O mundo não é plano

Por Luciano Trigo

Não é à toa que a economia do planeta está em parafuso: o mundo se divide entre os que atacam as forças cegas do mercado e os que exaltam a sua mão invisível, e ninguém enxerga direito o que está acontecendo: “Forças cegas” e “mão invisível” são expressões carregadas de valor, que trazem implícitas uma atitude de endosso ou de rejeição ao livre jogo do mercado. Nas suas diferentes etapas, a História do capitalismo pode ser entendida como um cabo-de-guerra entre essas duas correntes. Quando uma fracassa, a outra assume. Uma e outra têm em comum a noção de que o destino econômico dos homens é regido por algo que está além de sua razão e vontade.
Uma e outra também têm em comum a memória curta. Morre uma geração, depois outra, e erros do passado se repetem, numa versão mais sofisticada. Depois da crise de 29, por exemplo, ficou evidente que algum grau de intervenção do Estado era desejável, ou mesmo indispensável, para a economia funcionar de forma minimamente decente (muito antes, no século XIX, o poeta maranhense Sousândrade já tinha entendido isso: em O inferno de Wall Street, ele retratou a Bolsa de Valores americana como um antro de agiotas, roladores de dívidas e outros vigaristas, uma máquina devastadora concebida para promover o enriquecimento ilícito de uma minoria vendendo números falsos e informações fajutas:
“— Mas no outro dia cedo a praça, o stock,/
Sempre acesas crateras do negócio/
O assassínio, o audaz roubo, o divórcio,/
Ao smart Yankee astuto, abre New York.”).
Vieram a Segunda Guerra e o New Deal, e durante décadas os defensores do mercado aberto foram confinados a um subúrbio da teoria econômica.
No final dos anos 70, a economia americana voltou a entrar em crise, com altos índices de inflação e desemprego. A turma da mão invisível sentiu que agora era a sua vez — e voltou com força total. Depois de um laboratório no Chile de Pinochet, onde o “punho visível” americano impôs uma série de medidas que reestruturaram a economia do país, uma conspiração de fatores da geopolítica internacional disparou o processo que submeteria o planeta a uma dose cavalar de capitalismo selvagem, nos anos seguintes:
$ Margaret Thatcher, na Inglaterra, esvaziou os sindicatos, cortou impostos, reduziu e o papel do Estado e estimulou a privatização. Seu credo era que o bem-estar social depende da responsabilidade pessoal, e não do Governo.
$ Paul Volcker, presidente do Federal Reserve, o Banco Central americano, mudou o foco da política econômica americana: entre a integridade do sistema financeiro e o bem- estar da população, ficou claro que prevaleceria o primeiro.
$ Ronald Reagan levou adiante a doutrina, reduzindo impostos, cortando benefícios do Estado e desregulamentando diversos setores da economia, na chamada Reaganomics.
$ Deng Xiaoping começou a transformar a fechada China num centro aberto de dinamismo capitalista.
$ Após a derrocada do Comunismo, a ortodoxia neoliberal contaminou as instituições financeiras internacionais. O FMI se tornou um agente da promoção de políticas de “ajustamento estrutural” em países periféricos mergulhados em crises, como México, Argentina e Brasil.
$ Foi decretado o Consenso de Washington — um conjunto de regras básicas formulado em novembro de 1989 por economistas do FMI, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro americano. A receita incluía redução dos gastos públicos, privatização das estatais, desregulamentação e a eliminação de restrições ao investimento estrangeiro direto, conduzindo à globalização financeira.
Nos 30 anos seguintes, a Suderj informa, saíram de campo Keynes e o Estado do Bem- Estar Social, e voltaram Hayek, Mises e a Escola Austríaca, revigorados pelo sangue novo de Milton Friedman e dos Chicago Boys, os economistas da Universidade de Chicago eivados da missão de espalhar pelo mundo o fundamentalismo de mercado. Desregulamentar e privatizar se tornaram as palavras de ordem do novo anarco-capitalismo predatório. Mas dessa vez capricharam: uma doutrina há muito descartada foi transformada num verdadeiro credo religioso, ao qual não havia alternativa.O neoliberalismo nos foi vendido como um horizonte insuperável, como a linha de chegada da humanidade: nos fizeram acreditar que o jogo tinha acabado, e que a História concluíra seu curso — com o triunfo definitivo do ideário neoliberal. O país que não privatizasse, não liberalizasse, não desregrasse, seria simplesmente expulso da civilização. Qualquer tentativa dos países pobres de resistir à expansão imperialista da potência dominante passou a ser rechaçada como protecionismo retrógrado: o novo mercado globalizado exige a aceitação incondicional das regras estabelecidas pela economia dominante, que desconhece fronteiras e se sobrepõe aos Estados. A soberania se tornou uma ficção.
Sartre escreveu que o marxismo era “o horizonte insuperável de nosso tempo”. No seu lugar entrou a religião do mercado, com pretensão científica e aspiração à universalidade. O mundo é plano, concluiu- se, e o “novo capitalismo” era o único concebível neste planeta agora sem barreiras e de valores homogêneos: a suprema conquista da humanidade, o novo horizonte inultrapassável, que fez tabula rasa de todas as lições do passado, de toda a História do pensamento econômico.
A arquitetura financeira global se tornou basicamente a de um imenso e desregulado cassino, no qual a complexidade crescente das operações financeiras (com operações de arbitragem, derivativos e alavancagens de arrepiar os cabelos) camuflava o seu alto risco, a sua falta de lastro e o seu caráter fraudulento. E de repente, não mais que de repente, o castelo de cartas começou a ruir. Pior: como os bancos se tornaram estreitamente interdependentes por meio de uma cadeia de tomadas e concessões de empréstimos, seguros e resseguros, nessa economia de vasos comunicantes o risco de contágio ficou cada vez maior; quando o bicho pega, as instituições financeiras dão sucessivos “abraços de afogado” umas nas outras e nos seus clientes, arrastando a todos para o fundo – a não ser, ironicamente, que o Estado intervenha para salvá-las, recapitalizando empresas que nada produzem.
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Em 1980, eu era adolescente, estudava numa escola pública (Colégio Pedro II) e não fazia a menor idéia do que estava para acontecer no planeta. Mais tarde, fui da primeira geração da minha família a entrar numa universidade (também pública) e nessa altura já havia sinais claros de que algumas expectativas minhas eram ilusórias. Por exemplo, eu achava que oferecer educação de qualidade (como saúde, o transporte, a segurança, a Previdência etc) era um dever do Estado, que devolveria assim à sociedade os impostos que arrecadava. Acreditava também que, na vida profissional, como na acadêmica, o sucesso e o fracasso seriam determinados por critérios meritocráticos.
A primeira ilusão dispensa comentários: além da venda ou desmantelamento de empresas públicas, de lá para cá todos aqueles direitos elementares foram convertidos em bens e serviços, pelos quais é preciso pagar (pois, como agora ficou claro, o dinheiro que o Governo arrecada precisa ficar reservado para socorrer instituições financeiras em perigo, mesmo nos Estados Unidos, e manter o cassino em funcionamento).
A segunda é mais sutil, porque diz respeito a uma mudança na alma das pessoas – o tipo de mudança que Oscar Wilde investigou num texto de 1891, A alma do homem sob o socialismo, quando a ameaça era outra. Pode parecer incrível aos mais jovens, mas apenas 20 ou 25 anos atrás ainda existiam coisas mais importantes que o dinheiro. As pessoas dispunham de menos confortos, mas algo tornava a existência menos frágil, insegura e irracional do que é hoje – talvez uma ilusão de ordem, mesmo que no Brasil as regras nunca tenham funcionado direito; curiosamente, agora que vivemos sob o signo da precariedade, sem nenhuma garantia de coisa alguma, a propaganda de que estamos no melhor dos mundos é cada vez maior. Nunca antes, na História deste país e do mundo, realidade e discurso estiveram tão descolados.
Mas, de todas as mudanças provocadas pelo ciclo neoliberal que ora dá sinais de exaustão, a mais profunda, aquela que causou estragos maiores, foi a que aconteceu no interior de cada indivíduo, a corrupção da alma do homem sob o neoliberalismo. Também deve ser difícil acreditar, mas a ganância, o egoísmo, a cobiça e a vontade de se dar bem a curto prazo e a qualquer preço, passando por cima dos outros e de qualquer freio ético, eram até mal vistos. Mentir e trapacear para subir na vida eram sinais de deficiência de caráter. Idéias e ações eram medidas por outro metro, não pelo puro resultado monetário que proporcionavam. Em suma, o mau-caratismo, hoje transformado em virtude, era moralmente condenado.
