"Ave Maria no Morro" (samba), Herivelto Martins, 1942.


Recém chegado no Rio, por volta de 1930, Herivelto Martins costumava frequentear o Morro da Favela, onde havia uma singela capelinha. Por muito tempo ele guardou a imagem dessa capela, com a intenção de usá-la numa canção que descrevesse de forma mística o anoitecer no morro.

Um dia, estando num bilhar da praça Tiradentes, despertou-lhe a atenção a algazarra de um bando de pardais, que se recolhia às árvores para dormir.Transportando os pardais para o morro, ele escreveu e musicou os seguintes versos: "Tem alvorada / tem passarada / alvorecer / sinfonia de pardais / anunciando o anoitecer" - que logo complementou, compondo o que viria a ser a segunda parte de "Ave Maria no Morro".

Entusiasmado com o esboço de samba que acabara de fazer, Herivelto resolveu mostrá-la ao compadre Benedito Lacerda, na época seu vizinho na Ilha do Governador. É ele próprio que conta essa história, no depoimento que prestou para o Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, em 18/08/83:

"Eu me preparei para mostrar ao Benedito essa segunda parte. Ensaiei com a Dalva, bem ensaiadinho, e todo animado fui procurá-lo. 'Ouve aqui, Benedito, este negócio que eu fiz'. E então cantamos, cantamos, a Dalva com aquela voz bonita e eu, no violão, crente que estávamos agradando, pois estava mesmo uma beleza. Terminada a catoria, uma decepção. O Benedito tirou os óculos, esfregou os olhos e disse com a maior frieza: 'Meu compadre isso é música de igreja. Vamos fazer música pra ganhar dinheiro, meu compadre'. E para amenizar o meu desapontamento, acrescentou: ' Tá bem, tá bem pra vocês cantarem no rádio, mas isso não é música pra dar dinheiro. Cadê aquele sambinha que você me mostrou outro dia?

Desiludido com a rejeição, Herivelto arquivou a composição, só a concluindo meses depois, quando aprontou a primeira parte ("Barração de zinco /sem telhado /sem pintura / lá no morro...").

Gravada em junho de 1942, "Ave Maria do Morro" foi o primeiro sucesso do Trio de Ouro na Odeon. A repercussão do disco, entretanto, trouxe um problema. O cardeal, Dom Sebastião Leme, considerou a canção uma heresia e pediu sua proibição, o que só não aconteceu porque o autor tinha pistolão no serviço de censura.

Realmente, a posteridade provaria que sua Excelência Reverendíssima não estava com a razão: a partir dos anos sessenta, "Ave Maria no Morro", tornou-se a composição que maiores dividendos renderia na obra de Herivelto, especialmente por sua execução em igrejas da Alemanha, Áustria, Suiça e outros países europeus.



"Ave Maria no Morro", de Herivelto Martins, na interpretação do Trio de Ouro.




TRIO DE OURO, saiba mais...


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FONTES
1) Livro




A Canção no Tempo: 85 anos de músicas brasileiras, Vol 1: 1901-1957 / Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. - São Paulo: Ed. 34, 1977.



2) DISCO Odeon, 1942 (Acervo do site Loronix).


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Exibições: 76

Comentário de Marise em 27 dezembro 2009 às 21:31
Laura os teus posts estão de arrasar. Cada vez aprendo mais com estas professoras tão sabichonas
Beijão
Comentário de moacir oliveira em 28 dezembro 2009 às 10:41
Mais um belo post....momento oportuno.
Comentário de Mario Henrique em 28 dezembro 2009 às 16:07
Laura,
Uma linda história da nossa música....Parabens!
Em tudo e todo lugar há uma mística de se admirar, afinal vê-se mais com o coração...já dizia Exupery...e os poetas são assim...
Sucessos em 2010!!
Comentário de Laura Macedo em 28 dezembro 2009 às 20:17
Marise, Moacir e Mário Henrique,

Grata pelos comentários. Fico super feliz quando vocês aparecem por aqui...

Beijos de Ano Novo.

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