No dia 10 de maio de 1986, Padre Josimo Morais Tavares, tombava na cidade de Imperatriz - MA diante da sede da CPT. Hoje, estamos fazendo memória deste evento, da cruz pós-moderna, da bala assassina que penetrou no corpo desse padre pastor e profeta. É um dia de reencontro com o passado, com a história de nossas Comunidades Eclesiais de Base, com a memória libertadora e, principalmente, com o testemunho, a amizade, a palavra daquele que anunciou a Palavra e com a teimosa fé-esperança que sustentaram a vida e a prática pastoral do tão nosso, companheiro e irmão, Padre Josimo Morais Tavares.

Há 20 anos atrás, o Brasil vivia momentos de transformações políticas e econômicas que dinamizavam o cenário das relações políticas. Na região do Bico do Papagaio a situação não se diferenciava. Com o anuncio do fim do regime ditatorial havia uma rearticulação política das oligarquias rurais na chamada Nova República. A luta social se encontrava diante de fortes momentos de tensão e conflito por parte de fazendeiros e trabalhadores rurais que tinham na Igreja, na CPT, nos sindicatos e nos novos movimentos sociais do campo uma esperança em ver realmente a Terra partilhada para todos e todas.

Josimo é a testemunha fiel e nos ensina de que vale a pena dar a vida pela causa do Reino, das comunidades e do povo. Sua morte significou o compromisso assumido em denunciar as estruturas de morte alimentadas pelas injustiças políticas de mandos e desmandos de uma oligarquia rural que ousava (ou ainda ousa) se estabelecer no poder da República. É neste sentido que Josimo se torna o padre mártir da Pastoral da Terra ao selar com seu sangue uma opção, um compromisso e um engajamento na defesa dos oprimidos, em especial, os trabalhadores rurais. Poderíamos relembrar os versos de Pedro Tierra escritos por ocasião do martírio de Padre Josimo em maio de 1986:

Quem é esse menino negro
Que desafia limites?

Apenas um homem.
Sandálias surradas.
Paciência e indignação.
Riso alvo.
Mel noturno.
Sonho irrecusável.

Lutou contra cercas.
Todas as cercas.
As cercas do medo.
As cercas do ódio.
As cercas da terra.
As cercas da fome.
As cercas do corpo.
As cercas do latifúndio.

Em seu belíssimo Testamento Espiritual pronunciado durante a Assembléia Diocesana de Tocantinópolis no dia 27 de abril de 1986, poucos dias antes de seu assassinato, dizia Josimo que sua morte estava anunciada, encomendada e prescrita nos anais das correntes que desejavam ardentemente eliminá-lo. Novos Anás e novos Caifás já o haviam julgado. Mas Josimo se encontrava firme, pois havia assumido o seu trabalho pastoral no compromisso e na causa em favor dos pobres, dos oprimidos e injustiçados, impulsionado pela força do Evangelho. Dizia Josimo: "Tenho que assumir. Agora estou empenhado na luta pela causa dos pobres lavradores indefesos, povo oprimido nas garras dos latifúndios. Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará a seu favor?".

Diante de tanta fé e de uma teimosia do Reino inexplicável, Josimo sentia-se fortalecido pela experiência de Deus, pois se encontrava dentro do próprio Deus. Com certeza, Josimo fez a experiência de Deus que somente os grandes místicos da humanidade fizeram. Um homem que chega a ponto de saber que terá seu sangue derramado em defesa dos pobres e pela causa do Reino só pode ter tido a experiência concreta do Deus que se fez gente entre os homens e mulheres.

Para Josimo ser padre significava sentir a vida brotando como serviço justo a Deus e aos pobres, sobretudo. Para ele, o culto, a eucaristia, a teologia do sacrifício significava o agrado que fazemos a Deus no serviço aos pobres, aos doentes e marginalizados da sociedade. Percebemos nos escritos, nos poemas e nos registros de Josimo uma profunda intimidade com sua opção primeira, a saber: a Diakonia, ou seja, o serviço, o estar sempre servindo aos mais necessitados. Necessitados do Bico do Papagaio eram os trabalhadores rurais expulsos e espoliados da terra pelos grandes fazendeiros locais e pelos políticos ao estilo coronelista. Portanto, ser padre Josimo era ser Profeta na Justiça, Pastor na Caminhada e Sacerdote humilde que procurava oferecer a Deus oferendas justas. Josimo é a própria oferta. Tornou-se um ofertório vivo para nossas comunidades e para a construção do Reino.

Com certeza, a memória dos 20 anos do martírio de Padre Josimo nos traz à luz a experiência das CEBs, da Igreja Povo de Deus, Igreja Povo Novo enquanto sinal do Reino de Deus no mundo. São passados 20 anos e a Igreja mudou tanto. Lembro-me dos encontros vocacionais que fazíamos no final da década de 80 e início da década de 90, movidos pela forte presença desse jovem padre que deu sua vida pelo Reino na defesa da terra e dos trabalhadores rurais do Tocantins. As CEBs eram o modelo de Igreja que vivíamos com muita alegria e esperança. Nossa vocação à vida religiosa e consagrada tinha como testemunho as experiências dos mártires da América Latina. Hoje, parece que as coisas já não são mais assim. Perdemos os testemunhos. Há alguns dias atrás perguntei a um jovem vocacionado se conhecia a história de Josimo, do Padre Josimo e me veio a frustração de que havia ouvido falar sim de um padre comunista que morreu no Tocantins porque havia se envolvido com os sem terras (em tom preconceituoso). É lamentável ver as opções dos novos padres de hoje. Compromissos que não são evangélicos. Ao contrário, profundamente carreiristas e sem nenhum engajamento pastoral que leve a práticas pedagógicas de transformação do meio e das situações de morte. A figura de padre hoje se baseia no comodismo, nos status quo e na busca pelo poder de uma Igreja que retoma o sentido da cristandade.

Novos Josimos só surgirão quando a Igreja novamente for sinal vivo do Reino de Deus, quando estiver ao lado dos pobres e oprimidos, dos fracos e perseguidos; quando denunciar as injustiças e as opressões cometidas contra o povo; quando anunciar a esperança, a fé, o amor e a alegria aos pobres. Novos Josimos surgirão quando a Igreja assumir uma forma Ministerial de ser Igreja. Sabemos que muitos padres estão surgindo, mas sem nenhuma semelhança do que fora Josimo.

Se o latifúndio e a UDR matou Josimo, a Igreja e o clero o enterraram de vez na história. Poucos se lembram desse dia. Poucos se interessarão em ler acerca desse humilde padre do Bico do Papagaio que não foi protagonista da história porque queria ver o povo sendo sujeito da história e não simples objetos de sua ação pastoral.

Portanto, 20 anos sem Josimo? Não. São 20 anos com Josimo. Ele continua vivo. Vivo nas memórias do povo, nas experiências dos educadores populares, nos escritos da Teologia da Libertação e no compromisso dos poucos agentes de pastorais que continuam reafirmando o mesmo compromisso com o Reino, com a causa de um novo mundo, com a justiça social e a solidariedade para com os excluídos da sociedade. Vivo no martirológico latino-americano, alternativo por excelência, sem nenhuma ligação e reconhecimento por parte da estrutura eclesial oficial.

A história não pode perder a figura de Josimo. Ele é importante na história porque promoveu com o povo a história. Com Josimo, os dominados contam suas histórias. Com Josimo, a história não é na lógica da classe dominante. Com Josimo, os dominados são os sujeitos históricos. É por isso que há 20 anos estamos com Josimo e não sem ele. Evidentemente, Josimo está mais presente no povo do que no clero o que não impede que se possa haver mudanças. Neste sentido, a Igreja de hoje precisa, urgentemente, continuar refletindo sobre o sentido cristão do martírio, da entrega, da doação da vida pela causa do Reino. Caso contrário, se definhará nela mesmo e deixará de anunciar o Evangelho da Liberdade como fez Padre Josimo Morais Tavares. Josimo vive.

Claudemiro Godoy do Nascimento
Filósofo e Teólogo. Mestre em Educação/Unicamp. Doutorando em Educação/UnB. Professor da Universidade Federal do Tocantins – UFT/Campus de Arraias.
E-mail: claugnas@uft.edu.br / claugnas@yahoo.com.br

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