As repúblicas muçulmanas estão inquietas na Rússia

As repúblicas muçulmanas estão inquietas na Rússia

Fonte: Der Spiegel

Uwe Klussmann

Apesar de a Rússia estar celebrando a independência da Abcásia e da Ossétia do Sul, ainda tem seus próprios problemas na região, enquanto repúblicas muçulmanas caminham na direção de uma guerra partidária.

Na última segunda-feira, uma procissão funeral sombria atravessava o centro de Nazran, na república russa da Inguchétia. Centenas de pessoas silenciosamente se agrupavam em torno do caixão de Magomed Yevloyev. O advogado de 37 anos foi fundador do site www.ingushetiya.ru, que era crítico do governo, e foi morto quando estava sob custódia da polícia. As autoridades disseram que ele levou um tiro inadvertidamente em um carro da polícia - apesar da mira ter sido precisa o suficiente para a bala entrar em sua têmpora.

Um cordão policial de máscaras negras, escudos e cassetetes de borracha pressionava o velório. O governo aparentemente estava com medo do morto e de seus parentes, que anunciaram que executariam uma vingança de sangue, como é costume no Cáucaso.

O site de Yevlovyev era o último meio livre neste reino minúsculo e inquieto, que é apenas ligeiramente maior que o Estado de Rhode Island, nos EUA, e tem menos de 500 mil habitantes. O que particularmente desagradou os governantes foi o fato de apenas uma letra ('y') diferenciar o endereço online do site oficial da república.

A Inguchétia é governada por Murat Zyazikov, ex-general de serviços de segurança russo, que mora em um palácio extravagante na nova capital virtualmente deserta de Magas. A missão de Zyazikov é criar empregos e estabilidade, como disse ao Spiegel, acrescentando que os inimigos precisam ser "colocados na tocha". Em privado, Zyazikov gosta de admitir seu amor pela "ordem e limpeza alemãs".

Mas no que concerne a ordem, não há muito a ser encontrado na Inguchétia atualmente. Enquanto Zyazikov está determinado a transformar a Inguchétia em uma "Suíça do Cáucaso", as agências de segurança russas vêem esta minúscula república como o terreno mais problemático da Rússia, especialmente depois da ofensiva militar de Moscou contra a Geórgia.

Em resposta ao reconhecimento russo das repúblicas separatistas georgianas de Abcásia e Ossétia do Sul, o candidato presidencial americano John McCain disse que, depois da Rússia reconhecer a independência da Ossétia do Sul e Abcásia, os países ocidentais devem pensar sobre a "independência do Cáucaso do Norte e da Tchetchênia". Isso definitivamente jogaria óleo no fogo.

Os habitantes muçulmanos da Inguchétia viviam junto com os cristãos da Ossétia. Então, Stalin dividiu o território e uniu os inguchétios com os tchetchenos. Em 1944, ele deportou os dois povos para a Ásia Central. Depois do colapso da União Soviética, os inguchétios formaram sua própria república. Em 1992, as tensões com os ossétios levaram a uma guerra sangrenta. Os russos enviaram 12 mil soldados para combater do lado dos ossétios.

Depois disso, a Inguchétia caiu em pobreza, desenvolveu um índice de desemprego de 80% e a maior taxa de natalidade da Rússia. Depois da guerra na vizinha Tchetchênia, a região tornou-se um reduto de islâmicos armados.

Esses insurgentes matam policiais e agentes do serviço secreto quase todos os dias, explodindo veículos e granadas contra prédios do governo. Só nos primeiros seis meses de 2008, 70 policiais foram mortos durante ataques armados na Inguchétia. Ainda assim, os esquadrões da morte do governo são tão cruéis quanto os terroristas muçulmanos. Durante batidas "preventivas" em busca de suspeitos, agentes mascarados do Estado seqüestram e matam jovens.

Os militantes islâmicos estão lutando por um "emirado caucasiano", que esperam que um dia se estenda do mar Cáspio até o mar Negro. Eles também recebem uma grande quantidade de recrutas das repúblicas vizinhas, como Kabardino-Balkária, Kharatchaiev-Tcherkássia e Daguestão. Os homicídios também são comuns no Daguestão, cuja população de 2,6 milhões torna-a a maior república no Cáucaso do Norte. Na semana passada, o jornalista Telman Alishaev, que trabalhava para a "televisão islâmica", foi morto na capital, Makhachkala.

Por um longo tempo, os inguchétios foram vistos como primos tranqüilos dos selvagens tchetchenos. Durante a guerra entre a Tchetchênia e Moscou, a Inguchétia permaneceu mais ou menos uma ilha de tranqüilidade - mas era também um hospital militar secreto para combatentes tchetchenos feridos. O presidente Ruslan Aushev garantia certo grau de estabilidade e agia como se fosse leal a Moscou, mas na verdade, continuava amigo dos tchetchenos.

O ex-presidente Vladimir Putin quis deixar clara sua posição e substituiu Aushev em 2002, durante as eleições no Duma, câmara baixa do parlamento russo. Os inguchétios deram resultados recordes para a lista de candidatos do partido Rússia Unida, de Putin: 98,72%.

Ainda assim, as coisas ainda fervilhavam por baixo da superfície. Em novembro, as forças de segurança mataram o menino Rakhim Amiryev, de seis anos de idade, com um tiro na cabeça, durante uma "operação especial" na aldeia de Chemulga. O site de Yevloyev fez extensas reportagens sobre o assassinato do menino e a fraude na televisão. As reportagens revoltaram as pessoas, e os governantes não o perdoaram.

O assassinato de Yevloyev pode marcar um ponto de virada. Na semana passada, o oposicionista "Parlamento do Povo da Inguchétia" lançou uma petição. O objetivo da iniciativa é a separação da Federação Russa.

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