A crise na Ucrânia: o gás russo versus o shale gas americano

Do Blog Infopetro

Por Marcelo Colomer

A aprovação do referendo que apontou o desejo da maioria dos crimeios (96,8%) pela incorporação da península à Rússia pelo parlamento crimeano desencadeou a reação política dos Estados Unidos e de seus aliados na Europa. Após o referendo do dia 16 de março, a Casa Branca decretou sanções contra altos funcionários do governo Russo e alguns cidadãos ucranianos envolvidos com a separação da Criméia. O vice-primeiro-ministro russo Dmitri Rogozin, a presidente do Conselho da Federação (câmara alta do Parlamento) Valentina Matvienko, o depostos presidente ucraniano Viktor Yanukovich entre outros indivíduos envolvidos tiveram os seus ativos nos EUA congelados e seus direitos de entrada no país suspensos. Na Comunidade Europeia, inúmeras personalidades ucranianas e russas tiveram seus bens bloqueados e seus direitos de trânsito nos países da Comunidade também suspensos. Apesar de aparentemente estar havendo uma reação europeia ao comportamento russo, o tom ameno das ameaças e a demora de posicionamento dos países europeus chama a atenção da importância econômica da Rússia na região, principalmente como importante fornecedora de gás natural.

A atual crise na Ucrânia teve início em 22 de novembro de 2013 quando o então presidente Viktor Yanukovich desistiu de assinar um pacto de livre comércio com a União Europeia. O fracasso do acordo reflete a estratégia do ex-presidente ucraniano em estreitar seus laços com o governo de Moscou que, por sua vez, via na Ucrânia (maior[1] país do continente europeu em extensão territorial) uma importante aliada na estratégia de fortalecimento do poder geopolítico russo na região, diminuído desde o fim da União Soviética. É importante ressaltar que, desde o século XVIII, o Mar Negro é a principal base de operação da marinha Russa (Soviética entre 1918 e 1991) com destaque para as cidades de Sevastopol, Balaklava, Chernomorsk, Mekenzerye e Gvardeyskoye, todas localizadas na península da Criméia.

Além da importância militar da região, a Ucrânia destaca-se como uma das principais “portas” de entrada do gás natural russo no continente europeu. Até 2011, cerca de 80% das exportações russas de gás natural para a Europa transitavam pela Ucrânia (EIA, 2014). A partir do início das operações do sistema de gasodutos North-Stream em 8 de novembro de 2011 (que liga a Rússia diretamente a Alemanha pelo Mar Báltico) a importância da Ucrânia nas exportações para a Europa se reduziu embora ainda mantenha-se bastante expressiva. Em 2013, por exemplo, 54% das exportações russas para Europa (85 Bmc) transitaram pela Ucrânia, o que foi equivalente a 16% de todo do gás consumido no continente europeu (EIA, 2014).

Dentro desse contexto, a atual crise envolvendo Rússia e Ucrânia traz não somente apreensão em torno de possíveis conflitos armados no leste europeu como também aumenta as preocupações de uma possível disrupção de parte do fornecimento de gás natural para a Europa[2]. O temor europeu se justifica pelo histórico de retaliações do presidente Putin. Em sua campanha para restaurar o domínio russo sobre os Estados pós-soviéticos, o presidente russo tem frequentemente usado seus vastos suprimentos de gás natural como “arma estratégica”.

Em 2005, uma disputa entre a companhia ucraniana de óleo e gás Naftohaz e a empresa russa Gazprom em relação ao preço do gás natural russo e às tarifas de movimentação ucranianas levou, em 1º de janeiro de 2006, ao corte de todo o fornecimento de gás natural que passava pelo território ucraniano. Em 4 de janeiro do mesmo ano, um acordo entre Rússia e Ucrânia permitiu o restabelecimento do fornecimento para a Europa embora as tensões entre os dois países tenham se mantido até o presente momento com frequentes casos de interrupção no fornecimento (março de 2008, janeiro de 2009). Além dos casos envolvendo a Ucrânia em 2006 e 2009, a Gazprom, em 2010, reduziu a oferta para a Bielorrússia, e, em 2013, a Rússia ameaçou os moldavos com a mesma punição caso estes não abandonassem os seus planos de assinar um acordo de livre comércio com a União Europeia. O uso geopolítico do gás pela Rússia na Europa tem se refletido claramente em grandes flutuações nos preços do gás natural como podemos ver no gráfico abaixo.  (...) Continua no Blog Infopetro

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