Qualquer pessoa de bom senso há de concordar que fazer previsões em momentos de crises profundas é um exercício temerário. Com a incerteza explodindo no nosso colo, avançar peremptórias conclusões sobre o futuro serve para encher páginas de jornais e espaços nos diversos telejornais, porém tem pouquíssima serventia para aqueles que desejam, de alguma forma, ver além da densa neblina que caiu sobre todos nós. Para atender os anseios desses últimos, é preciso certa dose de parcimônia nas previsões sobre o futuro, tanto no que diz respeito ao pessimismo acachapante quanto ao otimismo inconseqüente.

Nesse sentido, peço licença aos meus amigos e amigas que lêem este blog para realizar um exercício diferente: ao invés de analisar o que vai mudar, gostaria de enfatizar o que não vai mudar. Assim, mudemos o foco da paralisante neblina para a permanente estrada, que, querendo-se ou não, permanece no mesmo lugar e, para o bem ou para o mal, sempre nos leva a algum lugar. Assim fazendo, é possível que cheguemos à questão realmente relevante, independentemente da existência, ou não, da neblina: onde queremos chegar? Qual o país que queremos? Que futuro desejamos? Sem responder a essas questões, a melhor solução é estacionar no acostamento. Afinal, se não vamos a lugar nenhum, que importância tem a neblina? Para navio à deriva qualquer banco de areia é porto.

Seguindo essa linha de raciocínio, cabe dizer que a primeira coisa que não vai mudar com a crise é que o petróleo continua no mesmo lugar em que sempre esteve. Se ao invés dele nós tivéssemos uma imensa carteira de títulos de petróleo enterrada abaixo da camada de sal, eu tenderia a acreditar que grande parte da nossa riqueza se evaporou. Porém, este não é o caso.

A segunda coisa que não vai mudar é que todo esse petróleo continua sendo nosso e cabe a nós decidir qual o destino que daremos a ele.

A terceira coisa a permanecer são as expectativas de que no pré-sal tem muito petróleo. As informações vindas à tona desde o primeiro momento em que começou a discussão sobre essa província petroleira, mesmo sendo a conta-gotas, nunca sinalizaram para um volume de reservas menor do que o esperado, elas sempre apontaram para um volume maior.

A quarta coisa que não mudará é o papel essencial e estratégico do petróleo para a economia mundial. A demanda poderá se reduzir durante algum tempo, os preços poderão abaixar, porém não há indicações de que esta será uma tendência irreversível e de longo prazo. Logo, continuaremos tendo algo que interessa, em muito, às grandes nações consumidoras de energia, que, vencida a recessão, voltarão à disputa geopolítica, cada vez mais acirrada, por esse insumo estratégico.

A quinta coisa que fica é o fato de que o petróleo é um bom negócio. Principalmente, quando a sua exploração não envolve risco exploratório. Ou seja, a questão do pré-sal não é se tem, ou não, petróleo. Isto eu já sei: tem. O problema aqui é como eu financio a sua produção. Contudo, uma coisa é financiar a exploração de uma área que pode ter, ou não, petróleo; outra coisa é financiar a produção de uma área que eu já sei que tem petróleo, e, mais do que isso, que tem muito petróleo.

A sexta coisa que não vai mudar é que o pré-sal continua sendo um projeto que atravessará mais de uma geração. Portanto, embora os eventos que ocorrerão nos próximos anos tenham importância imediata, olhando o problema sob a perspectiva histórica que o tamanho dessa riqueza impõe, as agruras presentes se perdem no vasto horizonte de tempo desenhado pelo próprio pré-sal.

A sétima coisa que permanece é que o pré-sal continua sendo uma solução para o Brasil, e não um problema. Nesse sentido, o equacionamento da sua exploração segue sendo o grande desafio brasileiro, em torno do qual muitos embates serão travados ao longo do tempo.

Por último, o que não mudará na indústria do petróleo, mesmo com a crise, é que a disputa pela renda petroleira continuará sendo a questão-chave nessa indústria. Essa renda poderá ser maior ou menor, mas continuará sendo duramente disputada.

Em suma, continuaremos tendo petróleo no pré-sal, ele continuará sendo nosso, ele continuará sendo muito, ele continuará sendo um insumo estratégico, ele continuará sendo um bom negócio, ele continuará sendo fundamental na construção do nosso futuro, ele continuará sendo uma solução, e não um problema, e sua renda continuará sendo disputada a tapa.

Meus caros leitores e leitoras, eu na sei o que vai se passar, de fato, com o pré-sal. Dizer que as condições de financiamento pioraram, que o preço e a demanda poderão se reduzir nos próximos anos, que o quadro não é tão positivo como era há alguns meses, é nadar na obviedade. O difícil é ir além disso, procurando identificar aqueles fatos que podem desenhar o futuro, a partir de uma formulação positiva do problema e levando-se em conta o novo contexto. Se o problema ainda não estava formulado no antigo contexto, quanto mais no novo.

