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Era hora da minha caminhada diária ao entardecer. Eu vinha subindo a Rua Venâncio Aires, quase na esquina com a Floriano Peixoto, quando repentinamente uma menina de uns quatro anos no máximo, atravessou a rua correndo. O que me chamou a atenção foi o fato de que ela trazia estampado no rosto um largo e inocente sorriso, parecendo carregar por dentro uma alegria tão grande que mal cabia em seu corpinho franzino. 

 

Curioso, diminui o passo e fingi estar olhando uma vitrine para tentar entender o que estava acontecendo. Percebi então, que ao atravessar perigosamente a rua, a menina corria na direção de uma mulher sofrida e maltrapilha que estava do outro lado, sentada no degrau de uma casa junto a algumas sacolas que certamente continham todos os seus pertences. Ao chegar perto daquela que deveria ser sua mãe, a garota falou alegremente: “o homem disse que nós podemos comer depois da uma hora da madrugada”. Ficou evidente que a menina havia ido até o restaurante que existe do outro lado e pedido algum alimento, tendo recebido a resposta de que elas poderiam no final da noite, buscar as eventuais sobras de comida que não tivessem sido consumidas pelos fregueses habituais.

 

A mãe com um ar cansado e envergonhado pegou a filha pela mão e de cabeça baixa, saiu caminhando vagarosamente como se carregasse sobre as costas todas as mazelas do mundo. A menina, ao contrário, sem ter ainda a noção exata de tais desditas, a acompanhava, levando no semblante aquela felicidade de quem já estava tentando adivinhar qual seria o menu que lhe apresentariam no jantar. 

 

A cena me marcou profundamente. Eu fiquei imaginando aquela criança em sua inocência, sentindo-se como se fosse dona do mundo e acreditando que a cidade é o seu castelo. Um daqueles castelos tão grandes que ela chega a cansar de andar por dentro dele sem nunca conseguir conhecer todos os seus aposentos. Ah, e aquele e outros tantos homens para os quais ela pede comida, são os seus cozinheiros e mordomos sempre prontos a atenderem todos os seus mínimos desejos, enquanto que os vários restaurantes são as suas cozinhas particulares. Seu quarto de dormir é tão vasto que ela não possui uma cama convencional. Na verdade, ela dorme em qualquer local onde possa estender algum dos cobertores surrados que a mãe carrega em uma das suas sacolas. Ela se sente uma privilegiada de adormecer olhando as estrelas e sonhando com os locais que irá percorrer no dia seguinte, pois, como dona do mundo que é, precisa conhecer todos os seus domínios.

 

Que pena menina. Infelizmente vais crescer e um dia, como que acordando de um sonho bom, irás te deparar com as misérias e maldades do mundo. Terás uma grande desilusão ao perceberes que os seres humanos não são os anjos de bondade que tu achavas que eram. Que na verdade, eles criaram um mundo em que alguns poucos são privilegiados e a grande maioria, vive para manter os privilégios destes poucos. E que existe ainda, uma derradeira classe de pessoas que nada têm, que sequer possuem um lugar para dormir ou um prato de comida para comer, precisando se humilhar e esperar pela benevolência de alguém para continuarem sobrevivendo. E que dentre estas pessoas tu estás incluída.

 

Irás perceber então que não eras a dona do mundo mas sim, uma espécie de pária da sociedade, destas que ficam enfeando a cidade e causando receio nas pessoas que passam rapidamente sem sequer lhe pousar os olhos, ainda que por alguns segundos.

 

De qualquer maneira, enquanto não despertares, segue sonhando menina. Aproveita estes tempos de inocência para andares alegre pelos corredores da tua mansão, sempre perguntando aos teus fiéis mordomos qual o horário em que eles irão te servir o jantar.

 

Só uma coisa te peço menina. Quando acordares do sonho e te deparares com tua triste realidade, por favor, não te desesperes. Não sucumbas como fazem tantas outras pessoas em tua situação. Se afinal, não és a dona do mundo, conquistes ao menos uma parte dele e se estiveres insatisfeita com a cara com que ele se lhe apresenta agora, reconstrua-o de acordo com os teus desígnios. Não percas a esperança jamais e tentes concretizar no futuro, os sonhos que hoje tu carregas no brilho destes teus olhos inocentes. Um brilho tão intenso que deixou uma marca indelével em minha alma, servindo ainda hoje como uma espécie de estrela-guia a me conduzir na minha eterna caminhada em busca da tão almejada solidariedade entre os seres humanos.

 

Jorge André Irion Jobim. Advogado de Santa Maria, RS

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Comentário de Marco Antônio Nogueira em 11 maio 2011 às 18:57

 

JORGE ANDRÉ,

Que MARAVILHA de

CRÔNICA, colega!

Confesso que é uma

das mais belas que já vi.

 

Continue a nos brindar

com mais escritos seus.

Certamente irão enriquecer,

e muito, nosso espaço.

 

Abração,

 

Marco Nogueira

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