Amélia Brandão Néri (Tia Amélia)
*25/5/1897 - Jaboatão (PE)
+18/10/1983 - Goiânia (GO)



Na Livraria Cultura de Fortaleza (CE) - onde estive recentemente –, passei horas de absoluto lazer/prazer entre discos e livros.

Lançado em 2008 o livro “Vinicius de Moraes – Samba Falado (crônicas musicais)”, organizado por Miguel Jost, Sérgio Cohn e Simone Campos, foi uma das surpresas agradáveis deste meu “tour” cultural, já que na época do lançamento passei em brancas nuvens.

A crônica “A Benção, Ti’Amélia” é uma das integrantes do referido livro e foi escrita por Vinicius de Moraes, em 26 de julho de 1953, a qual transcrevo abaixo.



Em casa desses queridos Cattan – Ligia e Dreyfus – que eu colocaria facilmente entre os dez melhores anfitriões do Rio, pela simpatia e calor com que recebem, a sexta-feira 9 de julho adquiriu para mim uma significação toda especial, graças à presenças, entre tantos artistas e mulheres bonitas, de uma senhora a se aproximar dos 70, cuja severa beleza lembra os velhos medalhões imperiais: uma nobre cabeça emoldurada de prata e servida por uns olhos e um sorriso ainda moços e participantes. Quero referir-me a Dona Amélia Brandão, ou melhor: Tia Amélia – e aqui peço respeitosamente a minha inscrição entre o rol de seus sobrinhos, pois já a considero mais tia minha que muitas que andam por aí.


Deve-se a presença de Tia Amélia no Rio à inteligência e espírito público dessa encantadora Carmélia Alves que, numa tournée por Goiás, conheceu-a em Goiânia, onde une as prendas de figura da sociedade local às de emérita professora de piano. Mas o que Tia Amélia é mesmo de fato é artista: artista com o largo instinto criador do boêmio, como todos os seus sobrinhos presentes naquela sexta-feira, entre os quais as figuras de Bené Nunes, Antônio Maria, Mello Moras, Bororó, Luiz Bonfá e Reinaldo Dias Leme. Carmélia Alves tinha um avião a pegar, depois de muitos saraus em casa de Tia Amélia, e o que aconteceu foi o seguinte: Tia Amélia pegou o avião com ela.


Qual o truque de Tia Amélia, me perguntarão. E eu vos direi, no entanto, que para ouvi-la eu percorreria facilmente um continente. Como fiz em 1949, nos Estados Unidos, para ouvir o grande clarinetista negro George Lewis, que tocava por um dia em Nova Orleans. Pois a verdade é que Tia Amélia é uma ressurreição de Chiquinha Gonzaga com bossas novas.


Tia Amélia só tocava clássicos. Sim, esteve nos Estados Unidos, deu concertos, fez tudo o que manda o figurino. Mas – disse-me ela – parecia-lhe que abrasileirava um pouco os clássicos que executava. Seu Chopin não era necessariamente Chopin: era Chopin de Nazareth, ou melhor, Chopin Brandão.


Só então percebeu que seu destino não era só de interpretar, mas o de criar música brasileira. Pós-se a compor choros e valsas, que nunca foram postos em pauta e só agora foram batizados, pois ela os designa apenas pela cronologia de sua criação, ou por uma lembrança qualquer ligada a eles.


Tia Amélia designa algumas de suas composições como “choros clássicos”. De fato. Há no equilíbrio do complexo melódico, na sabedoria instintiva da harmonização, na unidade íntima das partes musicais, linhas bastante puras para que se as possa classificar como tal; isso, aliado à tristeza congênita, ao dengue malemolente, ao repicado brejeiro que dá ao chorinho a sua feição tão brasileira e assegura-lhe um caráter imortal dentro da nossa música semi-erudita e popular.


Estou certo que os choros de Tia Amélia – que a Continental teve a feliz ideia, que é também um acontecimento musical, de por num LP – tocarão não só aqueles ligados à saudade de um tempo de que se fez música assim, como o da gente mais nova, em que as influências estrangeiras e as sofisticações do momento vão destruindo as características brasileiras mais tradicionais. Pois os choros de Tia Amélia transmitem as coisas mais profundamente simples: as coisas do coração. 

 

 


Em 1980, aos 83 anos realizou a sua última gravação, pelo selo Marcus Pereira, com o LP "A Benção Tia Amélia", interpretando 12 composições inéditas, entre valsas e choros.

