Estamos em Minas Gerais, mais precisamente no Sul de Minas, na região dos queijos e manteigas e do café. Onde nasceu o pão-de-queijo, o biscoito de goma e o café-com-leite.

“Seu” Bié, plantador de café e criador de gado leiteiro, fabricante de queijos e manteiga, é chefe político local e conselheiro com fama de “econômico” (eufemismo para pão-duro) e extremamente honesto.

Uma coisa que não se admitia na sociedade dali e de então era alguém ser acusado de mal pagador ou caloteiro. Acontece que “seu” Bié tinha um compadre, o Coronel Alípio, amigo de sala e cozinha, como se dizia na época. Em algum negócio de gado ou de café, não se sabe bem como, “seu” Bié ficou com uma dívida de 40 contos de réis para com o Cel. Alípio.

Tudo bem enquanto durou a amizade. No entanto, num ano de eleições, por razões de fidelidade familiar, o coronel foi para a oposição enquanto “seu” Bié continuou mandando na situação. Resultado: ficaram adversários. E, em Minas, principalmente naqueles tempos, adversário político e inimigo são sinônimos.

Daí que o coronel deixou de ir à casa do compadre Bié e não tirava o chapéu sequer para a comadre, se por acaso passasse por ela na rua.

As coisas estavam nesse pé quando chegou a Semana-Santa.

Festa na cidade, todos os sobrados abertos, pois seus donos com toda a família deixavam a fazenda, e traziam inclusive os filhos que estudavam na capital com seus amigos. No Domingo de Ramos, em plena praça, logo após a missa solene que comemorava a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, “seu” Bié conversava com amigos e correligionários bem na praça.

Na frente de todas as pessoas gradas da cidade, o coronel Alípio, um tanto tocado por algumas cachaças tomadas na venda do Nôzi-nho, desafeto, ele também do Presidente do Conselho – prefeito da época – pára diante do “seu” Bié e, de público, lhe diz:
– Bié, seu salafrário, tem um ano que você me deve quarenta contos de réis e não me pagou. Vou ter que mandar o delegado ir à sua fazenda com umas praças prá receber esse dinheiro?

Ora, ali, naquele lugar, com aquelas pessoas – praticamente toda a cidade – vendo e ouvindo, era uma afronta e um desafio que ninguém, muito menos o chefe político e “manda-chuva” Bié toleraria.

Todas as pessoas no largo adro da Matriz esperaram em suspense a reação do “seu” Bié que conversava com o vigário.

Com a maior calma, “seu” Bié tornou ao coronel:
– Caro compadre Alípio, apesar de agora sermos adversários, continuo considerando vosmecê como da família. E se ainda não lhe paguei aqueles 40 contos é porque, com todos esses entreveros da política, não tive a oportunidade de falar desse assunto com vosmecê. Mas pode ficar tranqüilo que no domingo que vem, aqui na praça da Matriz, tendo o senhor Vigário e toda a cidade como testemunha, o senhor receberá em moeda sonante o pagamento do que lhe devo.

Domingo de Páscoa, a cidade engalanada, depois da missa solene da Ressurreição, todo mundo no largo da Matriz aguardando o desfecho da querela entre o coronel Alípio e o “seu” Bié.

O Coronel, cercado de seus “amarra-cachorros”, rindo e gozando, comenta com seus êmulos porque o Bié não chegara a tempo de assistir à missa. Provavelmente nem viria à cidade, pois não teria o dinheiro para pagar-lhe a dívida.

Mas eis que surge na rua Direita, a que vinha da entrada da cidade até o Largo da Matriz, o “seu” Bié montado na sua melhor égua e seguido de uma tropa de cinco mulas carregadas com pesadas bruacas de cada lado, tropa essa comandada pelo seu principal "jagunço" o Toínho.

“Seu” Bié chega-se ao lado do coronel e chamando o vigário como testemunha diz:
– Olha aqui seu coronel de merda, na semana passada vosmecê me chamou de caloteiro na frente desse povo todo. Pois se demorei a lhe pagar o que lhe devia é porque estava contando o dinheiro para não haver erro. Estão aqui nessas mulas os seus quarenta contos de réis em moedas de vintém de cobre preto(*). Só exijo de vosmecê uma coisa, que eu possa des-carregar esses sacos de moedas na sala do seu sobrado e que o senhor confira se o valor está correto e me passe um recibo para que não tenhamos mais nenhuma dúvida sobre a quitação dessa dívida.

E assim, o “seu” Bié ficou hospedado no sobrado do Coronel por duas semanas, comendo, bebendo e dormindo à custa deste, enquanto este, com a ajuda de alguns parentes contava o dinheiro para lhe passar o recibo.

(*) Cobre preto – na época, o vintém de cobre preto era a moeda de menor valor – dez réis, como se fosse hoje a de um centavo e quarenta contos de réis equivaleriam talvez a uns 40 mil reais, o que daria 4.000.000 de moedinhas!

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