A CPI da Petrobras e a oposição sem propostas

Meus amigos, na última sexta-feira, o Nassif deu destaque a um comentário que eu fiz sobre o desenrolar da CPI da Petrobras e o postou com o título de O jogo do pré-sal na CPI. Eu resolvi colocar esse texto aqui no blog, juntamente com as minhas respostas a alguns comentários feitos pelos colegas.

O Jogo do pré-sal na CPI

Por Ronaldo Bicalho

Na medida em que os fatos vão se desenrolando em torno da CPI, tendo a relativizar algumas análises que eu mesmo fiz no início desse processo.

É possível fazer uma interpretação de que a CPI é fruto de uma articulação visando enfraquecer a posição do Estado no pré-sal; tanto no que diz respeito a aumentar a participação desse Estado na renda petrolífera quanto no que concerne ao fortalecimento da Petrobras.

Isto eu coloquei no meu blog lá no portal no dia em que a CPI foi criada: A CPI da Petrobras e a irresponsabilidade sem limite.

Contudo, vendo a marcha dos acontecimentos, me pergunto: qual o alcance efetivo desta estratégia?

Até que ponto existe uma ameaça real às empresas estrangeiras no que diz respeito a elas ficarem de fora do pré-sal?

Observando atentamente as posições do Governo Lula ao longo desses anos não é possível bancar esta tese.

As empresas estrangeiras têm e continuarão tendo um papel na exploração do pré-sal. O pragmatismo do Governo Lula aponta para essa solução de compromisso que vai ao encontro do pragmatismo dessas empresas.

Nesse sentido, eu escrevi um post lá no meu blog, falando exatamente sobre o pragmatismo dessas empresas: Pré-sal: as empresas de petróleo e a mudança do marco legal.

Portanto, eu não acredito que a CPI faça parte de uma grande conspiração contra o país. Na verdade, o pré-sal é grande o suficiente para acomodar os diferentes interesses em disputa.

Estamos finalizando um trabalho sobre as perspectivas do setor de energia no Brasil no qual chega-se a conclusão que o Brasil efetivamente é o cara nessa área.

Daí pode-se chegar à conclusão que essa CPI, mais do que tudo, é uma prova das profundas limitações da oposição, tanto daquela que se encontra no parlamento quanto daquela que se encontra nas redações. Ela traduz uma imensa incapacidade de entender o que está acontecendo e o que acontecerá; assim como de formular propostas alternativas. Nesse sentido, encontra-se totalmente incapacitada para o jogo democrático e eleitoral; restando apenas a tática de parar o jogo a qualquer custo, usando todo o tipo de subterfúgio.

Antes de ser uma estratégia sofisticada de disputa pelo pré-sal, a CPI é simplesmente um subterfúgio para interromper um jogo que a oposição hoje não tem condições de jogar.
Por isso, devo reconhecer que as minhas análise iniciais davam à oposição uma estatura que ela realmente não tem; ou seja, ela não tem capacidade de formular qualquer coisa que se assemelhe a uma estratégia que tenha possibilidade de êxito. Seja lá o que isso signifique.

Em suma, a CPI é uma irresponsabilidade, uma chantagem ao país, uma tentativa de esvaziar a Petrobras e o Governo Lula? Ela é, sim.

Porém, ela não nasce de uma grande e articulada ação estratégica, e sim da completa incompetência e falta de poder de fogo real dessa oposição partidária e midiática. Que como diz o Wanderley Guilherme não é capaz de construir alternativas de poder, porém é capaz de criar um monte de confusões que, de fato, em nada ajudam o país. E, no limite, nem ela própria.

Trocando em miúdos, quem não entende nada e não tem proposta faz CPI. Quem entende e tem proposta vai à luta e ganha a sociedade e as eleições.

Comentários:

Edmar C. Lima:

Se os sujeitos (CARA é o LULA) não entendem o que está acontecendo, como poderão formular alternativa válida, compreeensível e aceitável ao modelo LULA/PT?

