(Do blog de João Luiz Sampaio)

Gordinhos também amam?

Aconteceu de novo. Quatro anos depois da soprano Deborah Voigt ser demitida de uma produção de Ariadne auf Naxos por estar, segundo o diretor, “gorda demais” para o papel, agora foi a vez da soprano Daniella Dessì abandonar uma versão de “La Traviata” dirigida por Franco Zeffirelli em Roma por conta de comentários feitos pelo diretor.
Faltou, no mínimo, um pouco de tato. Durante uma coletiva de imprensa, Zeffirelli soltou a seguinte pérola: “Ela não tem nada a ver com minha imagem de Violeta que, certamente, não era assim tão corpulenta”. E não parou por aí. “Ela é velha demais para convencer o público em uma trama que fala de paixão da juventude”. Dessì está com 52 anos.

Após ouvir os comentário do diretor e cineasta italiano, a soprano pediu demissão. E foi à imprensa, se dizendo humilhada publicamente. E, por falar em falta de tato, emendou: “Não entendo porque o meu peso é um problema quando há tantos cantores de ópera de largas proporções”.

“Atualmente, diretores cênicos de ópera tem poder demais. Eu até poderia aceitar sua visão se ele a anunciasse antes dos contratos serem assinados e os ensaios começarem”, completou Dessì. Seu marido, o tenor Fabio Armiliato, que cantaria o papel de Alfredo, também retirou-se da produção.

Vocês acham certo que um cantor seja banido de uma produção por estar acima do peso? Ou é a voz que deve prevalecer na hora de se contratar um artista? Mais do que isso: por um acaso gordinhos também não se apaixonam - ou podem interpretar a paixão no palco?

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Comentário de Oscar Peixoto em 13 janeiro 2010 às 16:51
Pois é, NaT, esse tem sido um dos estigmas da ópera através dos tempos. E, convenhamos, se o físico fosse tão importante assim, Pavarotti não teria tido espaço nos grandes palcos depois dos 40 anos, nem Montserrat Caballé teria sido a diva admirada que foi. O problema está no fato de que a ópera é também um espetáculo teatral. Há papéis a serem representados, personagens bem definidos dentro do contexto da história. E aí a questão do physique de rôle, o tipo físico descrito pelo autor da história, passa a ter grande importância na representação da peça. É quando a coisa de complica: como colocar um tenor obeso, com dificuldades de locomoção no palco, representando um Romeu adolescente, ágil espadachim? Ou entregar o papel de Violetta Valéry (Traviata), frágil e tuberculosa, a uma cantora bem-nutrida, transudando saúde por todos os poros? Justamente por, historicamente, ter-se privilegiado a voz em detrimento do físico, foi que a ópera, durante muito tempo, foi objeto de galhofa e quase sempre era caricaturada como arte de cantores enormes, rotundos, balofos. Há casos excepcionais, como os que citei (Pavarotti e Caballé), cujas vozes transcendiam qualquer padrão estético-físico, a ponto do espectador nem reparar na imobilidade do artista.
Hoje, há uma nova visão da postura do artista lírico no palco. Não satisfaz mais a arte estática, voltada para o público, em que se canta uma ária como se estivéssemos num recital. Veja, por exemplo, cantores como Jonas Kaufmann ou Natalie Dessay – só para citar dois da nova geração – cuja atuação artística vai além do preparo vocal, exibindo extraordinário preparo físico na sua movimentação no palco.
Outro problema da ópera é que os cantores estariam destinados a cantar sempre os mesmo papéis (daí se especializarem em determinadas óperas). Até onde sei, não há – como no teatro e no cinema – novas obras escritas para personagens maduros, de forma que se possibilite que um veterano cinquentão possa continuar cantando, sem passar pelo constrangimento de ter que representar um adolescente. O cantor que envelhece fisicamente, ainda assim, pode continuar se apresentando. Segue o caminho do recital e do concerto, em que cantará o que quiser (e puder), preocupando-se apenas com sua interpretação, a expressão facial e vocal.
De qualquer forma, esse é um tema que suscita muita discussão. Aguardemos.
Abraços
Comentário de Cafu em 13 janeiro 2010 às 17:00


