012 às 16:47

Estherrogessi,

um grande abraço! aplausos a todos nós!

Comentário de Salete Cardozo Cochinsky em 11 março 2013 às 0:40

Gostei, poetizar para re-inscrever. Dar mais um passo no sentido do "a-dvir" para a-ver.

Comentário de Salete Cardozo Cochinsky em 11 março 2013 às 0:43
 Continuando o comentário:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há o passado de liberdade e amarradura/

Se o andamento falou de saudades e amarguras/

E os enunciados chegaram á consciência/

Tomou com benevolência e viu/

Nada foi ou é em vão, nem incólume aos desejos/

Tudo é viés, via de regra, movimento transformador/

Transforma(dor)  em amor por si próprio/

Que do impróprio, outro não é/

Senão o inverso do verso que se pode cantar/

Seresta em uníssono ao reinventar/

Vínculos que se formam através dos vincos/

Sinestésico, etéreos, diáfanos ao ser/

Sentenciado Eros, vicissitudes e discernimentos/

Nomeados, situados são manás a encaminhar/

Para o ponto seguinte alcançar/

Na eclíptica e na elíptica decifrar/

Do começo ao contínuo/

Sinalizar.

 

Por: Salete Cardozo Cochinsky

Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 11 março 2013 às 9:05

Menos do que nada...

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