A grande imprensa brasileira saudou efusivamente a afirmação de Fidel Castro, de que o modelo econômico cubano não funcionaria (mais tarde relativizada por ele, sob a alegação de não era exatamente isto que queria dizer).


O troféu PIG coube a Suely Caldas que, em O Estado de S. Paulo, deitou falação sobre o que está muito além dos seus conhecimentos:

"A esperança de um mundo igual e justo, lançada por Karl Marx e Friedrich Engels no século 19, não logrou sucesso em nenhuma das experiências socialistas vividas ao longo do século 20. Entre outras razões de ordem
econômica, também porque nunca conseguiram se sustentar sem a imposição de uma ditadura a subjugar uma população que ansiava por liberdade".

Até quando será invocado o santo nome de Marx em vão?


Ele jamais pregou a construção do socialismo em países isolados e atrasados.


Acreditava que, como consequência de suas próprias contradições (principalmente a apropriação individual do produto do trabalho coletivo), o capitalismo passaria a frear o desenvolvimento das forças produtivas, ao invés de o alavancar.


Então, em sua marcha para o progresso, a humanidade seria obrigada a evoluir para uma forma de organização econômica, política e social que libertasse as forças produtivas do jugo do lucro.


Ou seja, em termos simplificados, o contínuo crescimento da produção era limitado pelo fato de que os produtores, ao serem espoliados de uma parcela do resultado do seu labor, não tinham meios para adquirir tantos produtos quanto geravam.


Então, essa produção que excedia o poder aquisitivo dos consumidores era destruída (queimas de café para evitar a queda do preço no mercado, p.ex.) ou, por mecanismos mais sutis, remanejada: a economia se voltava para atividades parasitárias ou para a indústria de guerra.


Ou seja, o peso descomunal que o setor financeiro adquiriu no capitalismo do século 20 foi uma forma de manter pessoas trabalhando para nada produzirem de útil, necessário ou válido. É a condenação mais gritante
de um sistema putrefato, que mantém os homens a labutarem em vão, quando poderiam estar trabalhando muito menos e vivendo muito melhor, livres do tacão da necessidade e do estresse da competição encarniçada.


As duas guerras mundiais e os muitos conflitos localizados, idem. Em vez de se direcionar o esforço dos seres humanos para melhorar a existência dos seres humanos, passou-se a empregá-lo no seu extermínio.


Como alternativa, as grandes recessões periódicas que assolam o capitalismo até hoje.


Antes, a superprodução desembocava automaticamente na crise.


Depois, para permitir que os consumidores adquirissem aquilo que não podiam pagar, criaram-se mecanismos de crédito que resolvem o problema imediato, mas, como bola de neve, acabam gerando dívidas impagáveis à
frente.


Até que essa economia artificial, fictícia, estoura como bolha de sabão.


Exatamente como Marx dizia, a contradição insolúvel do capitalismo engendrará crises cíclicas até que ele seja superado pela racionalidade econômica.


Elas podem não ocorrer mais a cada dez anos, mas continuam tão inevitáveis quanto antes.


Face a tal mostrengo, como ousa e jornalista empertigada criticar o socialismo real? Quem tem algo a dizer sobre ele somos nós, não ela.


REVOLUÇÃO MUNDIAL x SOCIALISMO NUM SÓ PAÍS


No princípio, os profetas apregoavam uma maré revolucionária que uniria e imantaria os proletários de todos os países, varrendo o planeta. É o que lemos no mais inspirado panfleto político que a humanidade já produziu, o Manifesto do Partido Comunista de 1848.


Levando em conta não só que os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato, como também que a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo proletários de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação, os papas do marxismo profetizaram que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e se estendendo a todas as outras.


O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois que a heróica Comuna de Paris foi esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias
francesas com o invasor alemão. Se as nações capitalistas conjugariam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.


Outra, de consequências trágicas: a tese de que, como era desigual o ritmo com que as nações amadureciam para a experiência socialista, poderia se recorrer a uma ditadura momentânea do proletariado (já que a Comuna de Paris parecera ter sido derrotada por excesso de brandura) naquelas que se libertassem primeiramente, para resistirem ao capitalismo agonizante até que a revolução vencesse no mundo inteiro.


No entanto, a ditadura do proletariado deveria se tornar cada vez menos ditadura, tendo a função de preparar as condições para seu desaparecimento, por obsolescência.


Em 1917, surgiu a primeira oportunidade de tomada de poder pelos revolucionários desde a Comuna de Paris. E os bolcheviques discutiram apaixonadamente se seria válida uma revolução em país tão atrasado como a Rússia – uma verdadeira heresia à luz dos ensinamentos marxistas.


Para Marx, o socialismo viria distribuir de forma equânime as riquezas geradas sob o capitalismo, de forma que beneficiassem o conjunto da população e não apenas uma minoria privilegiada. Então, ele sempre augurara que a revolução mundial começaria nos países capitalistas mais avançados, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.


Um governo revolucionário na Rússia seria obrigado a cumprir tarefas características da fase da acumulação primitiva do capital, como a criação de infra-estrutura básica e a industrialização do país. O justificado temor de alguns dirigentes bolcheviques era de que, assumindo tais encargos, a revolução acabasse se desvirtuando
irremediavelmente.


Prevaleceu, entretanto, a posição de que a revolução russa seria o estopim da revolução mundial, começando pela tomada de poder na Alemanha. Então, alavancada e apoiada pelos países socialistas mais prósperos, a
construção do socialismo na Rússia se tornaria viável.


