La Bohème (Giacomo Puccini - 1858-1924)

Muitos pensam no título da ópera como sendo referência a alguma garota de vida airada, mas não é bem assim. Na realidade, a que os autores da obra queriam se referir (Puccini a música, Giacosa e Illica o libreto) era à vida boêmia francesa, principalmente a que acontecia no Quartier Latin parisiense, no século XIX, onde era proverbial a convivência de risos e lágrimas. Essa confusão ocorre no português brasileiro, porque o substantivo tanto é pronunciado “boemia” (forma popular), como “boêmia” (forma erudita). E a confusão aumenta porque o adjetivo “boêmio” (aquele que vive na boêmia, ou na boemia, como queiram), tem como forma feminina “boêmia”. Mas o nó se desfaz quando se sabe que a ópera foi baseada no livro de Henri Murger “Cenas da Vida Boêmia”.

Na ópera de Puccini convivem duas mulheres que, embora amigas, possuem personalidades completamente diferentes. Mimi, a heroína da história, é frágil, meiga, carente, romântica, dependente, e doente (morre tuberculosa no final, tadinha). Musetta, forte, leonina, sensual, independente, amoral, dominadora, e super-saudável. Enfim, enquanto Mimi desperta o amor romântico, delicado, lírico, aquele em que não se bate nem com uma flor, Musetta é o amor ardente, passional, arrebatado, mulher que deixaria louco de paixão qualquer homem nos nossos dias. Bem, como diria Nelson Rodrigues, só os normais.

Puccini dedica à Musetta uma das árias mais lindas do repertório operístico, popularmente conhecida como “Valsa de Musetta”. Nela, em meio à orgia de um café parisiense, Musetta, nessa altura teúda e manteúda por um velho milionário, provoca sedutoramente seu antigo amante Marcelo, por quem ainda nutria paixão avassaladora, despertando-lhe furiosa crise de ciúmes.

Valsa de Musetta

Quando me´n vo --- (Quando me vou )
Quando me´n vo soletta per la via, --- (Quando me vou sozinha pela rua)
La gente sosta e mira, --- (Todos param e olham)
E la bellezza mia tutta ricerca in me, --- (E olham toda minha beleza)
Da capo a piè. --- (Da cabeça aos pés)
Ed assaporo allor la bramosia --- (E então desfruto o desejo)
Sotttil che dagl’occhi traspira --- (Que transpira dos seus olhos)
E dai palesi vezzi intender sa --- (E podem ver belezas ocultas)
Alle occulte beltà. --- (Por trás dos encantos que aparecem)
Così l’effluvio del desio --- (E assim o suspiro do desejo)
Tutta maggira – --- (Rodopia ao meu redor)
felice mi fa, felice mi fa --- (E me faz feliz!)
E tu che... --- (E tu que...)
...sai, che memori e ti struggi, --- (...sabes, que recordas e resistes)
Da me tanto rifuggi? --- (Tu tanto foges de mim)
So ben: le angoscie tue --- (Sei bem que tuas angústias)
Non le vuoi dir, ... --- (Não queres contar,...)
...so ben, ma ti senti morir! --- (Eu sei, e no entanto te sentes pronto para morrer!)


Para apresentar essa ária, escolhi dois magníficos exemplares do bel canto: Anna Netrebko e Dame Kiri Te Kanawa. A bela neo-zelandesa (da tribo Maori), agraciada com o título de “Dame” pela coroa britânica (equivalente a “Sir” para os homens), embora já aposentada, ainda me emociona pela nobreza e elegância, será minha diva para sempre. Mas confesso que Anna Netrebko, além de tudo, mexe com os hormônios que me restam. Ela não interpreta Musetta. Ela é Musetta. Bem, apreciem sem moderação.


Anna Netrebko



Kiri Te Kanawa

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Comentário de Helô em 2 novembro 2008 às 18:23
Hummmm... então a Netrebko é sua musa não propriamente pela voz, não é? :))
Ambas interpretações são belíssimas. A Kiri, que também me foi apresentada por você, me parece com a voz mais amadurecida. Talvez tenha a ver com o tempo de estudo e a experiência. Netrebko, também com bela voz, tem ainda a sorte de ser encantadora, sedutora, agradando a homens e mulheres.
Recentemente conversamos sobre Karl Jenkins. Hoje encontrei um vídeo da Kiri se apresentando com ele.
Pra você. Beijinho.

Comentário de Oscar Peixoto em 3 novembro 2008 às 11:40
João, concordo com você que a Kiri foi mais cantora. Pelo menos, até agora, a Anna ainda está "começando", embora já faça parte do primeiro time lírico internacional há algum tempo. Vamos ver como se comporta quando voltar aos palcos sendo mamãe, tendo que dar de mamar ao rebento, mudar fraldas, etc. Quanto à gente não brigar por causa de mulher, sinto-me aliviado, com certeza eu apanharia sempre :-)
Comentário de Oscar Peixoto em 3 novembro 2008 às 11:51
Helô, devo ter sido mal interpretado. Eu disse que a Kiri é que seria minha diva (não falei em musa) para sempre. Musa, só tenho uma, mas é segredo guardado a sete chaves. A Anna nem passa perto (muita pretensão, né?). Mas ainda acho que a Netrebko, por não ter a mesma postura de "lady" que a Te, por ser mais provocante, mais sensualmente desinibida, me parece mais Musetta do que minha eterna diva.

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