Bicalho: A oposição tem que ter capacidade de formular propostas alternativas e defendê-las perante a sociedade. O que afastou dela uma parte significativa do eleitorado foi o abandono dessa função pela oposição, em troca de uma postura golpista irresponsável. Se a única proposta que a oposição tem é parar o jogo, é melhor que ela saia do jogo e deixe quem quer jogar. Afinal, nós todos temos mais o que fazer do que ficar vendo essa sucessão de faltas e carrinhos por trás. Quero ver futebol bem jogado, e não um monte de brucutus dando ponta- pés.

Luis Eduardo Brandão:

Mesmo que a oposição, com a incrível inépcia que v. bem ressalta, não esteja nem manobrando conscientemente em prol de outros interesses nem sendo manobrada por eles sem perceber, seu jogo vai de fato nesse sentido. Ou não vai?

Bicalho: O jogo da oposição vai ao encontro de certos interesses; nisso você tem razão. Só que não é necessário criar uma CPI para atender esses interesses. Na verdade, a criação da CPI cria uma instabilidade na própria indústria de petróleo brasileira que, ao fim e ao cabo, acaba prejudicando até mesmo esses interesses.

Na verdade, a oposição vende a esses interesses que os está defendendo. É falso. Não está. Só está tornando a negociação mais difícil para eles. Enfim, a oposição vende algo que não pode entregar.

Sergio Leandro:

Mas ainda estou sem entender como será o papel das estrangeiras na exploração do pré-sal. Serão prestadoras de serviço que não ficarão com o óleo cru? Será que o governo irá conseguir emplacar um modelo semelhante ao Escandinavo? Talvez seja isso que essa oposição esteja tentando evitar (mesmo concordando que a oposição geral não saiba como fazer além da criação de factóides).

Bicalho: A discussão de um novo modelo para o pré-sal vai muito além do que a escolha do regime de partilha e a criação de uma nova agência estatal para administrar as reservas do pré-sal. Na verdade, essa era a grande discussão que nós deveríamos estar tendo, e não essa idiotice da CPI. Discussão tão idiota como aquelas desenvolvidas em torno de um blog que não tem nada de original; ou seja, o fato de uma grande empresa criar um canal direto de comunicação com a sociedade em um momento de crise. O que é extraordinário é a mídia sem sentir ameaçada por esse fato. Enfim, ao invés de discutir o que interessa estamos discutindo os interesses. Que interesses? Os menores.

Francisco La Torre:

Não subestimem os interesses das petroleiras. ..nem o império… que segue atuante…por trás do marketing obâmico

Bicalho: Não subestime os interesses das petroleiras. Correto. Contudo, elas são capazes de defesas muito melhores do que essa bola furada da CPI. Isto seria passar um atestado de burrice para elas. E burras, meu amigo, elas realmente não são.

Jorge França:

Só gostaria de ressaltar algo que acho que vem passando despercebido: a oposição tem propostas, só não pode apresentá-las. Imaginem o estrago se o DEM e o PSDB, nesses tempos bicudos, pregarem livre mercado, privatização, liberalismo e outras coisas que eles sempre defenderam e colocaram em prática quando foram governo.

Bicalho: Se o DEM e o PSDB não têm coragem de defender as propostas que eles acreditam, é melhor pegar o boné e ir para a casa. Quem não tem competência que não se estabeleça. Afinal, qualquer mudança no pré-sal tem que passar pelo Congresso; portanto, não é necessário criar uma CPI para discutir o pré-sal. O espaço já existe. Além do mais, toda a discussão desse tema vai acabar envolvendo para onde vão os recursos. E aí é que o bicho vai realmente pegar. Logo há um imenso espaço para a oposição atuar. Porém, isso é papo de quem quer jogo. Agora para quem não quer jogo porque não sabe jogar, qualquer bola a dez centímetros do chão já vira balãozinho e é difícil dominar. Enfim, jogador ruim não domina bola, só dá butinada e estraga o jogo.

João Maria:

Quer dizer que se os americanos poderão vir aqui, sangrar um pouco do Pré-Sal e fazer estoque (escondendo esse óleo num lugar que nem Deus desconfia onde seja), como fazem a anos, e mentindo para o mundo dizendo que suas reservas só duram uns “4 ou 5″ anos?

A discussão sobre o Pre-Sal deve ser pautado em algumas finalidades:

1) Dar ao Brasil a possibilidade de uns dos passos decisivos na direção da tão sonhada autossuficiencia enérgetica; 2) Financiamento de parte da educação da pré-escola até centros avançados de pesquisa; 3) Financiamento de parte da nossa deficiente infra-estrutura sanitária.


Bicalho: Grosseiramente, do Pré-sal, o que foi licitado até agora corresponde a um terço. Nesse um terço, a Petrobras está em uns noventa por cento. Só isso, já exige uma brutal mobilização de recursos por parte da companhia. Se eu quiser grana para fazer o que você deseja, em termos de desenvolvimento social do país, vou ter que ir além do potencial de recursos da Petrobras. E isto significa colocar as empresas estrangeiras no jogo. Contudo, não se esqueça que este é um jogo que eu controlo.

Esta discussão que você colocou é que seria uma bela discussão, porque diz respeito aquilo que nós queremos fazer com a renda do Petróleo e até que ponto desejamos ir. É perfeitamente defensável a posição daqueles que acham que o pré-sal deveria ser entregue a Petrobras; contudo, acho que é também perfeitamente defensável a posição daqueles que querem uma participação das outras empresas para aumentar a produção e assim a renda disponível para o país.

Enfim, essa é a boa discussão. Aquela que deveríamos estar tendo. A discussão que nos interessa como país.

Athos:

Pelo que andei lendo, existe uma corrente favorável a reestatização da Petrobrás. Em sua opinião, isso seria viável?

Afinal de contas, qual a proposta da oposição para o Pré-Sal?
Não tem proposta para o fato mais relevante da economia brasileira em todos os tempos?


Bicalho: Com relação à reestatização da Petrobras, eu não sei se esta é a melhor proposta neste momento. O meu colega Edmar de Almeida deu uma entrevista ao Nassif na qual ele coloca bem esta questão.

Você encontra esta entrevista na página do Nassif no portal na aba lateral na parte de música. Vá entender a lógica do Nassif.

No fundo Athos, em geral, o Estado tira grana da indústria de petróleo, e não ao contrário. Por isso, a proposta de trocar ações da Petrobras por reservas que pertencem ao Estado não me fascina.

Eu acho que ir por esse caminho é, de certa forma, repetir a miopia da oposição. Ou seja, marcar a bola ao invés do jogador.

O importante agora é mobilizar todos os recursos para que a Petrobras realize o programa de investimento previsto nos próximos anos para o pré-sal. Este é o jogo a ser jogado agora. Colocar a reestatização na mesa tira o foco e nos mete em uma discussão que vai gerar mais confusão do que avanço. Ou seja, não vamos repetir a oposição, não vamos nos perder nessa discussão.

Com relação à proposta da oposição, ela é simples: não muda nada. Eu acho que o problema fundamental dessa proposta é que não dá para não mudar nada. O que eu tenho lido sobre isto é muito razoável, desde que a gente ache que o pré-sal não muda nada. Como não dá para fazer isto, afinal o pré-sal é sim uma outra história, essa proposta é no limite uma não-proposta.

Assim, meu amigo, se você me perguntar se a oposição tem de fato uma proposta para o pré-sal, eu lhe respondo. Não, não tem. Tem uma não-proposta.

Isto é o que eu escrevi lá no meu blog: O pré-sal: uma discussão que veio para ficar.

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Comentário de RatusNatus em 21 julho 2009 às 21:59
A pergunta que não quer calar.
A oposição em algum momento da história já teve propostas para o brasil?

Eu já tinha lido sua entrevista em outro local. Excelente análise sobre o tema, parabéns.

Abraço

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