“Falsa Baiana” (samba), Geraldo Pereira, 1944.


Na noite de segunda-feira de carnaval de 1944, Roberto Martins estava no Nice, conversando com Geraldo Pereira, quando chegou sua esposa, dona Isaura, fantasiada de baiana. Acontece que não tendo temperamento carnavalesco, a Sra. Martins era a própria imagem da desanimação, em contraste com os foliões, o que levou o marido a observar: “Olha aí, Geraldo, a falsa baiana...”. O que Roberto não sabia era que, inconscientemente, estava oferecendo a Geraldo Pereira o mote para ele criar “Falsa Baiana”, o melhor sucesso de sua carreira.

Neste samba de ritmo sacudido, bem característico de seu estilo, Geraldo estabelece uma divertida comparação entre a falsa baiana – que “Só fica parada / não canta, não samba / não bole nem nada” – com a verdadeira – “Que mexe, remexe / dá nó nas cadeira / e deixa a moçada com água na boca”.

Nascido em Juiz de Fora e criado no morro carioca da Mangueira, este notável compositor – bom de letra e melodia – entraria na década de 1940 para a história do samba, gênero que revigorou em escassos quinze anos de atividade. Talvez pelo caráter inovador de sua obra, que inclui até certas resoluções harmônicas inusitadas na época, Geraldo Pereira não foi suficientemente valorizado em vida.

Várias dessas inovações estão bem à mostra em “Falsa Baiana”: a originalidade melódica, o deslocamento da acentuação rítmica (que causaria forte impressão em João Gilberto) e o ritmo interno das construções verbais, independentemente da melodia.

Tudo isso seria valorizado na interpretação inconfundível de seu lançador, o grande sambista Ciro Monteiro. Uma curiosidade: antes de entregar “Falsa Baiana” a Ciro, o autor mostrou-a a Roberto Paiva, que a rejeitou. “Era de madrugada” – relembra Paiva – “e o Geraldo, ‘meio alto’, cantou enrolando as palavras, dando a impressão de que o samba estava ‘quebrado’. Um mês depois, ao ouvi-lo na voz de Ciro, descobri que aquela beleza toda era o samba que o Geraldo me oferecera”.


“Falsa Baiana”, com Ciro Monteiro e Regional de Benedito Lacerda. RCA Victor, 1944.



**********

FONTES
1) Livro




A Canção no Tempo: 85 anos de músicas brasileiras, Vol 1: 1901-1957 / Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. - São Paulo: Ed. 34, 1977.



2) CD Os Grandes Sambas da História. Vol. 3 (RCA Victor, 1944).

**********

Exibições: 118

Comentário de Laura Macedo em 26 julho 2010 às 2:32
Der Steppenwolf,

Interessante seu encontro com o Zuza Homem de Mello. Também tenho os dois volumes e confesso que estou anciosa pelo terceiro. O argumento dele procede. Ainda bem que o prazo estipulado está próximo e que você, agora, assumirá a função da cobrança. :))
Mantenha-me atualizada acerca dos futuras encontros com o Zuza, ok?
Abraços

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço