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o haicai quebra-cabeça de Sandra Santos

 

haicai quebra-cabeça

 

Haicai, haikai, haiku

 

O Haikai é um gênero de poesia que nasceu no Japão, a terra do sol nascente. Ele veio de uma forma anterior, e muito difundida no Japão dos séculos VI ao VIII, o Tanka. A palavra Tanka quer dizer literalmente “poema curto”. Com o tempo, o Tanka foi se popularizando e ganhando inovações. Na verdade estas inovações se caracterizaram pelo alongamento  do poema, não se resumindo àquele formato pequeno, constituído de uma estrofe de três versos com 5-7-5 silabas cada um, seguida de outra com dois versos de 7-7 sílabas. Esse gênero advindo do Tanka, passou a chamar-se Renga, e, como não se limitava àquela estrutura clássica, passou a receber outras e outras estrofes, normalmente chegando a mais de cem. Se tornou uma febre no Japão e muitos Rengas foram descritos como tendo mais de mil estrofes e até o exagero de mais de dez mil. Dessa maneira veio a tornar-se um jogo de salão, um tipo de quadrinha, uma espécie de brincadeira onde estrofes eram criadas de improviso por vários participantes que se desafiavam entre si. Alguns destes versos, ou estrofes, permaneceram no imaginário popular pela sua beleza e qualidade.

 

No século XV, Matsuo Bahô, um ex-samurais, interessado por literatura, dedicou-se a estudar profundamente estas tradições e teve a ideia de formatar uma estrutura nova partindo das antigas, retirando alguns elementos do Tanka, mudando a natureza do Renga, simplificando-o, e, claro,  acrescendo outros. Essa nova forma passou a chamar-se Haicai. Embora diminuto, este gênero poético é extremamente sofisticado, pois exige que nestas 17 sílabas (distribuídas em três versos de 5-7-5 sílabas) toda uma sapiência em equilibrar sensibilidade, síntese, simplicidade, instantaneidade, transitoriedade e uma gama de elementos simbólicos essencialmente nipônicos (Flor de Ipê = primavera, Libélula = outono, Primavera = alegria, Inverno = tranqüilidade) e assim por diante. São os chamados Kigôs. É necessário dizer que o Haikai japonês prescinde da rima. Isso não quer dizer que ela não aconteça espontaneamente, pois a sonoridade rítmica dos versos é desejável, mas não um imperativo. O Haikai é fascinante porque se assemelha a um insigth, ou a uma ficha que cai. o que o aciona é um clic de ideia. Por outro lado, podemos entender o Haikai como um fotograma do agora.

 

Estas características todas, mais a ausência de pomposidade e racionalizações, fez do Haikai um gênero extremamente respeitado, ganhando o status de “poesia maior”, cultivada até hoje no Japão. Do século IXX pra cá, o ocidente interessou-se por este gênero de poesia. Estudiosos da Cultura japonesa como Ernest Fenollosa e outros, passaram a divulgar o Haikai entre poetas de vulto à época, como Erza Pound e William Butle Yets. Desde o início do século passado e até hoje, grandes poetas brasileiros se dedicaram ao Haicais. Guilherme de Almeida foi um dos seus maiores precursores, mas Sousandrade, Afrânio Peixoto, Oswald de Andrade, Lêdo Ivo, Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade, e até prosadores como Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Érico Veríssimo, criaram os seus. Mais recentemente, Millor Fernandes, Alice Ruiz e Paulo Leminski, podem ser considerados os maiores divulgadores do gênero, com Haikais primorosos e inovadores, rompendo com a hortodoxia nipônica e inventando o Haikai brasileiro, cheio de malícia, humor, crítica social, rima e outros elementos bem nossos, impossíveis de surgirem no Japão.

 

É uma tradição que se renova por onde passa. Anibal Beça, Olga Savary, Glauco Mattoso, Leila Míccolis, Ricardo Silvestrin, João Ângelo Salvadori, Sandra Santos, Alonso Alvarez e outros, são renovadores da maior importância. Pra não deixar passar em branco, podemos acrescentar à essa plêiade de interessados no haicai nomes como os de Jorge Luis Borges, Mario Benedetti, Allen Guinsberg e Jack Kerouac.

 

O Haicai Quebra-Cabeça de Sandra Santos

 

Algumas das melhores idéias em arte surgem de forma inusitada. A partir de uma provocação do evento Porto Poesia, que acontece anualmente em Porto Alegre/RS, a poeta e artista plástica Sandra Santos teve de dar asas a imaginação e, literalmente, “quebrar a cabeça” para criar um “objeto-poético” para a Exposição Livros e Não-Livros, que aconteceria no Centro de Cultura Érico Veríssimo. O resultado foi um experimento lúdico, um jogo, uma brincadeira na forma de um quebra-cabeça onde as peças, coloridas, contendo versos isolados, independentes, à maneira de Haikais (5-7-5 sílabas), podiam ser combinados e recombinados formando poemas dentro dessa métrica e, nessas combinações, criar formas e desenhos com estes suportes. É interessante sublinhar que, nessa brincadeira de juntar versos, formar nexos, construir poemas, em muitos casos a junção das peças formava poemas que remetiam às origens do Haikai, o Tanka, formando poemas com versos de 5-7-5/7-5 ou 5-7-5-/5-7 sílabas, praticamente um Tanka, que, tradicionalmente tem 5-7-5/7-7 sílabas. A solução plástica, a brincadeira de linguagem, o exercício de nexos e a construção do poema, tudo dentro deste jogo lúdico de quebrar-cabeça e produzir sentido, encontrar arte, por si só, é uma descoberta genial e fascinante. Ao meu ver, essa sacada deveria correr mundo e ganhar as cabeças de gente pequena, média e grande. Parabéns Sandra!

 

Alexandre Brito 

 

haicai quebra-cabeça on line

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