Quem trocaria essas duas por magrelas? Loucos ou surdos, quem sabe...
Beijos.
Comentário de Oscar Peixoto em 13 janeiro 2010 às 17:02
Em tempo: para mim, a Daniella Dessì cantaria o que quisesse no meu palco iluminado :-)
Comentário de Oscar Peixoto em 13 janeiro 2010 às 17:27
Cafu, eu é que não trocaria. Afinal, minha geração foi criada e educada para apreciar coisas macias, fofinhas, cheinhas e gostosas. Se forem melodiosas, melhor ainda. Posto que as vedetes do Henrique, não!
Beijão
Comentário de Cafu em 13 janeiro 2010 às 19:33
Óscar,

Entendo o seu argumento em relação à tendência atual de valorizar a dramaturgia na mesma medida que a música. Afinal, a ópera é canto e é teatro e, portanto, faz todo o sentido que ambos os aspectos sejam contemplados com igual importância em cena.

Isso é uma coisa. Outra coisa foi a grosseria do Zefirelli . Se ele pensa assim em relação à personagem da Violeta, que defendesse sua posição antes de assinar o contrato com a Daniella Dessi, e não que a ofendesse e a humilhasse publicamente por ela ser quem é (ter 52 anos, estar fora de forma etc). Note que as críticas foram à pessoa (velha e gorda) e não à artista (nada falou sobre sua voz, sua técnica ou seu jeito de representar). Ele foi insensível e mal educado. Não gostei.

Muitas profissões possuem este limite temporal: atletas, jogadores de futebol, bailarinos. Isso faz parte do ofício. Cabe a cada um se adaptar às circunstâncias e prosseguir dentro do possível. Se não dá pra jogar por falta de fôlego e vigor físico, que se torne um treinador ou comentarista. Se não dá pra representar um mocinho ou mocinha em cena, que o faça em recitais. Se não dá mais pra dançar, que se transforme em um diretor, assistente ou coreógrafo.

Mas a verdade é que as oportunidades diminuem drasticamente para os atletas e artistas maduros ou velhos. Infelizmente, a nossa sociedade supervaloriza a juventude e só considera beleza, a beleza do jovem. No cinema, teatro e televisão, os papéis principais sempre são para os jovens e bonitos. É uma pena. Fica muita gente ótima e experiente encostada ou rendendo muito aquém de seus talentos e capacidades.

Como dizia o Mario Quintana (e eu assino embaixo): nem todos estão na flor da idade, mas cada um está na flor da sua idade. Cada dia que passa, mais gosto disso. :)))