01 - Choro Serenata (Tia Amélia)
02 - Mosquita (Tia Amélia)
03 - Choro Para Minha Filha (Tia Amélia)
04 - Parabéns Pra Você Zé (Tia Amélia)
05 - Maestríssimo Cipó (Tia Amélia)
06 - Bilhete Para Arnaldo Rebello (Tia Amélia)
07 - Conversando Com Minha Irmã (Tia Amélia)
08 - Medalha Com G (Tia Amélia)
09 - Choro Para Fernanda (Tia Amélia)
10 - Maria Alice (Tia Amélia)
11 - Penazziando (Tia Amélia)
12 - Para Meus Netos Bisnetos e Tetraneta (Tia Amélia)


Na ocasião, recebeu calorosa crítica do jornalista José Ramos Tinhorão, que sobre ela, escreveu:

"Assim, quando se ouve o som atual de Tia Amélia, pode-se dizer que é toda a história do piano popular brasileiro que soa em sua interpretação".


Selecionei três composições de Tia Amélia:


“A minha viola é de primeira” (Tia Amélia), com Eliza Coelho. Victor (33.322), 1930.



 





“Capelinha de melão” (Tia Amélia), com Elisa Coelho. Victor (33.322), 1930.




 

“Nos cafundó do coração” (Tia Amélia), com Stefana de Macedo. Columbia (7032), 1930. 




 

Vale a pena conhecer mais sobre a vida e obra de Tia Amélia. Para os interessados deixo dois links: Memorial da Fama e Dicionário Cravo Albin.


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Fontes:

Livro:
- Vinicius de Moraes – Samba Falado (crônicas musicais), de Miguel Jost, Sérgio Cohn e Simone Campos (Org.). – Rio de Janeiro: Ed. Beco do Azougue, 2008.

Sites:
- Dicionário Cravo Albin; Loronix; Instituto Moreira Salles; Memorial da Fama.

- YouTube/Canais: "luciano hortencio", "TchikiSteph".

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Comentário de Gregório Macedo em 30 janeiro 2011 às 1:46

Pena que não tenha havido um relato dos papos entre o poetinha e tia Amélia. Mas as músicas supriram a lacuna. Tia Amélia e Cora Coralina... que tal? Boa pedida!

Beijos.

Comentário de Laura Macedo em 30 janeiro 2011 às 21:35

Gregório,

Bela pedida, mesmo!

Já pensou os versos de Cora Coralina ao som do piano de Tia Amélia?

 

Recria tua vida, sempre, sempre…
Cora Coralina

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Beijos musicais e poéticos :))

Comentário de ROMULO PEREIRA BRANDÃO FILHO em 22 março 2011 às 12:51

Pena que esteja tão esquecida!!!

Comentário de ROMULO PEREIRA BRANDÃO FILHO em 22 março 2011 às 13:04
Ela é minha tia por parte de pai, moro em Pernambuco, e estamos aqui com um projeto, para a construção de um conservatório de música, em seu casarão, em Jaboatão dos Guararapes, onde ela residia, minha tia, tem uma linda história, e contamos com o apóio de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la.
Comentário de Laura Macedo em 22 março 2011 às 14:34
Romulo,

Fiquei feliz ao saber que a família de Tia Amélia está na luta pela preservação da sua memória.

A ideia do Conservatório de Música, principalmente no casarão que Tia Amélia morou, é fantástica.

Torço de todo coração pela concretização do projeto e dos seus objetivos de preservação da obra de uma artista tão importante à Música Brasileira.


Tenho uma relação afetiva com Recife (morei muitos anos em Campina Grande - PB), onde passei férias inesquecíveis . Quem sabe, muito em breve, não estarei conhecendo o Conservatório de Música Tia Amélia?

Sucesso na empreitada :))

Abraços.
Comentário de Laura Macedo em 25 maio 2015 às 1:38

Uma linda canção composta pelo Rei Roberto Carlos em parceria com Erasmo Carlos para o LP (álbum) de 1976, onde presta uma linda homenagem musical a "Tia Amélia" que teve um papel muito importante na vida do nosso Rei bem no início da sua carreira artística, pois quando ele veio morar no Rio de Janeiro, foi morar na casa da Tia Amélia, lá na Vila da Tijuca no qual Roberto Carlos carinhosamente se refere na musica e o apelido de Tia Amélia foi dado pelo Nosso Rei Roberto Carlos a Amélia Brandão Nery.

“Tia Amélia” (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) # Roberto Carlos.

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