Portal Luis Nassif

A Classificação das Vozes no Canto Lírico: I - O Baixo Superprofundo

A classificação das vozes no canto lírico é matéria em torno da qual há muita controvérsia. De forma bastante simples, poderíamos classificá-las em 4 categorias básicas: baixo, barítono, tenor, e soprano, e tudo seria muito fácil se fosse só assim.

Entretanto, há na voz humana uma grande quantidade de características e especificidades a serem consideradas (o que faz com que não haja duas vozes exatamente iguais, ainda que consideradas como da mesma categoria), o timbre, a extensão, a flexibilidade, a potência de emissão, a impostação, etc., são características que tornam as quatro categorias bem mais complexas.

Os compositores escrevem suas obras dentro de certos padrões, atribuindo a execução de cada parte da partitura aos instrumentos (ou naipes de instrumentos) mais adequados para interpretá-la. Os instrumentos, portanto, têm seu “papel” específico na partitura, sua área de execução mais confortável e apropriada à sua tessitura. O mesmo acontece com a parte cantada de uma partitura, cada tipo de voz é o “instrumento” mais adequado para a execução dos trechos destinados ao canto.

Temos ainda que considerar que além da tessitura do instrumento (ou voz) ter que ser adequada ao tom da música, é preciso que ele permita a agilidade necessária para sua execução. Paganini, por exemplo, jamais escreveria o “Moto Perpétuo” para ser executado por um instrumento de sopro, muito menos para canto, devido à velocidade de execução da peça e à inexistência de intervalos de tempo que permitam ao executante respirar. É bem verdade que alguns artistas conseguiram a façanha de adaptar o estilo do “moto” a instrumento de sopro, como o nosso grande Altamiro Carrilho (na peça A Galope), mas creio que utilizando o recurso de gravação em estúdio.

Finalmente, de acordo com as qualidades específicas necessárias para a interpretação da música, poderíamos fazer a seguinte classificação, partindo da voz mais grave para a mais aguda.

1) CATEGORIA DOS BAIXOS
- Baixo Superprofundo
- Baixo Profundo
- Baixo Cantante
- Baixo Coloratura Brilhante

2) CATEGORIA DOS BARÍTONOS
- Barítono
- Barítono Dramático
- Barítono Lírico
- Barítono Ligeiro

3) CATEGORIA DOS TENORES
- Tenor Dramático
- Tenor Lírico
- Tenor Lírico Ligeiro
- Tenor Ligeiro
- Contratenor

4) CATEGORIA DOS SOPRANOS
- Mezzo Soprano Dramático
- Mezzo Soprano Lírico
- Soprano Dramático
- Soprano Lírico
- Soprano Ligeiro
- Soprano Lírico Ligeiro (Coloratura)

Bem, para não cansar os raros leitores (muito menos os pouquíssimos ouvintes) desta página, vamos exemplificar, gradativamente, os diferentes tipos de vozes. Comecemos com o Baixo Superprofundo.

O Baixo Superprofundo é o timbre mais grave masculino, com um registro raríssimo, que abarca cerca de duas oitavas abaixo da média, alcançando notas muito graves. É uma continuação do baixo profundo com um registro mais grave e mais extenso.
Desconheço repertório operístico para esse tipo de voz. Geralmente os baixos superprofundos dedicam-se a interpretar canções escritas ou adaptadas para sua tessitura vocal.

Aqui vão dois exemplos de baixo superprofundo. Talvez as canções não agradem muito em termos de lirismo e melodia, mas vale a pena ouvi-las integralmente de forma que você se surpreenderá com as notas incrivelmente graves emitidas.

Ouçamos o russo WLADIMIR MILLER em “Sleep, Oh, Eagles of Courage” . Não deixe de ouvir a última nota da canção!