Ao homem neoliberal nada disso importa, pois ele sabe que o mundo contemporâneo flexibiliza todos os valores. Só não perdoa o fracasso. Sua ética neodarwiniana é a da competição desregrada: o ganhador leva tudo, ignorando-se custos sociais e limites morais: os meios, o aqui e o agora, justificam os fins, as conseqüências sombrias que nos aguardam no futuro, em custos sociais e destruição do ambiente. O certo e o errado são medidos pelo desempenho, deixaram de ser valores abstratos. O melhor caminho é sempre seguir a direção do vento.
A felicidade, aliás, virou uma obrigação individual — medida, naturalmente, em índices de consumo. Nossa felicidade deve passar por cima das mazelas sociais, dos sofrimentos alheios, da mesma forma que o imperativo do lucro fácil despreza prejuízos causados a terceiros, incluindo as gerações futuras. Elas que se virem. Neste novo modelo — sutilmente coercitivo — de comportamento, os bem-sucedidos têm direito à insensibilidade e à irresponsabilidade, e quem não consegue ser feliz é simplesmente um incompetente. Os excluídos deixaram de ser vítimas inocentes, aliás: são agora culpados de sua própria miséria. Eles, os não-consumidores, nem entram mais na pauta de discussões de quem manda de verdade no planeta.
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O neoliberalismo não é mau em si – só não passou no teste da realidade. Em tese, a sua equação poderia funcionar: com menos impostos, sobra mais dinheiro para a produção, aumentam os empregos, e a mão invisível cuida de resolver problemas nos quais o Estado se mostrou incompetente. Paradoxalmente, o socialismo viveu um problema parecido: em tese seria maravilhoso, se todos fizessem o dever de casa; mas não é assim que as coisas acontecem no mundo real. Hayek enxergou nos perigos do crescimento do Estado o caminho da servidão, mas a sua ausência levou a outro tipo de escravidão: a que transforma os seres humanos em escravos do dinheiro, ou, pior ainda, combustível voluntário para a reprodução de um capital sem rosto. Somos todos mercadorias descartáveis.
O fato é que a hegemonia neoliberal das últimas décadas não melhorou a vida das pessoas comuns, ao contrário: ampliou e fomentou as desigualdades sociais, embora tenha sido muito bom para os ricos: o de cima sobe, e o de baixo desce. Por sua vez, estimulada a cair na armadilha do crédito fácil e do endividamento, a classe média, cada vez mais, vive pagando e morre devendo. E isso numa sociedade crescentemente violenta, avessa a instituições e incapaz de regular conflitos – uma sociedade na qual as fronteiras entre certo e errado, legal e ilegal, são cada vez mais tênues. (A política, desnecessário dizer, perdeu relevância. Eleições se transformaram em encenações nas quais todos os candidatos apresentam a mesma plataforma, sendo eleitos os que têm mais recursos e compromissos, enquanto escolas, hospitais, estradas e aeroportos caem aos pedaços.) Mas o que esperar, agora que a aparente incapacidade para se resolver a crise pode provocar o fim do ciclo atual? Se o vento passar a soprar para outro lado, em breve os economistas no poder estarão pontificando sobre mecanismos de regulamentação, a criação de mais estatais e outros mecanismos de fortalecer o Estado. Quando os sinais se inverterem novamente, governos populistas, como os que já se multiplicam na América Latina, retomarão o discurso nacional-desenvolvimentista de meados do século passado, dando início a um novo ciclo da turma que combate as forças cegas. Vícios e fórmulas fracassadas do passado podem voltar a prevalecer, bem como práticas clientelistas que, a pretexto de incluir, afastam do debate político as classes mais pobres. Mas talvez isso enseje, ao menos, uma reformulação de valores básicos, um recondicionamento da alma dos indivíduos. Por insensata que seja, a engrenagem voltará a se movimentar. A História não acabou. O mundo não é plano.

LUCIANO TRIGO é jornalista e escritor


Esxtraído de "O Globo" de 12/10/2008

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Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 13 outubro 2008 às 23:27
Caro Jose Arlindo,

Como ele fala em F. Hayek, teoria liberal clássica, como um ser puramente troglodita, aqui vai uma frase dele que é um paradoxo:

“Ninguém pode ser um grande economista se for somente um economista. Um economista que só é economista torna-se prejudicial e pode constituir um verdadeiro perigo para o país”, Cabeça Bem-Feita, Edgar Morin, pág. 16, 1999.

Dai pode-se ver que os neocon e neoliberais atuais são muito mais estúpidos que as gerações anteriores.

http://en.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Hayek

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