A bordo de bimotor, Aécio Neves toma sorvete de tapioca e lembra morte do avô

"Acordei às 4 horas da manha com Ângela na minha cabeça. Minha sobrinha tem seis anos e não sabe que a mãe teve um AVC (acidente vascular cerebral)", diz Aécio Neves, mão direita à testa.
 
Sentado em um dos oito lugares do bimotor que o levaria a Belém no dia 5 passado, o senador do PSDB aperta o cinto de segurança e faz o sinal da cruz.
 
Antes de iniciar um giro por seis cidades do Norte e do Sudeste acompanhado pela Folha, retoma a conversa sobre a irmã mais nova, de 45 anos, internada três dias antes. "Não consegui voltar a dormir", diz o senador, 53.
 
E afirma que a insônia naquela madrugada o ajudou a tomar uma decisão: "Resolvi usar janeiro e fevereiro para pegar um carro e fazer uma caravana, um comboio, pelo Brasil". E desenha um roteiro improvisado diante da reportagem.
 
"Sair do gabinete, sabe? Sem preocupação com forma ou discurso. Filmando pela internet. Se bobear, ainda pego um pedaço de moto", diz.
 
Algo como as Caravanas da Cidadania, como fez o petista Luiz Inácio Lula da Silva entre 1993 e 96?
 
"Não. Viagens menos estruturadas. Quero me reunir com moradores, com trabalhadores do campo. Ir ao rio Negro, andar pela obra do São Francisco, dormir onde der, filar a boia onde der.Enquanto fala, o jatinho Learjet 60, alugado pelo partido, ganha altitude.
 
Aécio aponta para um arco e flecha escorado em um canto da aeronave. "Ganhei dos índios de São Paulo. Mas não teve cocar. Não boto cocar na cabeça. Tancredo [Neves] morreu poucos dias depois de colocar um. A última foto do Ulysses Guimarães vivo foi com um cocar".
 
O assunto morte vira, então, tema do voo. E o mineiro fala da pior cena de que se recorda: ver o caixão do avô subindo a rampa do Palácio do Planalto. Na memória do senador, a última frase do presidente antes de morrer: "Eu não merecia isso".
 
"No Hospital de Base (onde Tancredo fora internado, em Brasília), era uma confusão de gente. Uma coisa criminosa o que aqueles filhos da puta fizeram. Tinha médico, parlamentar, que entrava na área restrita dando carteirada. Entraram na sala na hora da cirurgia, acredita? Botaram banquinho lá para ver a operação!"
 
O avião toca o solo paraense. "Se meu avô não fosse presidente, ele teria sobrevivido e tomado posse", diz, ao fazer, de novo, o sinal da cruz antes de desembarcar.
 
UNHADAS
 
Uma van o leva direto a um centro de convenções em Belém. Lá, centenas de pessoas esperam amontoadas em dois vãos. Um grupo de militantes gays tira, agitado, fotos de longe. O senador que retribui a tietagem mandando beijos.
 
O termômetro marca 36 graus. Ali, muito povo, numa cena distante da imagem elitista usualmente associada aos eventos do PSDB.
 
"Levei apertões e unhadas", diz ele, um tanto orgulhoso, mostrando os braços a um amigo.
 
Às 22h45, os motores do jatinho já estão ligados. A viagem é retomada, desta vez rumo ao Rio, para ver Ângela pela manhã antes de seguir para Americana, Campinas e Sorocaba (SP).
 
Uma senhora entra no avião com duas caixas de isopor, presente do governador Simão Jatene (PSDB-PA).
 
O senador sustenta uma das vasilhas sobre as pernas e cava colheradas fartas de sorvete de tapioca. Preferia, porém, sabor cupuaçu.
 
"Será que vão dar prisão domiciliar para o Roberto [Jefferson, delator do mensalão, condenado à prisão no julgamento do caso]? Espero que sim. Não torço pelo infortúnio de ninguém", conta.
 
Mas, em seguida, alfineta outro condenado do mensalão. "Esse Dirceu é um corajoso. Não teme o perigo. Foi arrumar emprego em hotel", diz, referindo-se à abortada tentativa do ex-chefe da Casa Civil de trabalhar durante o dia em estabelecimento quatro estrelas em Brasília.
 
O tom muda quando é perguntado sobre Lula. "Costumávamos falar da vida. Eu o conheci quando era o reserva de luxo do meu time na Constituinte. Ele não era famoso assim, não. Era o lateral-esquerdo, grosso para caralho, o melhor de papo dali. Não era uma relação atritada pelo combate."
 
E termina revelando que a aproximação dos dois sobreviveu mesmo quando a rivalidade entre PSDB e PT já deixava qualquer "Fla-Flu" no chinelo. "Eu fornecia muita cachacinha artesanal da minha fazenda para ele. Era freguês. No Palácio da Alvorada [quando Lula era presidente], tinha sempre uma lá."

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