Argentina surpreende e antecipa a devolução de energia ao Brasil

A Argentina concluiu em Setembro a devolução da energia enviada pelo Brasil entre Maio e Agosto deste ano. Segundo o MME, os 72.628 MWh são de origem hidrelétrica e foram devolvidos com dois meses de antecedência. O envio dessa modalidade de energia elétrica foi definido pelo Conselho Nacional de Política Energética em abril e iniciada no dia 10 de maio. A ajuda ao país vizinho teve como objetivo garantir o abastecimento de energia no período, além de minimizar a escassez no período de inverno daquele país.

À época da decisão, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico, Hermes Chipp, afirmou que o suporte energético para a Argentina era baseado em um acordo que não considerava o risco de o país vizinho não devolver a energia enviada.

O acordo bilateral previa o envio de até 500 MWmed hidrelétricos do submercado Sudeste/Centro-Oeste no período entre maio e agosto, com devolução da mesma carga entre setembro e novembro, inclusive perdas.

Num cenário hipotético de não-devolução da energia hidrelétrica pela Argentina, o montante total enviado nos quatro meses previstos, de 2 mil MW MWmed, seria equivalente a apenas 1% da capacidade de armazenamento dos reservatórios.

A fonte energética de geração, que seria enviada pelo Brasil, seria escolhida pela Argentina, segundo critérios próprios - sem interferência do Brasil. Se a energia hidrelétrica estivesse mais barata para o país vizinho, o envio seria feito até o limite dos 500 MWmed. Caso a decisão fosse de comprar energia térmica (ou complementar a quantidade comprada das hídricas), os custos seriam baseados na média ponderada que envolvia a quantidade de energia e o custo variável.

O envio estava condicionado às condições eletroenergéticas nacionais; ou seja, sem restrições de transmissão ou de armazenamento.

Até aquele momento, a exportação de energia para a Argentina tinha sido baseada na geração térmica disponível e na energia hidráulica vertida turbinável, cujo pagamento era feito pelo preço mínimo de mercado. No caso da geração térmica, o pagamento era feito com base no custo variável declarado pelo agente, mais despesas de transmissão e tributos.

Na nova proposta, o envio e a devolução da energia hidrelétrica seria baseada no Preço de Liquidação de Diferenças da época da exportação e da devolução. O acordo incluía ainda a água estocada nos reservatórios das hidrelétricas. A diferença em reais entre PLDs, em favor do Brasil, seria destinada ao Mecanismo de Realocação da Energia.

Pois bem, meus amigos, contrariando todas as críticas pessimistas à decisão das autoridades brasileiras, a Argentina não só devolveu a energia, mas o fez dois meses antes do prazo. Portanto, o resultado final não deixa de ser positivo para as relações energéticas entre os países do cone sul. Com todas as suas dificuldades, esse é um caminho que teremos que percorrer no sentido de aumentar a segurança do suprimento energético no conjunto de países do continente.

Porém, resta uma questão: por que os Argentinos puderam antecipar a devolução?

Para responder tal questão recorri ao meu amigo Gerardo Rabinovich - professor da Universidade de Belgrano e diretor do Departamento Técnico do Instituto Argentino de la Energia – que me enviou as seguintes informações:

Efectivamente pudimos devolver toda la energía que nos enviaron, en especial en el mes de Junio, y luego en menor medida durante Julio y Agosto. Los factores explicativos son los siguientes:

a) menor incremento de la demanda de electricidad a partir del mes de mayo como consecuencia de la caída de la actividad económica por el conflicto con el campo; y ahora por la crisis financiera internacional y la caída de los commodities (especialmente soja y otros cereales); y por un clima en Julio y Agosto muy templado que disminuyó el requerimiento de consumo invernal en el sector Residencial (la temperatura media en este invierno fue aproximadamente 3º C superior a la media histórica);

b) recuperación de los embalses en el sur del país (Comahue), por mayor aporte hidráulico que el esperado, que permitió incrementar las reservas en forma importante;

c) a partir de Julio, y hasta fines de Agosto, se comenzó a inyectar GNL a la red desde Bahía Blanca (sur de la Pcia. de Buenos Aires), mediante un barco regasificador, con un aporte de 8 millones de m3/día destinado a plantas petroquímicas que, ayudado por el clima referido en a), permitió derivar mayores volúmenes de gas natural a la generación de energía eléctrica. El costo de estas importaciones fue del orden de 540 millones de u$s en los dos meses que duró el suministro.

No devolver la energía a Brasil, al precio que la estamos comprando, hubiera significado un costo fiscal que sumado a la compra de GNL hubiera alcanzado los 1.000 millones de u$s que prefirió evitarse, a mi criterio acertadamente, empleando combustibles locales a un menor costo (aunque sigue siendo bastante elevado).

Como verás, fue un invierno bastante suave para nosotros en materia energética, en medio de la crisis en la que estamos sumergido.

También sería importante que tengas en cuenta que se inauguró una tercer línea de 500 kV entre Yacyretá y Buenos Aires en el mes de Agosto, que permite una mayor capacidad de transporte e intercambiar hasta 2.000 MW entre Argentina y Brasil, sin restricciones al menos de capacidad. Es decir que probablemente este verano y el próximo invierno estemos pidiendo un intercambio (compensado si es posible) de hasta 2.000 MW al sistema sur sudeste de Brasil.


Para terminar, cabe lembrar que o envio da energia elétrica à Argentina envolveu, na verdade, uma triangulação com a Bolívia. Na medida em que os bolivianos não tinham gás suficiente para atender aos contratos feitos com o Brasil e a Argentina, nossos vizinhos do altiplano propuseram que liberássemos parte do nosso gás para os argentinos. A contraproposta brasileira envolveu a manutenção do nosso suprimento de gás da Bolívia e o envio de energia elétrica à Argentina, para compensar. Ou seja, não abrimos mão do gás ao qual tínhamos direito, mas compensamos enviando energia elétrica.

Enfim, diante desse rolo todo, até que o resultado final não foi ruim. O que reforça a tese de que conversar e negociar ainda é a melhor maneira de resolver os problemas com os nossos vizinhos.

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Comentário de RatusNatus em 13 outubro 2008 às 20:57
Talvez isso seja o que o Brasil estava esperando para uma real integração energética do continente, obviamente, capitaneada por aqui.

Poderíamos ter participação em todos os negócios uma vez que a distribuição continental ficaria a nosso cargo.

Humm, parece o negócio da China.
Afinal de contas, pra que construir uma térmica na Bolívia se podemos construir em Botucatu.

Ou não?

Abraço

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