Beijos.
Comentário de Oscar Peixoto em 14 janeiro 2010 às 0:08
Cafu, a grossura do Franco foi inominável. Típico de um velho mal-humorado e mal-amado.
Não sei como o Amiliato não lhe deu uns piparotes.
Beijão
Comentário de Cafu em 14 janeiro 2010 às 11:27
Papirotes e catiripapos nas orêias. KKKKKK.
Comentário de Oscar Peixoto em 14 janeiro 2010 às 11:53
NaT, não entendi o porquê da sua piedade. O Malcolm McDowell é um desses atores que começaram jovens e, à medida que iam envelhecendo, continuavam trabalhando intensamente. A rigor, depois de A Laranja Mecânica (1971), na qual representa aquele bandido doidão, embora tenha participado de um monte de filmes, só me lembro de dois que merecem destaque: o péssimo Calígula (1979) e o ótimo A Marca da Pantera (1982), devido à belíssima Nastassya Kinski. De lá pra cá ele só faz papel secundário - o que, aliás, se justifica, pois nunca foi um grande ator. Mas não lhe falta trabalho.
Quanto à questão, Cafu, de redução drástica de oportunidades para artistas maduros ou velhos no cinema, no teatro e na televisão, observo que isso não tem sido bem assim. Artistas como Fernanda Montenegro, Sergio Brito, Ítalo Rossi, Henriette Morineau, Ida Gomes, Alda Garrido, Eva Todor, Bibi Ferreira, Dulcina de Moraes, e inúmeros outros, continuaram ou continuam trabalhando em papéis de destaque, mesmo depois de velhos. Isso porque sempre existem peças, novelas ou filmes destinados aos mais idosos. No cinema, então...
Já na ópera isso não ocorre.
Comentário de Cafu em 15 janeiro 2010 às 9:38
Òscar,
Quem não gostaria de produzir, dirigir ou escrever para Fernanda Montenegro, Sérgio Brito, Bibi Ferreira e outros monstros sagrados do teatro, cinema ou televisão? Eles dão prestígio e atraem público na certa. Mas será que essa é a realidade da maioria, ou mesmo da média, da categoria?
Beijos de aniversário.
:)
Comentário de Henrique Marques Porto em 15 janeiro 2010 às 21:44
Oscar, Cafu e NaT,
Há um caso curioso a respeito. Lina Pagliughi foi um soprano coloratura que fez bela carreira internacional, nos palcos e nos estúdios de gravação. Era muito apreciada pelo público. Mas sofria com o preconceito contra as gordinhas ainda no tempo em que as formas, digamos, mais arredondadas eram apreciadas, e até galã de Hollywood podia ter uma loja de pneus na cintura que ninguém ligava muito. Mas Lina não era apenas gordinha, era gordona mesmo. Era baixinha e pesava mais de 100 quilos!
Pois, nos anos 40, Lina Pagliughi veio ao Rio para uma de nossas temporadas internacionais. Sua estréia foi na Lucia de Larmermour, no papel título da jovem heroína que fica louca depois de forçada a renunciar ao seu verdadeiro amor para casar com outro. Mata o cara na noite de núpcias e vai cantar de camisola ensanguentada e punhal na mão a bela Cena da Loucura, repleta de floreios, trinados e superagudos. Roliça, parecendo uma bolinha dentro de vestido comprido, Lina estava a léguas de distância do fisique du rôle. Na coxia, minutos antes de entrar em cena, ela comentou:
"-Eu sei que quando pisar o palco o público vai rir de mim. Mas, também sei que quando acabar de cantar ele vai aplaudir."

Lina Pagliughi

Foi Maria Callas quem estabeleceu um novo padrão. Maria chegou a pesar 120 quilos no início da carreira! Grande, gorda, com uma voz que surpreendia e soava estranha até a ouvidos bem treinados, suspeitou que poderia não ir muito longe. O resultado todos conhecemos.

Maria Callas. Norma, no início da carreira.

De fato, todas as grandes cantoras atuais cuidam também do físico e são esbeltas e bonitas. Ana Netrebko, Angela Georghuiu, Elina Garanca, Reneé Fleming etc. As exceções são poucas.
Uma voz excepcional pode até descuidar-se da aparência física, mas terá que conviver com as limitações que esta condição irá impôr à sua carreira. Dou dois exemplos. Pavarotti jamais pode cantar Romeu e acho que nem o Wherther nos palcos. Jessie Norman nunca pode viver Carmem, a não ser em gravações e concertos. Já Paulo Fortes cantava o toureiro Escamilo com aquela pança de Falstaff e não estava nem aí. Sempre fazia muito sucesso.
Zeffirelli foi preconceituoso e grosseiro, sem dúvida. Mas a resposta de Daniela Dessi denunciando a "ditadura" dos diretores de cena merece uma reflexão. É a primeira cantora de primeiro time que se insurge contra o mandonismo dos metér-en-scenne.
abraços
Henrique Marques Porto

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