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Ronaldo Bicalho

A CPI da Petrobras e a irresponsabilidade sem limite

Colocar a maior empresa brasileira ao sabor das veleidades político-midiáticas em um momento de profunda crise econômica mundial caracteriza um tipo de comportamento que não tem nenhum outro compromisso que não seja alcançar o poder a qualquer custo.

Em um momento em que a empresa procura mobilizar todos os seus recursos para enfrentar os desafios da exploração do pré-sal, em um contexto econômico extremamente desfavorável, inserindo-se em um grande esforço de política anticíclica, criar uma CPI no Senado Federal tem como único objetivo inviabilizar qualquer tentativa de construir uma agenda positiva para o país.

Considerando o peso que os papéis da Petrobras têm no mercado de capitais brasileiro, as possibilidades para todo o tipo de manipulações a partir de vazamentos selecionados, boatos infundados, até mesmo da simples chantagem para auferir vantagens ilícitas, não têm limites.

Ao intento óbvio de se criar dificuldade para o governo Lula, soma-se a clara manobra de enfraquecer a posição da empresa na negociação do novo marco regulatório para o pré-sal.

É lamentável que alguns senadores com longa tradição de luta democrática tenham se prestado a esse papel medíocre de servirem de massa de manobra para o que se tem de mais atrasado e irresponsável no país.

Com quase trinta anos acompanhando as discussões sobre o tema energia, jamais vi um ato de tamanha irresponsabilidade e com conseqüências tão nefastas para o país, que, me desculpem os meus amigos desse blog, a única palavra que encontro para descrever tal comportamento é molecagem.

Trata-se simplesmente de uma molecagem impetrada por uma casa da qual, em função da importância que ela tem para a democracia brasileira, não se pode esperar e, acima de tudo, aceitar.

Eu discordo da proposta de capitalização apresentada pela Petrobras e apoio à criação de uma estatal para coordenar e representar o Estado na exploração do pré-sal. Esta é a minha visão e estou disposto a discuti-la de forma democrática e transparente. Posso estar errado, mas não abro mão de defendê-la. Também tenho claro que não me cabe decidir quais serão os caminhos trilhados pelo pré-sal, mas à sociedade através dos seus legítimos canais de representação. Nesse sentido, a posição do Senado Federal dá um péssimo sinal sobre a forma como se pretende discutir um tema tão vital para o país.

Dessa maneira, discordar das posições da Petrobras não implica apoiar posições irresponsáveis que, de fato, inviabilizam a possibilidade de se construir um espaço de discussão que permita erigir consensos que sustentem a exploração do pré-sal, a partir de uma perspectiva estratégica de desenvolvimento econômico e melhoria do bem-estar da sociedade brasileira.

Por fim, espero que as instituições brasileiras tenham a maturidade necessária para lidar com um evento que pode causar danos irreparáveis ao país, em um momento econômico extremamente grave. Também espero que todos aqueles especialistas em energia que tenham a mínima decência e espírito público se recusem a endossar uma irresponsabilidade de tal monta e a participar de uma chantagem política cujo o alvo não é o governo Lula, não é a Petrobras, mas o país.

Tags: energia

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josé roberto fidalgo Comentário de josé roberto fidalgo em 16 maio 2009 às 12:58
A única maneira de se barrar esse tipo de manobra seria uma ampla mobilização pública.
Dirval Silva Anunciação da Cruz Comentário de Dirval Silva Anunciação da Cruz em 16 maio 2009 às 13:13
Já passou da hora dos movimentos populares assumirem uma agenda de defesa do país. Estamos em guerra contra uma parcela que quer o domínio a qualquer preço, mesmo que seja o de terra arrasada. A mobilização pública contra esses sem-pátria é o único caminho. Não se trata de defender o governo Lula, mas defender o país.
José Carlos dos Santos Comentário de José Carlos dos Santos em 16 maio 2009 às 18:44
Ronaldo, belo texto e com muita força também quem sabe mais pessoas entendam o que se passa por trás dessa CPI, e principalmente comecem a debater o destino que deve ser dado ao Pré-sal que é uma fortuna que se bem empregada nos levará a uma condição de nação mais humana e igualitária.
maria cristina couto Comentário de maria cristina couto em 17 maio 2009 às 1:04
Que cada faça sua parte enviando para os senadores e deputados emails de repudio a esta situaçao, e que se necessario saiamos as ruas em nossos estados em sinal de protesto
Ronaldo Bicalho Comentário de Ronaldo Bicalho em 30 maio 2009 às 16:37
Há uma tendência da mídia de reduzir esse evento a nossa novelinha política e seus tradicionais personagens canastrões, porém, o problema dessa solução é que o programa é outro e inclusive passa em outro horário e em outro canal.

