Cotistas da UnB só perdem em exatas: O Correio Brasiliense publicou em 17.08 (http://www.correiobraziliense.com.br /html/ sessao_13/2008/08/17/noticia_interna,id_sessao=13&id_noticia=25702/noticia_i…

Cotistas da UnB só perdem em exatas:

O Correio Brasiliense publicou em 17.08 (http://www.correiobraziliense.com.br /html/ sessao_13/2008/08/17/noticia_interna,id_sessao=13&id_noticia=25702/noticia_interna.shtml), uma interessante (e tendenciosa) matéria a respeito das cotas raciais e os resultados na UNB. Outros estudos já revelaram a mesma tendência, como da UFP e da Unicamp. Não pode ser impugnado a priori. Antecipo minha conclusão: os jovens mais pobres, diante de uma oportunidade, são mais dedicados, o que, em absoluto, confere validade ao racialismo.

Aliás, advogo a favor de cotas sociais e também de ações afirmativas para que o Estado faça investimentos públicos favorecendo os ´talentos´ que se encontram na rede pública, cuja oportunidade, se assegurada e financiada, renderá notáveis estudantes. Sempre cito a história do saudoso Florestan Fernandes, um exemplar disso.

Como ativista contra o racismo e na condição de afro-brasileiro, pai de dois jovens (18 e 16) pré-vestibulandos, nos debates com Educafro, estudantes e o movimento negro, sempre procuro demonstrar a perversidade: 80/90% desses talentos se tivessem ensino médio de qualidade ou, os já formados, apenas um ano a mais de um bom cursinho, integral, com bolsas etc., ingressariam com a disputa pelo mérito, em igualdade de condições, sem o estigma das cotas raciais. O problema não é de mérito no aprendizado, mas da falta de acesso ao conhecimento. Por decorrência, as cotas raciais, na verdade, beneficiam apenas 10/20% dos cotistas, aqueles que não ingressariam, não fosse o privilégio da reserva de vagas. São exatamente estes que serão jubilados ou dependerão da ´compaixão´ nas notas, senão forem desistentes. Os Estudos do Doutor THOMAS SOWELL com cotistas nos EUA, nas décadas 70 e 80, apontam nessa direção, em percentuais mais elevados. O absurdo disso é que para beneficiar 10/20% - que não aproveitarão a oportunidade por ´n´ razões, condena-se ao estigma da inferioridade os100% de jovens afro-brasileiros, além de produzir efeitos colaterais que cicatrizam a personalidade de nossa juventudade - todos - na idade mais insegura da vida, que é a corrida para o vestibular na universidade pública de qualidade, haja vista ainda, que tal mecanismo tende a permear o senso comum, reforçando, negativamente, a consideração da crença em raças diferentes para a outorga de direitos/exclusões.

O problema ético maior, é que, os efeitos colaterais não são imediatos e levarão uma, duas gerações para a consolidação, alterando, substancialmente, a vida das futuras gerações de brasileiros, brancos e pretos.

Portanto, é possível e não é contraditório com a oposição ao racialismo, reconhecer que os cotistas tenham rendimento igual e até melhor em ciências humanas, área em que a inconsistência do ensino público não é tão relevante para acompanhamento dos cursos. Aponto até um fator psicológico: os não cotistas, oriundos da classe média/alta, provavelmente são desinteressados, pouco esforçados nos estudos, pois não conseguiram competir nas áreas mais disputadas com seus iguais e, provavelmente, o aproveitamento do curso superior não seja a única e grande oportunidade da sua vida. Enquanto ao cotista, pela rara oportunidade numa universidade pública, será muito mais dedicado, e, sabedores que essa é a ´única´ change, serão mais esforçados também.

Em decorrência, a questão não é o rendimento pós-ingresso, o que contestamos é o pressuposto da preferência em bases ´raciais´, na seleção, um mecanismo perverso que resultará no aprofundamento do racismo entre nós, exatamente, na vida dos jovens em formação, futuro profissional e futuras lideranças nas empresas, na política, no mercado de trabalho, nas universidades, o que é prenúncio de divisões perigosas.

Finalizo com um exemplo prático, pessoal e familiar: filhos de trabalhadores rurais, migrantes do êxodo rural do Paraná, no início da década de 1970. Minha irmã, não concluiu o primário na escola rural. Em São Paulo, com 19 anos fez madureza. Foi bancária (Bradesco) com um ano de cursinho, ingressou em Geografia na USP. Fez mestrado USP e doutorado na Unesp (meio-ambiente). Desde 1985, por concurso, é professora titular da Universidade Federal de Rondônia - UNIR e tem uma brilhante carreira na área, requisitada para os principais RIMA´s da região amazônica.

Bem, o estudo do Prof. Jacques Velloso merece apreciação, porém, não justifica as cotas raciais mas explica outra coisa: nossos jovens precisam e esperam uma oportunidade. Enfim, estão escrevendo certo, por linhas tortas??

abraços,

"No coração de uma laranja dormitam sementes de um laranjal"
(Hermógenes, o filósofo)
J. Roberto Militão, membro da Comissão de Assuntos AntiDiscriminatórios CONAD-OAB/SP
(11) 3837.9959 - cel. (11) 7456.7412 -
robertojmilitao@aasp.org.br - militaoj@terra.com.br



Eis a notícia:

Cotistas da UnB só perdem em exatas

http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_13/2008/08/17/noticia_interna,id_sessao=13&id_noticia=25702/noticia_interna.shtml

Cotistas da Universidade de Brasília têm rendimento melhor do que os demais alunos na área de Humanas, mas suas notas são piores em Exatas

Ana Beatriz Magno - Correio Braziliense Publicação: 17/08/2008 08:38 Atualização: 17/08/2008 08:45

Laila Ramos Antunes cumpre na pele a sina de seu nome. “Laila significa negra como a noite”, diz a moça de 21 anos, aluna do terceiro semestre de enfermagem na Universidade de Brasília. “Entrei pelas cotas e não tenho vergonha disso. Não tive o privilégio de estudar em colégios particulares caros nem venho para o câmpus de carrão”.

Ela vai e volta de ônibus, mora no Guará, usa óculos espelhados, tem cabelo de trançinhas rastafári e convive com uma vontade engasgada de estudar medicina. “Eu tentei três anos e não passei. Desisti, entrei na enfermagem e estou conseguindo entender as aulas com alguma tranqüilidade. Minhas notas são boas”, explica.

A dificuldade de Laila para entrar na UnB e sua facilidade em acompanhar o curso retratam o resultado de uma pesquisa inédita coordenada pelo professor Jacques Velloso, da Faculdade de Educação. Ele compara o desempenho acadêmico dos estudantes cotistas e não-cotistas desde 2004, quando o programa de cotas raciais foi criado, e mostra que a performance dos alunos varia de acordo com a faculdade escolhida.

As notas dos estudantes da área de Saúde, por exemplo, não têm cor. Cotistas e não-cotistas empatam. “São cursos muito disputados no vestibular. O nível de quem entra é muito alto independentemente das cotas e, por isso, durante a faculdade as notas são muito parecidas”, explica o educador Jacques Velloso. “Esse empate ocorre em um terço dos 62 departamentos da UnB”.

Os cotistas empatam com os não-cotistas na Saúde, ganham nas Humanidades e perdem nas Exatas. “Nas Exatas, o aluno precisa de base forte em matemática e física. Essa base ainda é fraca nas escolas públicas de onde vem a maioria de quem entra pelas cotas”, analisa a pedagoga Claudete Batista Cardoso, 27 anos. “Já nos cursos de Humanas, os alunos cotistas podem usar sua experiência social e cultural para obter um bom rendimento acadêmico”, completa Jacques Velloso.

Velloso orientou a dissertação de mestrado de Claudete defendida em maio passado sobre as chamadas políticas de ação afirmativa — aquelas que pretendem compensar séculos de exclusão social, com a concessão de alguns benefícios. Podem ser por raça, por renda familiar, por local de estudo. A UnB optou pelo programa de cotas raciais e há quatro anos garante 20% das vagas no vestibular para afrodescendentes.

Todos têm que comprovar suas raízes. As facilidades, no entanto, acabam no momento da matrícula. “No meu trabalho tentei mostrar que não basta criar o programa de cotas para a entrada na universidade”, analisa Claudete, integrante da equipe de pesquisa de Jacques Velloso. “Os dirigentes da UnB precisam dar mais atenção a esses estudantes depois que eles entram, justamente para ajudar os que têm as notas menores e sofrem pela falta de base no ensino fundamental.”

