A cortina de fumaça da "desindustrialização"

A cortina de fumaça da "desindustrialização"por, Alexandre de Freitas Barbosa. Valor Econômico, 24-05-12.

O debate a respeito da desindustrialização dá a sensação de que uma nova peste assola o país. A discussão vai se enredando num cipoal de dados e conceitos de desnortear. Cada qual vê a "desindustrialização" que quer, como se uma cortina de fumaça ocultasse o real e seus processos dinâmicos, muitas vezes inacessíveis a olho nu.

De modo a colocar os pingos nos "is" e retomar a credibilidade do debate, não custa recorrer à história econômica brasileira e a alguns pressupostos teóricos mínimos.

O Brasil passou por um processo de industrialização entre 1930 e 1980. Antes de 1930, tínhamos crescimento de indústrias. O motor da economia estava na demanda externa, que nutria as nossas exportações de produtos primários, especialmente o café. A industrialização viabilizou o deslocamento do eixo dinâmico da economia, na feliz expressão de Celso Furtado. A economia avançava agora por meio das transformações geradas pela indústria, como explicitou a professora Maria da Conceição Tavares. Apesar de todas as distorções, o Brasil foi um dos poucos países da periferia capitalista que experimentaram uma autêntica mutação industrial, nos termos de Antônio Barros de Castro.

Esses ensinamentos devem ser levados em consideração se quisermos entender como do passado emergiu o presente e quais as oportunidades o futuro reserva para a indústria brasileira no novo quadro internacional.

Em termos bastante sintéticos, nos anos 80, a indústria manteve-se congelada, mas perdeu produtividade, tanto pelo fechamento forçado da economia para gerar superávits comerciais num contexto de estagnação, como também pelas transformações tecnológicas gestadas lá fora.

Nos anos 90, a indústria modernizou-se, apesar de ter se enfraquecido, perdendo elos da cadeia produtiva e eliminando empregos, em virtude de um regime macroeconômico que, além de profundamente instável, aguçava a pressão competitiva. Foi então que passou a circular pela primeira vez o fantasma da desindustrialização. Os neoliberais a defendiam: a industrialização havia ido longe demais. A esquerda não tinha dúvida: o Brasil se desindustrializara, tendo perdido o bonde da história.

Durante os anos 2000, o quadro mudou sobremaneira. O Brasil voltou a crescer e o regime macroeconômico - facilitado pelo ambiente externo, e pelas medidas de estímulo à demanda interna - permitiu que o produto e o emprego industriais se expandissem de maneira relevante, bem acima dos anos 90. Entretanto, mais precisamente no ano de 2011, o Produto Interno Bruto (PIB) total passou a crescer bem à frente do industrial, que inclusive se mostrou estagnado no ano passado.

Desde então, dois diagnósticos prevalecem. Muitos economistas situados à esquerda condenam a desindustrialização, tomando-a como um fato indiscutível. O país estaria matando a possibilidade de agregar progresso técnico e transformando-se numa grande fazenda exportadora. Desindustrialização rima com primarização.

Já os neoliberais - agora eles estão divididos - repartem-se em dois grupos. Uns encaram a desindustrialização como uma tendência de toda economia em estágio de maturidade. Outros admitem que há um problema industrial, que se deve à nossa reduzida competitividade, causada pelos impostos e salários, e à precária qualificação da força de trabalho, eterna culpada pela baixa produtividade.

Sugere-se aqui uma hipótese alternativa: o problema parece residir na (in)capacidade de se engendrar uma nova interação entre a indústria de transformação - que soubemos construir e manter a duras penas, deixando, entretanto, que algumas importantes rachaduras se instalassem - e a dinâmica econômica. Esta é, por sua vez, afetada pela nova realidade global em termos conjunturais (lei-se guerra cambial) e estruturais (ascensão chinesa com industrialização integral e competitiva a partir de cadeias produtivas fortes).

O baixo crescimento recente tem a ver com o fato de que o regime macroeconômico, neste novo contexto, deixou de trazer a expansão quantitativa e qualitativa da indústria. O conjunto de medidas adotadas pelo governo procura ajustar este regime, de modo a contemplar maior espaço para a produção industrial interna, sem o que será impossível chegar a uma taxa de investimento superior a 20%.

Ao contrário, supor que devamos celebrar a melhoria nos termos de intercâmbio trazida pela China, modernizando apenas a indústria que se mostrar competitiva, significa ocultar interesses escusos que não querem perder com a mudança de enfoque da política econômica.

No atual contexto, a indústria não precisa mais correr à frente do PIB, como acontecia durante a industrialização. Mas ela deve ser remodelada a partir de uma nova orquestração entre Estado, setor privado nacional e capital transnacional, que defina as suas frentes de expansão. Trata-se de decidir "a indústria que queremos e podemos ter", mantendo um núcleo duro capaz de gerar encadeamentos produtivos e de incorporar progresso técnico; e que possa se aproveitar do dinamismo dos setores de serviços, infraestrutura, construção civil e agrícola, expandindo o seu potencial de acumulação e da economia como um todo.

Vivemos, de fato, uma transição estrutural, que, no limite, pode acarretar o esvaziamento da nossa estrutura industrial, caso esta perca musculatura e capacidade para acompanhar o movimento da demanda interna e de ocupar novos nichos nos mercados internacionais. Mas é cedo demais para entregar os pontos.

Se quisermos alterar o nosso padrão de desenvolvimento, no sentido de ampliação da produtividade e de redução da desigualdade, uma indústria forte e competitiva - apontando para os setores de fronteira tecnológica e mantendo os setores intensivos em trabalho e recursos naturais - torna-se fundamental.

Não se trata de tarefa fácil, capaz de ser enfrentada apenas com ações de curto prazo e reuniões do governo com os setores organizados. Falta projeto nacional, que pense a indústria para além da indústria.

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Comentário de Oswaldo Conti-Bosso em 5 junho 2012 às 14:44

Alexandre Barbosa, prof. de história econômica USP

"A tese da desindustrialização é uma cortina de fumaça"

A discussão sobre a desindustrialização brasileira parece seguir o ritmo das marés: volta à baila a cada turbulência no horizonte. De fato, a indústria brasileira é hoje a primeira a sentir os efeitos da crise externa ou das variações de câmbio.

Por Carla JIMENEZ, Nº EDIÇÃO: 765 | 01.JUN.12 - 21:00 | Atualizado em 04.06 - 21:39

No entanto, esse debate é raso e esconde algumas peculiaridades do País, avalia Alexandre Barbosa, professor de história econô­mica e integrante do Insti­tuto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). “Há in­ves­timentos estrangeiros de forma expressiva no País,  adaptando-se a padrões de consumo, estabelecendo centros de pesquisa local”, diz Barbosa. “Isso é estar perdendo indústria?” Para ele, esse debate esconde as mudanças estruturais na economia global. “Hoje a indústria não precisa mais ser o carro-chefe da economia.”


DINHEIRO – Existe desindustrialização no Brasil?

ALEXANDRE BARBOSA – A tese da desindustrialização é uma cortina de fumaça, que atinge apenas a superfície do problema. Não se percebe as transformações estruturais pelas quais a economia brasileira e a mundial estão passando. É muito cedo para entregar os pontos. Há um pessoal de esquerda que chama de desindustrialização a queda da participação da indústria no PIB, ou a menor presença de manufaturados na pauta de exportações. Isso não relata o processo completo do setor. O pessoal mais neoliberal, por outro lado, adota o discurso de que se trata de um processo natural, que os países desenvolvidos passaram por isso e estamos entrando nessa maturidade.
 
DINHEIRO – Qual dos dois lados está certo?
BARBOSA – As duas visões estão mirando o alvo errado. Ficamos muito presos a um debate conjuntural e deixamos de pensar nos movimentos estruturais. E o Brasil é um dos países que estão razoavelmente bem colocados nesse contexto, com uma indústria forte e diversificada. O País passou por um quadro difícil, é verdade, com a China jogando produtos baratos no mercado, num contexto de câmbio valorizado e taxa de juros elevada. Mas não é uma tendência, é um período de transição. Foram outros países latinos que se desindustrializaram, como Peru e Chile. O Brasil, não.
 
