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O racionamento que não houve: simplificações, especialistas e síndrome gaulesa

Uma análise da cobertura realizada pela mídia brasileira da “crise elétrica” do início deste ano permite retirar algumas lições sobre o que não se deve fazer diante de eventos complexos, que envolvem vários interesses e que podem ter impactos significativos sobre a vida das pessoas.

A cobertura da mídia na ocasião apresentou três equívocos básicos e recorrentes: a simplificação inadequada de assuntos complexos; a falsa neutralidade dos especialistas; e a síndrome gaulesa.

A simplificação:

A discussão sobre o setor elétrico é extremamente complexa; particularmente no nosso caso em que o regime de chuvas desempenha um papel essencial na disponibilidade de água nos reservatórios e, portanto, na oferta final de energia elétrica.

No Brasil, o comportamento das chuvas pode ser dividido em dois períodos: a estação úmida e a estação seca. Em relação a esta última, não há muitas incertezas. Este é um período caracterizado por um volume muito baixo de precipitações e a probabilidade de ocorrência de volumes significativos de chuva é muito pequena. Entretanto, a coisa muda de figura quando a questão envolve a estação úmida. Neste caso, a definição sobre o período, a duração e a intensidade das chuvas é mais difícil. Isto significa que, assim como existe a probabilidade das afluências serem muito menores do que as esperadas, existe também a probabilidade delas serem muito maiores.

Face a isto, o risco do arrependimento do uso desnecessário da geração térmica, em função dos seus custos mais elevados do que a geração hidráulica, é muito maior no período úmido do que no período seco.

Para se ter uma idéia, em seu programa inicial de operação para o mês de Janeiro, o Operador Nacional do Sistema esperava que as afluências fossem 90 % da média histórica (Média de Longo Termo), no Sudeste/Centro-Oeste – no ano passado esse valor foi de 175 %. No entanto, o mês de Janeiro começou com uma média de 60 % da MLT, e na segunda semana esse valor se reduziu para 46 % da MLT. Porém, nas semanas seguintes houve uma inflexão, e a média subiu para 58 %, depois para 75 %, atingiu 106 %, e na semana de 02 a 08 de Fevereiro alcançou 126 % - no ano passado a média do mês de Fevereiro foi de 156 % da MLT. Portanto, houve uma mudança importante do contexto entre a segunda semana de Janeiro e a primeira semana de Fevereiro. Ou seja, em um período curto de tempo, o comportamento das chuvas mudou significativamente. Surpreendente? Não. Esta mudança não é surpreendente, quando se trata da estação úmida.

Estas informações sobre a natureza incerta da estação úmida sempre estiveram presentes. Principalmente, na discussão no final do ano passado sobre a adoção da Curva de Aversão ao Risco (CAR). No próprio documento do ONS sobre essa adoção, esta questão era discutida, servindo como argumento para a utilização de uma CAR menos severa, no período úmido, do que a proposta inicialmente. Contudo, ela foi abstraída da discussão e toda a ênfase foi dada à probabilidade de não chover e a ameaça de racionamento daí decorrente.

Desse modo, simplificou-se a discussão, retirando a característica essencial do objeto em discussão: sua imprevisibilidade; tanto para mais quanto para menos chuva.

Enfim, enfatizou-se a inexorabilidade do que não era inexorável.

Os especialistas:

Dada a complexidade do setor elétrico, é muito difícil falar em especialistas nesse tema. O que há são especialistas em determinados temas relativos ao setor. Por outro lado, dado o elevado peso das instituições na operação e expansão do setor, a luta política em torno de regras e procedimentos que favoreçam, ou que pelo menos não prejudiquem, determinados agentes é muito pesada. De tal forma que, na maioria das vezes, os especialistas não estão fazendo análises isentas, mas simplesmente verbalizando interesses bastante concretos, porem raramente expressos como tais.

Nesse sentido, suas análises têm um forte caráter político no que concerne à defesa, na arena pública, de determinados interesses presentes no setor (comercializadores, consumidores livres, distribuidores, geradores, consumidores industriais de gás, etc.), que transcende, em muito, a dimensão estritamente técnica.

Nesse caso, o recurso aos especialistas, na intenção de obter uma posição técnica e isenta, encobre mais os interesses em disputa, do que os explicita; distorcendo o quadro dos acontecimentos ao invés de aclará-lo. Na verdade, os especialistas fazem muito mais lobby do que análise.

Enfim, enfatizou-se a isenção do que não era isento.

A síndrome gaulesa:

Os gauleses, vide o Asterix, têm um temor: que o céu lhes caia sobre a cabeça. E a mídia brasileira, ao que parece, também. Dessa maneira, passamos todo o tempo sob a ameaça de que o céu cairá sobre nossas cabeças; quer na forma de uma epidemia de febre amarela, de uma crise de energia elétrica ou de gás, ou de qualquer coisa que o valha. Dessa maneira, os problemas adquirem uma dramaticidade que eles não têm, gerando um histerismo desnecessário.

Assim, se fosse possível, em Janeiro, teríamos observado uma corrida aos supermercados em busca de pilhas para enfrentar o racionamento que viria de forma inexorável; como ocorreu nos postos de vacinação contra a febre amarela.

É evidente que não é possível discutir os problemas dessa forma, pois nesse tipo de confusão, alguém acaba batendo a carteira de alguém. Geralmente, a vítima é o crédulo que acreditou na confusão armada pelos mais espertos. Dessa maneira, quem dança é quem compra as pilhas e quem se dá bem é quem as vende.

Enfim, enfatizou-se a dramaticidade do que não era dramático.

Em suma, problemas como o ocorrido no início deste ano no setor elétrico brasileiro precisam ser tratados com mais cuidado, de forma a não simplificar o que não pode ser simplificado; a não apresentar como isento aquilo que não é isento; e a não apresentar como dramático aquilo que não é dramático.

Pode não ser a forma mais fácil de fazer as coisas, porém é a mais honesta.

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Comentário de Rômulo Vita Filho em 18 março 2009 às 19:47
Ronaldo boa tarde,
belíssimo texto, enxuto, didático, vai direto ao(s) ponto(s).
PS: mesmo sem a concordância da profeta do apocalipse, a Míriam Leitão.
Sds

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