A Consciência Genuína (Conscientia legitmum)

Não se pode acusar a chibata pelas marcas que nos causam. A culpa é de quem as manipulam. (Rosana Márcia)[1]

Ao ser interpelado sobre sua ligação com Jesus, a negação de Pedro demonstra temores íntimos que as vezes se apresentam nos seres humanos, que o receio de ser punido por possuir ideias que as vezes se confrontam com a de um determinado público no qual está inserido ou que se pretenda ser inserido. O episódio clássico[2] em que o apóstolo nega sequer conhecer o seu mestre não embota o caráter de Pedro, que continuou sua evolução humana e se tronou um grande defensor das ideias do mestre que negou no passado.

Pedro se libertou da segurança conveniente e se expôs em busca de reerguer os cacos que as experiências anteriores deixaram, assim como nossa geração está em busca de reconstruir o cenário na qual vive e por isso é preciso estar além do pensamento conveniente a impede de evoluir.

Em certa ocasião um enorme congestionamento surpreendeu as pessoas que voltavam para casa e algumas começaram a culpar a Polícia Rodoviária Federal pelo problema. Na verdade, nem era a polícia a culpada pelo dissabor de uma carreta tombada na rodovia e nem por problemas semelhantes, os culpados são os governantes, gestores e maus políticos que represam, para eles mesmos, recursos que seriam empregado na construção e duplicação de rodovias, na infraestrutura de escoamento de produção e de cargas, e ainda são contra a redução de horas de trabalho pra os motoristas transportadores enquanto beneficiam empresas, lucram com manutenção mal feita de pavimentação de vias, e são os mesmos que superfaturam obras e acabaram com as ferrovias, tudo isso enquanto sentam, com seus polpudos salários e “ganhos extras”, e confortavelmente leem textos e vendo a produção midiática de pessoas inteligentes que culpam uma instituição policial em vez de enxergar os verdadeiros culpados pelo problema.

E assim muitos praticam o julgamento pela marca da chibata e pela mão que retirou a chibata do local para que não fosse utilizada para ferir outros, enquanto o que usou a ferramenta, protegido pelo seu poder político-financeiro, ficam incólumes para posarem de heróis na ocasião oportuna.

Mesma crítica é direcionada aos policiais militares em eventos de controle de distúrbios, quando são equivocadamente identificados como o inimigo e recebem a ira de manifestantes e de representantes da presunçosa mídia despojada de argumentos sociais concretos.

Se culpa dessa mesma forma os policiais civis pela falta de resultados na investigação. Bombeiros recebem antipatia se não salvam alguém, agentes de trânsito por extraírem notificações em vias que deveriam estar em melhores condições, servidores do Itep por ausência de provas periciais, enfim, todos adoram enxergar os agentes encarregados de aplicar a lei como as verdadeiras Geni[3] de Chico Buarque de Holanda, pronta para ser usada, abusada e descartada após seu uso indevido.

É preciso parar com a visão minimalista que enxerga apenas a moldura e a obra. O verdadeiro autor da arte precisa ser visto para que as opiniões sejam proferidas com embasamento correto e não motivadas por uma emoção circunstancial, como no caso da situação do trânsito impedido pela PRF, onde as pessoas se sentiram pessoalmente atingidas sendo elas apenas vítimas secundárias de um acidente de trânsito, sem maiores repercussões para elas ou para seus conhecidos.

Como analista de segurança pública participei como observador interno das manifestações conhecidas como#RevoltadoBusão, numa das ocasiões fui apanhado em meio à confusão e acabei recebendo duas cacetadas de tonfa nas costas. Ao chegar em casa, um de meus filhos vendo as marcas que ficaram, logo me perguntou se eu escreveria um texto ou nota contra os policiais. Respondi que não porque eu sabia o tipo de pressão inerente ao movimento, a mitologia de embate e revide que permeia o clima contagiando manifestantes e policiais, portanto não seria prudente criticar nenhum dos dois grupos.

Vários dias depois, sem nenhuma marca nas costas, me vi diante do notebook escrevendo uma série de artigos sobre as manifestações, em um deles, “Na Pele das Vítimas” (Disponível em http://bit.ly/11JRJO8), apresentei meu ponto de vista sobre quem eram os verdadeiros causadores daquele tipo de situação efervescente, e que ainda são hoje, pois continuam sendo eleitos pelas mesmas paixões político-partidárias e pela emotividade habitual ou ocasional, usada pela maioria na hora de escolher seus representantes.

Se faz necessário o encerrar da intolerância que julga sem entender, do imediatismo que pronuncia palavras promotoras da anulação social de profissionais que arriscam suas vidas, e o fazem como enfermeiros que fazem curativos nos feridos pela influência dos que vivem em relativo conforto e que nunca se sentiram na pele das vítimas.

A sociedade brasileira engatinha como bebês diante do caminhar da maturidade necessária no processo democrático da escolha de representantes, e depois de anos de interrupção democrática, somente com seis eleições presidenciais/governadores e apenas sete para  prefeitos, talvez ainda seja pouco e para que a sociedade aprenda seja preciso décadas para se atingir esse patamar na evolução política e social.

Entretanto, como seres humanos, precisamos estar cientes das dores uns dos outros, e antes de negarmos a consciência que nos serve de guia, apontando o dedo para o culpado conveniente e ao invés de enxergar o culpado de colarinho branco, que muitas vezes tenta comprar nossa confiança com moedas retiradas de nossos próprios bolsos. Precisamos identificar os verdadeiros culpados, não para mata-los, humilhá-los ou agir como agem, e sim para retirar deles o poder de causar o mal.

Que a genuína consciência promova a evolução social.

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SOBRE O AUTOR:

Ivenio Hermes é especialista em políticas e gestão em segurança pública, escritor com 9 livros publicados, ganhador do prêmio literário Tancredo Neves, colaborador e associado pleno do Fórum Brasileiro de Segurança Pública; consultor de segurança pública da OAB/RN Mossoró, pesquisador da violência homicida para o COEDHUCI/RN.

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DIREITOS AUTORAIS E REGRAS PARA REFERÊNCIAS:

É autorizada a reprodução do texto e das informações em todo ou em parte desde que respeitado o devido crédito ao(s) autor(es).

HERMES, Ivenio. A Consciência Genuína (Conscientia ipsum). 2014. Disponível em: < http://bit.ly/1xiwLIa >. Publicado em: 05 out. 2014

[1]  Rosana Márcia publica pensamentos dela e de outros em um perfil aberto, e esse pensamento dela está comigo há semanas desde que pensei em escrever a essa série de textos. Outros pensamentos da autora estão disponíveis em http://pensador.uol.com.br/autor/rosana_marcia/

[2]  A Negação de Pedro é uma pintura de Michelangelo Merisi da Caravaggio que remonta a retrata o sermão do Apóstolo Paulo descrito por Lucas no Livro Bíblico de Atos 17:16-34. Onde seu discurso cheio de sua experiência como missionário mostrou honestamente a realidade de sua transformação e trouxe a conotação necessária para converter muitas pessoas.

[3] Geni é a personagem da música Geni e o Zepelim de Chico Buarque de Hollanda. O compositor, possuidor de uma sensibilidade incrível, usa a história de Geni para mostrar a natureza mesquinha e a corrupta da sociedade brasileira.

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