Felipe Guimarães de Oliveira, 20 anos, morador de Samambaia, sofre para acompanhar o terceiro semestre de engenharia mecatrônica — curso difícil de entrar e dificílimo de terminar: menos de 10% dos alunos conseguem atravessar os cinco anos de faculdade sem ser reprovado em alguma matéria pelo menos uma vez. Felipe bombou já no primeiro período. Foi reprovado em cálculo 1, o bicho-papão dos calouros de Exatas.

“Eu ralo muito. Sempre estudei em colégio público. Era bom aluno, mas já nas primeiras semanas de UnB percebi que eu estava muito distante dos meus colegas. Meus hábitos de estudos eram fracos, me faltava disciplina. Estou tentando me adaptar”, diz Felipe. “Meus pais não têm curso superior. Sou uma exceção aqui dentro. Não é só na cor. É em tudo”.

O rapaz viaja duas horas de ônibus para ir e voltar do câmpus, não fez cursinho nem tem laptop. “Isso tudo influencia. Acho que a universidade deveria ter um programa de reforço acadêmico para nós, cotistas. Às vezes, a reitoria manda umas cartinhas, mas é só isso”, lamenta.

A direção da UnB reconhece que há falhas no programa de cotas. “Estamos tentando reestruturá-lo. Antes, ele era ligado ao gabinete do reitor. Agora, queremos vinculá-lo ao Decanato de Graduação”, explica o professor Luiz Gonzaga Motta, secretário de Comunicação da universidade. “O programa de cotas não pode ser uma jóia política do reitor. Tem que ter finalidades acadêmicas”, emenda Motta.

Humanidades:

Se nas engenharias, as notas dos cotistas perdem até dois pontos em relação aos não-cotistas, em várias cursos de Humanas o resultado é inverso. “As diferenças não são tão grandes como na engenharia, mas mostram que o estudante de cota pode se superar quando tem a chance de entrar na universidade”, analisa a socióloga Maria Francisca Coellho, professora do departamento de sociologia. “Isso é bom, democratiza a universidade e investe num valor que vai além da competição.”

Lucas Augusto Santos Batista achou que não conseguiria ganhar a árdua competição para entrar no curso de relações internacionais. Tentou uma vez sem o apoio do programa de cotas. Não conseguiu. “Fiquei com medo de ser reprovado mais uma vez e me inscrevi como cotista. Sou negro, mas não sou pobre. Moro no Plano Piloto e sempre estudei em colégio particular”, diz o rapaz de 18 anos, no terceiro semestre de relações internacionais. “Quero ser diplomata. Não estou com dificuldades na faculdade.”

As pesquisas do professor Velloso mostram que o temor de Lucas não é despropositado. Sem as cotas, um jovem negro teria menos da metade das chances de entrar na faculdade do que com as cotas. “É inegável que o programa tem seus méritos, mas mesmo assim eu discordo das cotas. Só está entrando uma elite negra na universidade, o que desperta uma rivalidade racial dentro do câmpus”, pondera o professor de relações internacionais Paulo Nascimento. “Acho muito mais interessante um programa que beneficie os alunos das escolas públicas, independentemente de suas raças.”

“Lógico que também seria interessante se tivéssemos cotas para os colégios públicos, mas não podemos descartar o que já conquistamos em matéria de democratização do acesso com as cotas raciais. Elas melhoraram a universidade”, rebate a socióloga Maria Francisca. Em matéria de dedicação dos estudantes, os números a apóiam. Os alunos cotistas abandonam menos os cursos. Em 2005, por exemplo, enquanto a evasão dos não-cotistas ficou em 16%, a dos cotistas não passou de 10%.

“Mas no geral, os dados mostram que as cotas correspondem a uma correção necessária para melhorar o acesso à universidade, porém seus resultados são muito pequenos para corrigir as desigualdades sociais e raciais do país”, conclui o educador Jacques Velloso. “Sou de cota, mas sou bom. Sou bom porque tive uma educação fundamental boa. Isso é uma exceção para os cotistas, mas não é um problema dos cotistas. É um problema do Brasil”, ensina o futuro engenheiro mecânico Lúcio Gomes Nascimento, de 19 anos.

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Comentário de Luis Nassif em 22 agosto 2008 às 1:10
Militão,
algumas dicas de edição.
Para colocar o link no comentário, primeiro copie o link. Depois escreva algo como "clique aqui". Passa o cursor em cima do "clique aqui" e depois clique naquele comandinho ali em cima, de uma corrente. Abre uma janela para você colocar o link
Outra coisa: experimente títulos de no máximo 45 toqwues.
Abraçao

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