O posicionamento do senador José Sarney é o mais óbvio nesse jogo. Usar o controle do desenvolvimento de uma CPI para conseguir vantagens junto ao planalto é prática corriqueira do PMDB governista. E isto também vale para qualquer votação importante no parlamento. Esta é a parte mais visível do jogo, contudo não é a mais importante a desvendar.

Outra parte óbvia é a tentativa da oposição de criar dificuldades para o governo Lula custe o que custar; já que o maior custo para ela é ficar fora do poder por mais quatro anos. No entanto, até aí morreu o Neves. Não tem novidade.

Na verdade, esses dois movimentos são apenas os mais aparentes e não é aí que está o essencial; não é ai que está o que, de fato, estrutura o movimento.

O que realmente define esse movimento é a disputa pelo pré-sal, que vai além da indicação da direção da nova estatal pelo PMDB e da possibilidade de vitória do PSDB em 2010.

Em primeiro lugar, o que está em jogo é o controle e, acima de tudo, o acesso à renda petrolífera. Nesse sentido, é preciso barrar qualquer mudança do marco legal que aumente esse controle e a participação do Estado nessa renda. Independentemente, da criação da estatal ou do fortalecimento da Petrobras. O importante é restringir o papel do Estado no pré-sal.

Em segundo lugar, é fundamental enfraquecer a Petrobras que, independentemente da criação ou não da estatal, continuará sendo muito forte na exploração do pré-sal. Neste sentido, atingir a empresa no exato momento em que ela se joga na busca de financiamento para viabilizar o início da exploração é fundamental. Enfim, acerta-se o corredor já na largada.

Em terceiro lugar, essa disputa irá desembocar em 2010, portanto, desqualificar a participação do Estado em um contexto mundial no qual esta participação se fortalece é necessário na disputa ideológica/eleitoral. Para isso, acertar a Petrobras, a nossa estatal mais forte, é fundamental nesse jogo com aparência política/ideológica, mas que, na verdade, não passa de disputa econômica pela renda do pré-sal. Enfim, aqui, não se trata de disputa de idéias, mas de grana.

Dessa forma, colocar o foco sobre as armações costumeiras do PMDB ou sobre a perda de rumo do PSDB esconde os atores decisivos desta trama. Na verdade, tanto um quanto outro são fichinhas diante daqueles que realmente bancam o jogo.
Ivanisa Teitelroit Martins Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 5 junho 2009 às 13:49
Ronaldo,
muito bem articulada a sua análise. Poderíamos discutir mais sobre os interesses encobertos das rendas petrolíferas. Não tenho informações, talvez você possa apontar algumas.
Ronaldo Bicalho Comentário de Ronaldo Bicalho em 5 junho 2009 às 15:57
Ivanisa,

Nós do Grupo de Economia da Energia do IE/UFRJ publicamos um livro em 2007 no qual você pode encontrar não só as informações sobre renda petrolífera, mas todas as informações conceituais e teóricas sobre as demais discussões sobre energia. É um livro que permite ao leitor ter uma visão das grande questões energéticas.

Enfim, é o livro que nós usamos como referência nos nossos cursos.

O nome do livro é Economia da Energia: fundamentos econômicos, evolução histórica e organização industrial. Os autores são: Helder queiroz Pinto Junior (organizador); Edmar Fagundes de Almeida; José Vitor Bontempo, Mariana Iootty e Ronaldo Goulart Bicalho. A editora é a Campus/Elsevier.
Rogério do Nascimento Comentário de Rogério do Nascimento em 12 junho 2009 às 17:59
Acredito estar em pauta muito mais do que a questão Petrobras/Lula/Pré-Sal nesta dita CPI (impetrada pela oposição). Está em questão, e claro que todos leitores já perceberam, os interesses eleitoreiros em 2010; cargos naquilo que seria uma estatal para conduzir a prospecção do pré-sal, desmoralização do atual governo (que não acredito ter sido o melhor, no entanto, neste quesito precisamos apoiar), interesses de lob políticos, etc, entre outros tantos do mundo politiqueiro. Ainda, no momento atual de crise mundial, acredito que a falta de acesso a informações previligiadas não é de interesse na camada oposicionista ao governo; pois, sem estas informações como gerir a riqueza própria com aplicações ou retiradas destas nos papéis da Petrobras. Quem perde com todo este atraso? A matriz energética brasileira, que poderá, muito além de ser auto-sustentável, ser referência mundial na produção energética.

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