Música: “Praça Onze” (samba / carnaval), Herivelto Martins e Grande Otelo, 1942.


Delimitada pelas ruas de Santana (a leste), Marquês de Pombal (a oeste), Senador Eusébio (ao norte) e Visconde de Itaúna (ao sul), a Praça Onze existiu por mais de 150 anos.

A princípio denominada Rocio Pequeno, depois Praça Onze de Junho (data da Batalha de Riachuelo) , tornou-se, nas primeiras décadas do século XX, o local mais cosmopolita do Rio de Janeiro. Em suas redondezas misturavam-se imigrantes espanhóis, italianos e judeus de várias procedências com milhares de negros, na maioria oriundos da Bahia. E foram os negros quem transformaram a Praça Onze em reduto de sambistas, ao usarem seu espaço para os desfiles das primeiras escolas de samba.

Em 1941, quando a prefeitura começou as demolições para a abertura da Avenida Presidente Vargas, que extinguiria a praça, Grande Otelo teve a idéia de protestar em ritmo de samba.

Ótimo ator mas letrista medíocre, ele escreveria uma versalhada sobre o assunto, que mostrou aos compositores Max Bulhões, Wilson Batista e Herivelto Martins, sem lhe despertar o menor interesse. Mas Otelo era teimoso e Herivelto, para se livrar dele, compôs o samba em que aproveitou a idéia, desprezando os versos.

Diga-se de passagem que os dois trabalhavam nos cassinos da Urca e de Icaraí, atravessando todas as noites a Baía de Guanabara, numa lancha que fazia a ligação entre as duas casas. Foi numa dessas travessias que Herivelto começou a escrever “Praça Onze”.

Acontece que a composição – o fim da praça e dos desfiles e, de uma maneira comovente, exortando os sambistas a guardarem os seus pandeiros – superou as expectativas do autor, sugerindo-lhe uma gravação diferente, em que se reproduzisse o clima de uma escola de samba. E assim ele fez, tendo a novidade se tornado padrão para a execução de sambas do gênero. Além do canto, no estilo “empolgação”, a cargo do Trio de Ouro reforçado por Carlos Barbosa, foi primordial para que se estabelecesse tal clima o uso destacado de três elementos rítmicos – o tamborim, o apito e o surdo. Até então o apito era usado nas escolas de samba somente como elemento sinalizador, para comandar o desfile. Sua função rítmica, silibando em tempo de samba, foi uma invenção de Herivelto, lançada nesta gravação.

Por tudo isso “Praça Onze” alcançou extraordinário sucesso, ganhando, ao lado de “Ai Que Saudades da Amélia”, o concurso de sambas promovido pelo Fluminense. E naquele carnaval, onde se cantou “Praça Onze” tinha sempre alguém soprando um apito, o que acabou causando a Herivelto uma despesa inesperada: caridosamente, ele assumiu metade do prejuízo sofrido por Murilo Caldas, autor da marcha “Passarinho Piu Piu”, que distribuíra mil apitos entre os foliões, indiferentes a sua música.



"Praça Onze" com, Castro Barbosa e Trio de Ouro, Continental, 1941.



********

FONTES
1) Livro




A Canção no Tempo: 85 anos de músicas brasileiras, Vol 1: 1901-1957 / Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. - São Paulo: Ed. 34, 1977.



2) CD Os Grandes Sambas da História, Vol 9, 1997.


**********

Exibições: 72

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço