A Classificação das Vozes no Canto Lírico: I - O Baixo Superprofundo

A classificação das vozes no canto lírico é matéria em torno da qual há muita controvérsia. De forma bastante simples, poderíamos classificá-las em 4 categorias básicas: baixo, barítono, tenor, e soprano, e tudo seria muito fácil se fosse só assim.

Entretanto, há na voz humana uma grande quantidade de características e especificidades a serem consideradas (o que faz com que não haja duas vozes exatamente iguais, ainda que consideradas como da mesma categoria), o timbre, a extensão, a flexibilidade, a potência de emissão, a impostação, etc., são características que tornam as quatro categorias bem mais complexas.

Os compositores escrevem suas obras dentro de certos padrões, atribuindo a execução de cada parte da partitura aos instrumentos (ou naipes de instrumentos) mais adequados para interpretá-la. Os instrumentos, portanto, têm seu “papel” específico na partitura, sua área de execução mais confortável e apropriada à sua tessitura. O mesmo acontece com a parte cantada de uma partitura, cada tipo de voz é o “instrumento” mais adequado para a execução dos trechos destinados ao canto.

Temos ainda que considerar que além da tessitura do instrumento (ou voz) ter que ser adequada ao tom da música, é preciso que ele permita a agilidade necessária para sua execução. Paganini, por exemplo, jamais escreveria o “Moto Perpétuo” para ser executado por um instrumento de sopro, muito menos para canto, devido à velocidade de execução da peça e à inexistência de intervalos de tempo que permitam ao executante respirar. É bem verdade que alguns artistas conseguiram a façanha de adaptar o estilo do “moto” a instrumento de sopro, como o nosso grande Altamiro Carrilho (na peça A Galope), mas creio que utilizando o recurso de gravação em estúdio.

Finalmente, de acordo com as qualidades específicas necessárias para a interpretação da música, poderíamos fazer a seguinte classificação, partindo da voz mais grave para a mais aguda.

1) CATEGORIA DOS BAIXOS
- Baixo Superprofundo
- Baixo Profundo
- Baixo Cantante
- Baixo Coloratura Brilhante

2) CATEGORIA DOS BARÍTONOS
- Barítono
- Barítono Dramático
- Barítono Lírico
- Barítono Ligeiro

3) CATEGORIA DOS TENORES
- Tenor Dramático
- Tenor Lírico
- Tenor Lírico Ligeiro
- Tenor Ligeiro
- Contratenor

4) CATEGORIA DOS SOPRANOS
- Mezzo Soprano Dramático
- Mezzo Soprano Lírico
- Soprano Dramático
- Soprano Lírico
- Soprano Ligeiro
- Soprano Lírico Ligeiro (Coloratura)

Bem, para não cansar os raros leitores (muito menos os pouquíssimos ouvintes) desta página, vamos exemplificar, gradativamente, os diferentes tipos de vozes. Comecemos com o Baixo Superprofundo.

O Baixo Superprofundo é o timbre mais grave masculino, com um registro raríssimo, que abarca cerca de duas oitavas abaixo da média, alcançando notas muito graves. É uma continuação do baixo profundo com um registro mais grave e mais extenso.
Desconheço repertório operístico para esse tipo de voz. Geralmente os baixos superprofundos dedicam-se a interpretar canções escritas ou adaptadas para sua tessitura vocal.

Aqui vão dois exemplos de baixo superprofundo. Talvez as canções não agradem muito em termos de lirismo e melodia, mas vale a pena ouvi-las integralmente de forma que você se surpreenderá com as notas incrivelmente graves emitidas.

Ouçamos o russo WLADIMIR MILLER em “Sleep, Oh, Eagles of Courage” . Não deixe de ouvir a última nota da canção!



A seguir, o também russo VLADIMIR PASUIKOV em “Do not Reject me in old age”

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Comentário de Oscar Peixoto em 23 novembro 2008 às 21:14
Recebi de Henrique Marques Porto excepcional contribuição:
"O seu comentário sobre a classificação das vozes está correto. Ocorre, apenas, que algumas daquelas vozes típicas desapareceram. Exemplos: baixo bufo, baixo cantante ou mesmo o baixo profundo. A ausência de vozes de qualidade especializadas em determinados repertórios é a responsável por isso. Hoje você tem mais vozes como a do Furllanetto, por exemplo, que canta o Felipe II, do Don Carlo, o Leporello, mais Bartolo e Basílio. Ou tem baixos-barítonos como James Morris, que cantam o Scarpia e o Wotan. Acontece coisa semelhante com os sopranos e até com os tenores. Difícil encontrar uma coloratura legítima, tipo Lili Pons, Lina Pagliughi ou Toti Dal Monte. Principalmente quando se tem uma Netrebko cantando tudo. Repare como Alagna, por exemplo, encorpou mais a voz para enfrentar o repertório dramático. E parece que está sendo atropelado pelo Villanzón (que considero epígone de Plácido Domingo). Não sei se essas mudanças meio forçadas na voz podem dar certo. Di Stefano fez isso e teve uma carreira curtíssima. Estreou no final dos anos 40, cantando Barbeiro e Elixir do Amor, e em menos de dez anos sua voz perdeu o brilho e a qualidade depois de encarar até o Trovador. Já Giacomo Lauri-Volpi cantava todo o repertório para tenor (exceto Wagner), do Barbeiro ao Otelo. Mas é uma exceção. Aliás, as verdadeiras grandes vozes são sempre exeções. Impossível enquadrá-las nas classificações clássicas. Caruso gravou "Vecchia Zimarra", cantando no registro dos baixos. É mole?
Abraço
Henrique Marques Porto"

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