DINHEIRO – Outros latinos também?
BARBOSA – Sim, todos, menos México e Argentina. Os mexicanos, em todo caso, são atrelados aos Estados Unidos e assumiram o papel de “maquiadores”. Os argentinos, por outro lado, dependem do Brasil. O restante está desindustrializado. Para abrir esse debate, é preciso compreender a especificidade brasileira. O conceito de desindustrialização, aliás, fazia parte de uma tese da Unctad, em um documento de 2003. Eles colocavam ali, China e Índia numa industrialização rápida, a Coreia, como um setor mais maduro. E a América Latina como um processo de desmonte precoce. 
 
DINHEIRO – Não vale para o Brasil, então?
BARBOSA – O Brasil continua sendo um dos países com mais receptividade de investimento estrangeiro direto, inclusive na área industrial. Há investimentos de grandes e pequenos grupos, de forma expressiva no País, inclusive adaptando-se a padrões de consumo, estabelecendo centros de pesquisa e desenvolvimento local. Isso é estar em desindustrialização? E os empregos gerados de 2003 a 2008? Veja, da década de 1930 a 1980, tivemos industrialização. Nos anos 1980, congelamos nosso parque industrial. Na década seguinte, perdemos alguns elos de cadeias produtivas, com a abertura comercial. Se houvesse um processo do gênero, teríamos perdido muito mais nos anos 1990. 
 
DINHEIRO – Mas corremos algum risco de perder nosso parque industrial?
BARBOSA – Sim, se não executarmos políticas industriais de longo prazo.  O governo já está fazendo isso, aproveitando o cenário e deixando a desvalorização da moeda, e com soluções como a das compras governamentais, que incentiva o fornecimento de empresas locais. Mas é preciso entender que, num novo regime macroeconômico, a indústria pode crescer menos que o PIB geral e deixar de ser um carro chefe. O setor industrial era o motor da economia quando estávamos saindo da hegemonia da  produção de café. 
 
DINHEIRO – O que seria um regime novo?
BARBOSA – O que começa a vigorar depois da crise de 2008, quando subimos juros, e a China chegou com a enxurrada de importados, pegando a indústria. Até então, não havia esse debate. Mesmo a China está aumentando sua atuação aqui, mas ainda é uma presença limitada. No ano passado, fiz um trabalho, junto com o professor americano Rhys Jenkins, da University of East Englia,da Inglaterra, analisando a participação dos produtos chineses em 100 setores brasileiros, em 2008. E não havia, definitivamente, um desmonte da indústria no Brasil. Houve, sim,  problemas para alguns setores específicos.
 
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Linha de montagem da GM, em São Paulo.
 
DINHEIRO – Alguns segmentos de baixa utilização tecnológica correm o risco de desaparecer?
BARBOSA – Veja, precisamos manter um núcleo industrial, intensivos em tecnologia, automotivo, siderúrgico, de química, e manter setores intensivos em mão de obra. Mas esses setores intensivos em trabalho, num cenário macroeconômico muito negativo para eles, já começaram a reagir. Em 2007, o coeficiente das importações chinesas no consumo aparente no setor têxtil, por exemplo, variava de 3% a 12%, dependendo do elo da cadeia. Nessa mesma época, o coeficiente de importação para toda a indústria brasileira chegava a 18%., superior, portanto, ao da cadeia têxtil. 
 
DINHEIRO – Mas essa participação aumentou recentemente...
BARBOSA – Segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), esse número chega a 22%, incluindo a concorrência chinesa e do resto do mundo. Mas, de fato, algumas cadeias tendem a encolher, sim. 
 
DINHEIRO – É o efeito China?
BARBOSA – A presença chinesa é menor do que se imagina. Analistas pegam dados da China e extrapolam para daqui a dez anos.  Mas esquecem que os países reagem. Inclusive o Brasil, que tem apresentado respostas. 
 