Modestamente, sugiro que olhemos o pré-sal a partir de uma perspectiva voltada para o futuro. Perspectiva esta que a própria natureza do pré-sal impõe. Nesse sentido, as questões colocadas em duas postagens anteriores deste blog (As premissas para um bom debate sobre o pré-sal e Pré-sal: entendendo o problema e qualificando as soluções) continuam valendo. Elas dizem respeito a opções econômicas e políticas de cunho estrutural que remetem ao nosso futuro. E independentemente de qualquer crise, continuo acreditando piamente que cabe a nós, e somente a nós, a tarefa de construí-lo.

Assim, em relação à pergunta do título devo lhes dizer que caberá a nós, e somente a nós, responder, através de nossas ações e decisões, se o pré-sal irá ou não para o espaço. Será sobre essa resposta que teremos de prestar contas às gerações futuras.

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Comentário de ana em 19 outubro 2008 às 17:25
bastante esclarecedor,teremos que está atentos, para irmos a luta quando for necessário,defendendo o que é nosso.
Comentário de Paulo Kautscher em 19 outubro 2008 às 17:46
Sempre tem um $%¨#@ para partidarizar uma questão que é técnica e exige uma visão holística e de longo prazo.
Comentário de Marcelo Luiz em 19 outubro 2008 às 18:17
Eu sinceramente nessa fase da logistica da Petrobrás com crise ou sem crise nada muda até por que agora é hora da pesquisa. Quanto a nova fase de começar a explorar fica sempre a maior questão até quando o petróleo ficará abaixo dos 100 dólares?
Além do mais a questão energética continuará a exigir novos investimentos ou mais importações, acredito que sairemos pelos investimentos, seria o mais lógico, por isso acredito que os planos estratégicos para o pré-sal não devem mudar muito não.
Comentário de Luiz Augusto de Jesus carvalho em 19 outubro 2008 às 19:11
Trabalhei por um curto período numa empresa de petróleo e custo médio de produção de um barril na área do pré-sal é estimado, no meio, entre U$8 e U$10. Ou seja, a margem é muito boa e os seus derivados continuam sendo muito usados!
Afinal, de onde todos pensam que saem os investimentos para a construção de Dubay??? De Wall Street?
Todo o questionamento é válido, mas temos Petrobras, que sempre esteve em manchetes por ser precursora em perfurações em águas profundas, com excelente margem e temos o petróleo, então basta continuar fazendo os investimentos nos equipamentos nscessárioa à sua exploração!
Comentário de Ronaldo Bicalho em 19 outubro 2008 às 19:12
Prezado Paulo,

A questão é técnica, econômica e política; portanto, como você mesmo diz holística e de longo prazo. Nesse sentido, o seu argumento é bom e o xingamento inicial não é necessário. Lembre-se que nós todos que estamos nessa comunidade estamos tentando desenvolver um projeto coletivo, logo, temos de ter o mínimo de tolerância com aqueles que pensam de forma diferente da nossa. Caso contrário, a coisa não anda.
Comentário de Marcelo Cândido em 19 outubro 2008 às 19:50
Ao considerar os diversos pontos do texto e a realidade política na qual nos inserimos, entendo como principal perspectiva no futuro do pré-sal a imperiosa necessidade de evitar-se a privatização dos benefícios do pré-sal.

Diante das alterações conjunturais no tocante ao petróleo, ao pré-sal e financiamento de investimentos, penso que surgirão vozes sobre a incapacidade de o Estado explorar o pré-sal per si. Então, tais vozes, concluirão que ao pré-sal cabe a iniciativa privada.


Bom tenho que ir....

Ats,

Mc
Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 19 outubro 2008 às 19:55
Caro Ronaldo Bicalho

Como seu texto deixa transparecer nas perguntas e analises, “onde queremos chegar?” “Qual o país que queremos?” “Que futuro desejamos?”,....,“Será sobre essa resposta que teremos de prestar contas às gerações futuras”.

Para mim fica implícito que o pré-sal vai para onde o projeto desenvolvimentista (ou rentista?) do Brasil for, portanto ele tem que ser olhado dentro do contexto amplo, dentro de um cenário e estratégia de desenvolvimento do país diante dos desafios: local, regional e global.

Um dado importante a saber sobre os projetos de investimentos da Petrobrás é que, são viáveis a partir do preço do barril a U$35,00.

Esse Cartum, mostra como o olho gordo do mundo aliada ao pensamento único oligárquico local vê o Brasil no memento.
http://blogln.ning.com/photo/photo/show?id=2189391%3APhoto%3A39393

Ou como a mídia global procura dissimular os fatos. Flávio Aguiar procura separar o joio do trigo sobre a analise de fachada do Le Monde:
“A primeira, mais curiosa, foi o comentário publicado no Le Monde pelo correspondente no Brasil, Jean Pierre Langellier. O curioso deste comentário é que ele parece contaminado por aquele “contraditório” que caracteriza a parte da imprensa conservadora brasileira com os acertos, ou a “sorte” do presidente brasileiro e sua equipe....”
(...) Aí vem a segunda parte, que termina por justificar o relativo otimismo do presidente.
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4008

Dia 17/10/08, Nassif colocou o post: A Falta de Cintura de Serra:
“A posição do governador José Serra na greve dos policiais civis, repetindo o comportamento na greve da USP, demonstra que precisará avançar muito se quiser ser o candidato da conciliação. Nos últimos 15 anos, o país foi governado por dois conciliadores, FHC e Lula. É condição imprescindível. Em guerra, o país se torna ingovernável, como demonstra o governo Fernando Collor.....”

