Mais uma vez o fantasma boliviano volta a ameaçar a segurança do nosso suprimento de gás. Um espectador desatento, diante da contundência do noticiário, fatalmente chegará à conclusão de que nossos vizinhos andinos são os grandes responsáveis pelas nossas agruras gasíferas.

No entanto, a evolução recente da indústria de gás no Brasil tem seguido uma lógica que, de fato, passa muito mais próxima de questões que são autenticamente tupiniquins do que de problemas derivados diretamente da Bolívia.

A nossa capacidade de importação de gás da Bolívia é de 30 Mm3dia (Milhões de metros cúbicos por dia). Isso é o máximo que podemos tirar dos nossos vizinhos andinos usando a gasoduto Brasil – Bolívia (o chamado GASBOL). O nosso consumo, em números redondos, gira em torno de 50 Mm3dia.

Olhando esses números, o caro leitor diria, sem pestanejar, que o gás boliviano é crucial para o atendimento da demanda de gás brasileira. Porém, a questão é mais complexa do que isso e é necessário ir além desses números para entender por que o que aconteceu e o que acontecerá na nossa indústria de gás pode passar ao largo das selvas e do altiplano andino.

Para entender essa história é preciso introduzir um outro personagem: o setor elétrico brasileiro e suas especificidades.

Como todos sabem, o setor elétrico brasileiro é essencialmente hidráulico. O papel fundamental das térmicas no Brasil é fazer o hedge físico do risco hidráulico. Trocando em miúdos, cabe as térmicas a geração de eletricidade quando as chuvas não são suficientes para encher os reservatórios. Nesse sentido, o seu uso depende das chuvas: quanto mais chuvas, menos térmicas; quanto menos chuvas, mais térmicas.

Voltando aos números redondos, a capacidade instalada de térmicas a gás no Brasil é de, aproximadamente, 10 GW. Se houvesse a necessidade de despachar todas elas, seriam necessários 50 Mm3dia.

Note, caro leitor, que esse valor é mais do que uma vez e meia o volume de gás que podemos importar da Bolívia. Face a isso, é aqui que está o cerne da questão do gás brasileiro: na relação entre a indústria de gás e a indústria elétrica.

O problema principal para a indústria de gás é que em determinados momentos, quando as chuvas são desfavoráveis, é preciso mobilizar grandes volumes de gás para o setor elétrico e, em seguida, quando as chuvas melhoram, desmobilizar esses mesmos grandes volumes.

Desse modo, a questão colocada é o que fazer com o gás e toda a sua infra-estrutura quando não estão sendo utilizados pelo setor elétrico. Já que não há economicidade que agüente a ociosidade desses ativos durante os períodos em que as chuvas impõem a sua inutilidade.

Diante disso, é necessário introduzir flexibilidade, tanto na oferta quanto na demanda de gás, para acompanhar as flutuações da demanda específica do setor elétrico que, ao final, dependem do imprevisível regime de chuvas.

Pelo lado da oferta, contrapondo-se à rigidez física e contratual dos gasodutos, recorre-se ao Gás Natural Liquefeito (GNL). Pelo lado da demanda, contrapondo-se à rigidez dos contratos firmes de suprimento, recorre-se aos contratos interruptíveis de gás – nesses contratos, o gás destinado ao setor elétrico é substituído por outro combustível, que será usado até o setor elétrico, quando não precisar mais, liberar esse gás para o uso nos setores que o estavam usando anteriormente.

Desse modo, o atendimento do equilíbrio entre oferta e demanda de gás pode ser feito de forma mais flexível do que aquela representada pela combinação de gasodutos e contratos firmes.

Foi para equacionar esse problema que o Governo brasileiro intensificou suas ações, principalmente a partir do segundo semestre do ano passado.

No lado da oferta, intensificou-se o ritmo de implantação das duas plantas de regaseificação de GNL – Ceará e Rio de Janeiro - no país, que somadas alcançam a capacidade de 22 Mm3dia.

No lado da demanda, intensificou-se a implantação de contratos interruptíveis, que depois de uma duríssima negociação entre a Petrobrás, as distribuidoras e as indústrias que consomem gás, atingiram algo em torno de 7 Mm3dia.

O resultado final dessa estratégia, que evidentemente não foi feita sem custos, foi a flexibilização de algo em torno de 29 Mm3dia.

Se somarmos a isso o consumo de Gás Natural Veicular (GNV), que é naturalmente interruptível, com os seus 7 Mm3dia, teremos 36 Mm3dia. Ou seja, mais do que os 30 Mm3dia que importamos da Bolívia.

Se voltarmos aos números iniciais, a história passa a ser outra. Dos 50 Mm3dia de consumo de gás no Brasil, estamos em vias de flexibilizar, de um jeito ou de outro, 36 Mm3dia, restando 14 Mm3dia rígidos. Lembrando-se que a contribuição do gás nacional para o consumo está na ordem dos 20 Mm3dia.

Esse grande movimento não foi feito a partir da preocupação com a Bolívia. Havia essa preocupação, porém ela não foi determinante. Aqui, o fator determinante foi o gás para o setor elétrico. Ou seja, equacionar os problemas associados às especificidades da relação entre os setores de gás e eletricidade no Brasil.
No entanto, esse equacionamento gera problemas estruturais, cuja resolução não é óbvia.

Esses problemas envolvem a opção pelo GNL como hedge físico ao risco hidráulico, tanto em termos de disponibilidade quanto de custos, a expansão da indústria de gás baseada exclusivamente em contratos interruptíveis, a distribuição entre os consumidores de gás das distribuidoras dos custos da interruptibilidade, entre outros.

Nesse sentido, as expectativas dos agentes do setor do gás em relação à produção do gás novo estão associadas à resolução desses problemas, e não ao problema boliviano. Contudo, nada indica que esse gás novo irá resolver esses problemas, visto que a demanda por flexibilidade para o setor elétrico continuará existindo; com ou sem gás novo.

A questão estrutural para a indústria de gás brasileira é quais são as conseqüências da introdução de tamanha flexibilidade em uma indústria de gás nascente como a nossa. Será que essa flexibilidade precoce irá gerar seqüelas que poderão atrofiar o desenvolvimento dessa indústria no país? Ou, ao contrário, será que essa flexibilidade precoce será capaz de gerar uma indústria de gás com uma capacidade de adaptação sui generis e um dinamismo que lhe é positivamente peculiar?

Em outras palavras, o que acontece quando prolongadamente ministramos em uma criança uma dosagem de adulto? Atrofia ou fortalece? O problema é que, quando a criança é o Brasil, a resposta nunca é óbvia.

Esta é a questão fundamental e, meus amigos, ela passa longe da Bolívia. No curto prazo, haverá alguns momentos de tensão, porém, no médio e longo prazo, a evolução da indústria de gás no Brasil já desembarcou solenemente da opção boliviana. Na melhor hipótese, para eles, seguiremos fazendo os investimentos necessários à manutenção do fluxo de 30 Mm3dia. Nada, além disso.

Em suma, quem tem um grande problema nessa crise específica é a Bolívia. O nosso grande problema é outro e não está na crise política boliviana, mas na difícil compatibilização entre a gestão dos nossos tradicionais reservatórios e a expansão da nossa jovem indústria de gás.

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