A seguir, o também russo VLADIMIR PASUIKOV em “Do not Reject me in old age”

Exibições: 8166

Tags: baixo, canto lírico, sleep oh eagles of courage, wladimir miller, ópera

Comentário de Henrique Marques Porto em 20 novembro 2008 às 22:35
Caro Oscar,

Não localizei a mensagem que você enviou sobre o que disse a Glória Queiroz. Minha caixa está vazia. Fiquei curioso. Mande para o meu e-mail (hmporto@hotmail.com). A propósito da Glória, ela está no YouTube e nem deve saber ainda. O vídeo é de uma montagem de "Amahl e os Visitantes Noturnos", ópera em um ato de Gian Carlo Menotti no Teatro Municipal de Niterói em 1973. No elenco estão também Paulo Fortes e Nelson Portela. A postagem no YouTube foi feita pela Zilka Fortes, viúva do Paulo. Tenho uma história curiosa sobre a estréia dessa ópera no Brasil, no final dos anos 50 ou início dos 60. Conto depois. Veja a Glória (e se puder, mostre para ela) cantando no "Amahl" em http://www.youtube.com/watch?v=oFj_ixjkvn4&feature=related. Existem outros registros de apresentações da Glória espalhados por aí. Uma delas eu ouvi há muitos anos na casa do falecido Assis Pacheco. Pacheco gravou muitas de suas récitas. Uma delas é de 1956 -uma Cavalleria Rusticana, com Glória Queiroz e Sílvio Vieira. Os melhores acervos pessoais estão com a Zilka Fortes, mulher do Paulo, e com Marisa Mariz, viúva do Pacheco. Os dois, Pacheco e Paulo, gostavam de documentar o que faziam.
Vejo que você já conhece a Elina Garanca, uma belíssima voz. E seguramente a cantora lírica mais bonita que eu já vi! Baita mezzo. Gostei muito de sua versão das Bachianas n.5. A voz mais grave soa como um violoncello. Suspeito que era essa a intenção de Villa-Lobos.
Li o texto sobre canto e ouvi com atenção os dois baixos. Comentarei com mais calma depois.
Abraço
Henrique Marques Porto
Comentário de Jonas Alves Corrêa em 20 novembro 2008 às 22:48
Caro Oscar,
Pareceu-me que vc classificou as vozes partindo da mais grave (baixo) para a mais aguda (soprano), não levando em consideração se elas são masculinas ou femininas. Entretanto, estranhei a ausência do contralto, o que modificaria a classificação para 5 categorias. Fiquei impressionado com o vozeirão dos 2 baixo superprofundo, uma inesperada surpresa para mim. Mas o assunto é muito extenso, tem muito chão pela frente, pois vc deu apenas o pontapé inicial, o que no fundo significa muito esforço, pesquisa, talento e trabalho. Um grande abraço.
Comentário de Jose Arlindo em 20 novembro 2008 às 22:54
Oscar,

Os russos são "especialistas" em baixo-profundo, né. Lembro-me bem de um antigo solista do Coro do Exército Vermelho da antiga URSS que, se não me engano, se chamava Ivan Rebroff (1931-2008). O cara tinha uma tal extensão de voz que deixava o ouvinte sem fôlego! Sua voz atingia 4 oitavas e meia, de soprano até baixo profundo
Comentário de Jose Arlindo em 20 novembro 2008 às 22:57
Segundo a Wikipedia, na verdade Ivan Reproff era alemão e não russo e seu nome verdadeiro era Hans-Rolf Rippert e viveu praticamente toda a sua vida na Grécia. Mas só me lembro de discos dele (eu mesmo tive alguns LP "herdados") cantando música russa.
Comentário de zuleica jorgensen malta nascimento em 20 novembro 2008 às 23:00
Oscar,
Não sou especialista no assunto, longe disso. Mas convivo com cantores líricos há longo tempo, tenho inclusive um filho tenor. Mas creio que sua classificação deveria incluir as mezzo sopranos, cujas vozes são muito características. As variações dentro de cada timbre são muitas e em muitos casos, sopranos podem cantar papeis operísitos escritos para mezzos e o mesmo ocorre com os tenores, que eventualmente, podem contar peças feitas para barítonos. Mas nas óperas que tive ocasião de assistir sopranos mezzos são pefeitamente caracterizados assim como barítonos e tenores. Creio, portanto, que grosso modo, os timbres são cinco, e não quatro: baixos, barítonos, tenores, mezzo sopranos e sopranos. Com as variações conhecidas em cada timbre. Um abraço. Zuleica
Comentário de Jose Arlindo em 20 novembro 2008 às 23:02
Corrigindo, o Ivan Rebroff gravava com o Coro dos Cossacos do Don e não com o Coro do Exército Vermelho
Comentário de Helô em 21 novembro 2008 às 0:27
Bem você disse no início: "A classificação das vozes no canto lírico é matéria em torno da qual há muita controvérsia". Haha, bota controvérsia!
Mas o Jonas já escreveu o que eu pensei em lhe dizer. Tenho certeza de que o post é resultado de muito trabalho e pesquisa. Talento, para quem já o conhece, sabe que há de sobra. Já conhecia o Wladimir Miller desde que resolvi pesquisar sobre a Igreja Ortodoxa Russa, mas estou impressionadíssima com o Pasuikov! Já escutei umas quatro vezes! É tão bonito que dá até medo! :)
Beijos.
Comentário de Helô em 21 novembro 2008 às 10:44
Lembrei agora o que eu queria lhe dizer, meu professor-doutor em Bel Canto: Modelos Mentais!
Bjs.
Comentário de Oscar Peixoto em 21 novembro 2008 às 11:24
Meu prezado Marcos, obrigado por sua visita à minha página. Críticas e comentários serão sempre bem-vindos, mormente quando contribuírem para ampliar conhecimentos – como é o intuito, me parece, desta comunidade criada pelo LN.
Você deve ter notado que no primeiro parágrafo do meu “post” faço questão de afirmar que há controvérsias quanto à classificação das vozes. Aliás, há controvérsia em qualquer classificação. Desde Aristóteles (o primeiro filósofo a tentar classificar a natureza a partir da observação) que a maneira de ordenar seres ou coisas dá margem a dissensões, isto porque toda classificação depende do critério estabelecido como ponto de partida.
Assim, verifique que utilizei, como critério, as tessituras vocais do ser humano (sem considerar se macho ou fêmea) a partir da mais grave para a mais aguda. Você até pode discordar dessa classificação, uma vez que nesse campo não se impõe o “magister dixit”, e adotar outro tipo de classificação, mas, evidentemente, estará partindo de critério diferente. Assim, nem uma nem outra seriam erradas, seriam apenas diferentes. Mas, só por curiosidade, veja como a sua classificação ignora o fato de que há vozes masculinas tão agudas quanto a “voz feminina aguda”, como é o caso do contratenor. E aí? Como ficaria sua classificação?
Bem, Marcos (interessante você, tão jovem, mostrar parcialmente o nome e esconder totalmente o rosto), meu propósito aqui neste canto não é dar aulas, ditar normas ou estabelecer polêmicas muito menos. Meu intuito é o de fazer algo quase na base do “quem tem medo do canto lírico”, de forma simples, coloquial, sem pseudo-erudição ou esnobismo rançoso, tão característicos da nossa inteligentsia tupiniquim. Pretendo tão somente atrair novos interesses pelo canto lírico - essa arte tão ignorada, tão abandonada por nosso povo – mostrar, principalmente, que no mundo, a cada dia, surgem novos valores, novas gerações de cantores líricos, tão bons quanto as grandes estrelas do passado (que não serão aqui esquecidas).
Só que, num determinado momento, senti que havia a necessidade de botar alguma ordem na casa, daí me aventurar numa pequena digressão sobre a voz humana., procurando orientar um pouco mais aqueles neófitos que aqui se aventurassem. Não é uma página, pois, para especialistas, embora estes, se quiserem, possam aperfeiçoá-la.
Mas, o mais importante, o objetivo maior da página, você não comentou: os cantores! Fiquei sem saber se, além de não ter gostado da classificação, você também não gostou dos cantores...
Comentário de Marcio Frota em 21 novembro 2008 às 13:58
Caro Oscar,
não sou especialista, não poderia discorrer sobre o assunto...mas adoro música, e adoro o NOVO, e pra mim é isso que vc traz.Eu sempre quis saber sobre os baixo superprofundos, apesar de nem mesmo saber que queria...
As vozes são sensacionais, a primeira musica principalmente, linda.
Muito obrigado pelo enriquecimento
um abraço

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Novas

Receba notícias por e-mail:

Dinheiro Vivo

Publicidade

© 2014   Criado por Luis Nassif.

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço