Carlos Didier, um dos biógrafos de Noel Rosa, ao lado da escrivaninha que pertenceu ao Poeta da Vila.


Transcrevo, com algumas adaptações e suprimindo alguns parágrafos, o texto de Carlos Didier publicado no Jornal da Tarde, Caderno de Sábado, 03/05/1997, cujo título preservo na íntegra.

 

Noel Rosa, compositor popular carioca, faleceu há sete décadas, em 4 de maio de 1937, aos vinte seis anos de idade. Boêmio, rascunhou versos em mesas de botequins, cabarés e onde pintasse a inspiração. Inúmeras são as testemunhas. O que poucos presenciaram foram suas horas de concentração e recolhimento, quando burilava jatos anotados de madrugada até chegarem a forma definitiva. Isso acontecia no silêncio de sua casa, em Vila Isabel, debruçado sobre a escrivaninha, na sala de jantar, bem ao lado do quarto onde nasceu e morreu.

A ideia de um poeta, que tudo compôs de improviso serve melhor ao mito que à verdade. Apesar de brilhante repentista, o superior de suas obras foi fruto de intensa reflexão. Ouvia opiniões. Entre as quais a de sua mãe, D. Marta, professora. Muito foi para o lixo. Só assim se explica o nível maior de sua arte.

A última foto, publicada em “A Noite”, surpeendeu-o de pijama, o violão no colo e o olhar fixo no chão. Ao fundo, a escrivaninha. Dentro, pastas, envelopes, livros, desenhos, fotografias, originais de letras, um dicionário de rimas e uma luminária de metal com cabo flexível. Ali estão “Meus pensamentos”, as operetas e as “Conversas de esquina” escritas para o rádio.

As peças principais são o caderno com todas as suas canções em ordem alfabética e a coleção recortes batizada como “Este Álbum”. Uma revela o esforço em preservar a obra; outra, a preocupação com a história do artista. Raras, ambas, em compositores da época. Noel preparava-se para a morte. 


 


Oito meses antes, em 9 de setembro, Noel Rosa montou “Este Álbum”. Numerou com lápis vermelho, as duzentas páginas e dedicou cada seção a um ano. São artigos de imprensa, programas, catálogos e anúncios. Logo de início o “Jornal de Modinhas”, de novembro de 1939, traz “Cumprindo a promessa”. À caneta, Noel corrigiu um verso e completou: “Feito em 1925”. Esta é a música que desejava reconhecida como a primeira, composta com quatorze ou quinze anos. Antes dos recortes, a observação: “1929 – 1937”. De próprio punho começava a construir sua posteridade.

Quando ausente, a escrivaninha permanecia fechada. Acompahava-o desde os tempos de estudante. É um móvel pequeno, com 109 cm de altura, 70 de largura e 34 na maior profundidade. Fora a tampa, o mais funcionava como arquivo, quase um depósito, inclusive a gaveta. Em sua desordem se entendia. Quem entrasse na sala de jantar, vindo da rua, o veria de costas, junto ao ângulo da parede, sentado defronte dela.

Um dia, Lindaura, sua esposa, abriu-a e deu com um retrato, em tamanho grande, de Julinha, um dos muitos amores do poeta. Tornou a fechar, com raiva. Outra vez a procura de dinheiro, foi flagrada pelo marido. Aquela escrivaninha era um lugar somente seu.

Parte do material guardado em seus escaninhos e gaveta sumiu no dia da sua morte. Nestor Moreira, repórter de “A Noite”, recolheu fotos e desenhos para ilustrar o artigo de 11 de maio: “O triste fim de um samba bonito”. O principal permaneceu.

Antes do fim do ano. Dona Marta decidiu dar destino ao conteúdo da escrivaninha. Mulher de personalidade forte, sem consultar a viúva, entregou tudo ao zelo de Marília Batista, compositora, intérprete e amiga de Noel. Esta, por trabalhar sob a direção do maestro húngaro Arnold Gluckmann, na Rádio Clube do Brasil, ofereceu-lhe os originais de “A noiva do Condutor”, uma opereta. Desta forma, Noel ganhou um parceiro europeu. Quando Almirante constituiu seu arquivo, Henrique Batista, irmão da cantora, cedeu-lhe o material. Marília guardou consigo, apenas, o dicionário de rimas.

Do caderno de letras restou uma cópia manuscrita. Almirante emprestou o original a um músico sem nunca receber de volta. Fim semelhante era imaginado para “Este Álbum”, a coleção de recortes: desaparecera. Contudo, no início dos anos sessenta, uma mulher bateu à porta de Hélio Rosa, irmão de Noel, em Niterói. Vinha devolver o álbum que o próprio Hélio emprestara. Ele não se recordava nem do empréstimo nem da mulher. O documento retornava à família.

Os últimos pertences de Noel conservados por Dona Marta foram o violão e a escrivaninha. Um ano antes de falecer, chamou Lindaura e entregou o instrumento. Dias depois, ele dissolvia-se nas mãos da viúva: cupim. Melhor destino teve o móvel. Eduardo Nelson, sobrinho de Dona Marta, mandou restaurá-lo respeitando os detalhes de época.

Aquela escrivaninha, quase centenária, encontra-se melhor do que era confidente e espectadora de Noel Rosa.

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Comentário de Gilberto Cruvinel em 7 janeiro 2011 às 10:01

Oi Laura,

 

Incrível este artigo.Obrigado pelo seu trabalho de transcrevê-lo. Um depoimento precioso sobre os documentos originais de Noel. Dá uma enorme tristeza a gente ver como os parentes raramente entendem a importância de preservar os documentos e objetos do artista. Ainda que neste caso, a mãe teve o bom senso de entregar boa parte à cantora Marilia Batista que tinha noção do valor que aqueles papéis tinham como documentos históricos. Mas mesmo assim, muita coisa se perdeu.

Post genial Laura.

Beijos

Gilberto

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