DINHEIRO – Podemos dizer que a China acabou contribuindo para mudanças fundamentais, como queda de juros e redução de tributos para alguns setores?
BARBOSA – Boa parte dos analistas coloca a China como bode expiatório. Eu a vejo como fator de mudança estrutural da economia global. Hoje, somos um dos poucos países do mundo com uma indústria desenvolvida, um mercado interno poderoso e com larga produção de commodities. Bem, os neoliberais falam das “jabuticabas”, coisas que só o Brasil tem, não é? Pois, então, eles não valorizam essas especificidades. Isso desvia o foco do que é mais essencial.
 
DINHEIRO – E o que é essencial?
BARBOSA – Embora a discussão seja a indústria, a questão mais importante é o combate à desigualdade social. Pode parecer algo fora do debate, mas precisamos de um novo padrão de desenvolvimento, em que setores intensivos em tecnologia sejam a base da geração de riqueza. A indústria precisa estar atrelada ao setor de serviços, construção, agricultura, de modo que possa gerar melhores empregos. Senão, esse crescimento não tem efeitos em cadeia. 
 
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Fazenda de café em São Paulo, no início do século 20.
 
DINHEIRO – As empresas se queixam da alta dos salários e da falta de mão de obra.
BARBOSA – Não concordo com esse diagnóstico. É um mito que a imprensa ajuda a endossar, o tal do apagão de mão de obra. Boa parte dos empregos no Brasil é de escassa qualificação e paga baixos salários. Agora, se quisermos ir para a fronteira do conhecimento, temos de investir mesmo. O Brasil nunca fez essa aposta. Governo e empresas têm de fazê-la. Temos um excedente fantástico de mão de obra no País. O problema é que é de baixa qualificação. O apagão é bom, por um lado, porque significa que nos acostumamos a investir na baixa qualificação. E somos obrigados a mudar. A melhora dos salários, por sua vez, reflete a dinamização econômica que estamos vivendo.
 
DINHEIRO – O que o sr. achou da ajuda do governo ao setor automotivo?
BARBOSA – É preciso expandir o foco. Essas medidas tendem a se esgotar, mas é o mais fácil a se fazer. Não terá o mesmo impacto da crise de 2008, em todo caso. Vai na direção certa, ajuda a desovar estoques, mas precisamos fazer uma política mais estruturante. 
 
DINHEIRO – Os empresários estão felizes com a queda de juros, mas muitos dizem que só vão ampliar investimentos quando o custo Brasil reduzir. Tem solução?
BARBOSA – Essas declarações de alguns empresários brasileiros precisam ser ouvidas com cautela. Faz parte do DNA deles falar do custo Brasil. Há cada vez mais déficit de representações do empresariado. Nós não sabemos quem são os novos representantes dessa economia. Não acho que o chamado custo Brasil seja o impeditivo para investir no longo prazo. Quem fala assim procura defender as trincheiras do empresariado. 
 
DINHEIRO – Nas últimas semanas, analistas internacionais têm dito que o Brasil deixou de ser um “queridinho”, como em 2011...
BARBOSA - Eu leio isso de forma positiva, um País que quer avançar em setores mais intensivos tem de ter políticas estruturais, e não ser queridinho apenas para atrair fundos de investimentos. A recente saída de capitais tem a ver com a crise europeia. O investimento direto estrangeiro deve ter uma pequena queda neste ano, mas em 2011 a entrada foi de quase US$ 70 bilhões, um recorde.
 
DINHEIRO – Mesmo no  caso do investimento direto, há  quem diga que alguns projetos chineses foram engavetados por excesso de interferência do governo na economia.
BARBOSA – Os chineses querem exportar e que nós apenas montemos os produtos deles. Priorizar conteúdo local me parece correto. Não se pode ficar só aí, mas é correto. O Brasil tem de ser queridinho para sua sociedade, o que não tem nada a ver com romper contrato. Mas significa ter parâmetros duradouros.

http://www.istoedinheiro.com.br/entrevistas/85769_A+TESE+DA+DESINDU...

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