Pegando um gancho nessa analise do Nassif, e transportado para a eleição na América, fica claro que Obama seria mais um conciliador e McCain com falta de cintura, caso o Barack Obama vença no imperio, existem indícios de que ira seguir um cominho tipo segundo “NEW DEAL”. Tese levantada na Europa em setembro pelos pensadores de esquerda, por exemplo, Ignacio Ramonet:
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4003

E esta semana pelo Nobel de economia, o americano Paul krugman.
O cônsul americano disse essa semana na UOL que o Brasil será o rei em 2009, disse que ele gostaria que o EUA tivesse as condições do Brasil hoje.

Para concluir o Brasil esta sendo invejado pelo mundo afora, e faz algum tempo, vejo que o mundo vê que estamos em condições impar neste cenário global, nossas vantagens comparativas são invejáveis em diversas áreas, mas,..., “quem sabe faz a hora não espera acontecer”, ai o líder do partido dos trabalhadores daqui e sua coligação de governo esta léguas do líder do partido dos trabalhadores do outro lado do oceano atlântico.
Leia: Líder do Partido dos Trabalhadores Salva o Mundo do Colapso (Nobel de Economia Política)
http://blogln.ning.com/forum/topic/show?id=2189391%3ATopic%3A39096

Sds
Comentário de Alberto Bilac de Freitas em 19 outubro 2008 às 22:15
Caro Ronaldo,

Segundo estimativas reservadas de engenheiros da Petrobrás, ventiladas of-line, a província brasileira do pré-sal conteria aproximadamente meio trilhão (isso mesmo, 500 bilhões) de barris de óleo equivalente (boe), algo como quase o dobro das reservas sauditas, o maior detentor de reservas atualmente. Deus não é realmente brasileiro?
Comentário de JPOX em 19 outubro 2008 às 22:19
Depende da faixa em que o barril de petróleo se movimentar daqui para frente.

Antes de a bolha murchar, o petróleo movimentou-se em quatro faixas claramente distintas:

1 - 30 a 60 dólares, entre Set /2003 a Nov/2005, com 24 meses e alta de 30 dólares;
2 - 60 a 75 dólares, entre Nov/2005 a Mai/2007, com 20 meses e alta de 15 dólares;
3 - 75 a 142 dólares, entre Mai/2007 a Jun/2008, com 13 meses e alta de 67 dólares;
4 - 142 a 72 dólares, entre Jun/2008 a Out/2008, com 05 meses, e queda de 70 dólares.

Vejam que a faixa 4 já voltou ao nível da faixa 2, que é a mais estável, juntamente com a faixa 1.

Se eu fosse investir no Pré-sal, com a crise financeira, ameaça de recessão e queda global na confiança dos agentes econômicos, eu marcaria o centro da faixa 1, em 45 dólares e veria se há viabilidade nesse nível.

Senão, tiraria o pré-sal de campo por enquanto, ou pisaria de leve, pensando no longo prazo.

Isto se não já houver investimentos contratados imprudentemente, em visão de médio prazo e com expectativa do preço do barril no nível da faixa 3.

Aí, o Pré-sal pode “ir para o sal” e a Petrobrás ter uma ressaca danada, pois a correlação de sua atividade com o preço do petróleo é altíssima.
Comentário de Rogério Maestri em 20 outubro 2008 às 2:10
Concordo com o Bicalho, e digo mais, para a exploração do pré-sal a crise atual é mais um refresco do que uma ducha fria. Se não estivéssemos em crise, com o consumo em alta haveria uma pressão sobre o governo brasileiro para acelerar a exploração do pré-sal, esta pressão certamente induziria a erros e decisões precipitadas. Qualquer pessoa de bom senso sabe que a exploração comercial do pré-sal vai demorar quase uma década, não só por necessidade de financiamento como por imposição técnica.
Já se estava falando em acelerar a produção do pré-sal, e o próximo movimento seria na direção de abrir esta província as petroleiras internacionais da forma mais rápida possível, com o advento da crise esta pressão diminuiu e se terá tempo para colocar a casa em ordem. Se imaginarmos que a crise dure uns quatro anos e mais dois para se retomar o nível de consumo atual, no fim deste período se terá uma visão completa da capacidade do pré-sal.
Um campo de petróleo só para ter uma avaliação mais ou menos correta de seu potencial demora no mínimo uns três anos, após isto é que se pode pensar na produção. Plataforma para exploração de petróleo desde a sua concepção a colocação em produção demora uns quatro anos, logo os períodos são longos. Caso a demanda permanecesse aquecida no meio de 2009, a Petrobrás já estaria sendo acusada de incapacidade tecnológica, e isto não corresponderia a verdade.
A queda do preço do petróleo, a crise no consumo, serão mais uma solução do que um problema.

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