Os bolcheviques venceram, mas seus congêneres alemães foram derrotados em 1918. A maré revolucionária acabou sendo contida e, como se previa, várias nações capitalistas se coligaram para combater pelas armas o
nascente governo revolucionário. Mesmo assim, o gênio militar de Trotsky acabou garantindo, apesar da enorme disparidade de forças, a sobrevivência da URSS.


Quando ficou evidente que a revolução mundial não ocorreria tão cedo, a União Soviética tratou de sair sozinha da armadilha em que se colocara. Devastada e isolada, precisou criar uma economia moderna a partir do
nada.


Nenhum ardor revolucionário seria capaz de levar as massas a empreenderem esforços titânicos e a suportarem privações dia após dia, indefinidamente. Só mesmo a força bruta garantiria essa mobilização permanente, sobre-humana, de energias para o desenvolvimento econômico. A tirania stalinista cumpriu esse papel.


A revolução nunca mais voltou aos trilhos marxistas. Como único país dito socialista, a URSS passou a projetar mundialmente seu modelo despótico, que encontrou viva rejeição nas nações avançadas. Nestas, as únicas
adesões não se deveram à atuação política dos trabalhadores, mas sim às baionetas do Exército Vermelho, quando da vitória sobre o nazismo.


Tomada autêntica de poder houve em outros países pobres e atrasados, como a China, Cuba, Vietnã e Camboja. E todos repetiram a trajetória para o modelo autoritário do socialismo num só país stalinista.


AVANÇO TECNOLÓGICO x LETARGIA ECONÔMICA


Mas, a arregimentação autoritária da mão-de-obra só funcionou a contento na etapa da industrialização pesada.


Na segunda metade do século 20, a economia capitalista avançou noutra direção, a da sofisticação tecnológica, da miniaturização, da gestação sôfrega de novas manias consumistas. Informática, biotecnologia, novos materiais, novos processos.


O avanço movido a ganância, com base no talento individual, na pesquisa e na tecnologia, derrotou a economia letárgica da URSS, tornada jurássica da noite para o dia, e sua nomenklatura arrogante que se reservava todos os privilégios.


Comprovava-se a máxima marxista segundo a qual são os países com forças produtivas mais desenvolvidas que determinam os rumos da humanidade.


O bloco soviético desabou como uma fruta apodrecida. Seus países voltaram ao capitalismo e à democracia burguesa.


A China conseguiu manter o sistema político autoritário, à custa de mesclar a economia estatizada com a iniciativa privada. Criou o pior dos mundos possíveis: algo assim como o milagre brasileiro, com a falta de liberdade sendo aceita em função das melhoras materiais proporcionadas pelo regime (e do espírito tradicionalmente submisso dos asiáticos).


Sobrou para os idealistas do século 21 a missão de recolocar a revolução nos trilhos, para que ainda seja cumprindo o sonho original de Marx: não apenas regimes híbridos em países isolados, mas sim o planeta inteiro transformado no “reino da liberdade, para além da necessidade”, em que:

  • cada cidadão contribua no limite de suas possibilidades para que todos os cidadãos tenham o suficiente para suprirem as suas necessidades e desenvolverem plenamente as suas potencialidades; e
  • o estado desapareça, com os cidadãos assumindo a administração das coisas como parte de sua rotina e a ninguém ocorra administrar os homens, já que eles serão, para sempre, sujeitos da sua própria História.

Engendrarmos uma onda revolucionária capaz de varrer o planeta é tarefa gigantesca? É.


Mas, em relação ao século 19, há uma mudança importante: ela se tornou muito mais necessária, como alternativa à regressão -- talvez, até, à própria aniquilação -- da humanidade.


Pois, salta aos olhos que, mantida a prioridade dos interesses individuais sobre os coletivos, a exaustão de recursos naturais e as catástrofes ecológicas reduzirão drasticamente os contingentes humanos, ou os exterminarão de vez.


A opção a fazermos, como disse Norman O. Brown, agora é entre a vida numa sociedade solidária e harmoniosa, ou a morte sob o capitalismo excludente e predatório.

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Comentário de edi em 13 setembro 2010 às 23:14
Este texto me lembra a época da Unicamp, onde as cartilhas funcionavam e tinham respostas para tudo. Sem querer desclassificar o texto ou o autor, mas não dá mais para fazer uma cartilha de comunismo com a verdade de que a teoria é correta, a história não ocorreu exatamente como prevíamos, mas agora vai. Será que você não vê que sua premissa de um regime comunista continua exatamente igual, ou seja, um regime totalitário, ditatorial, anti democrático e que vai contra a natureza humana. Meu deus do céu, será que no futuro teremos de novo este fanatismo que matou milhões com Mao/Stalin/PolPot/Fidel e outros ditadores. A história da humanidade teve guerras sem intervalos e você vem dizer que as guerras são para resolver problemas para o capitalismo. O muro caiu e você continua tentando reescrever o comunismo, um dos piores regimes que já se inventou. O capitalismo com todos os seus defeitos foi o período de maior evolução da humanidade, sob qualquer ponto de vista ( atenção: apesar da persistência de miséria no mundo, a vida para a MAIORIA nunca foi melhor), possibilitando que VOCE que não aceita o regime se expressar contra, ao contrário dos grandes libertários comunistas na qual a ditadura do proletariado acabaria quando não houvesse mais oposição, que graça.
Perguntem aos americanos, europeus,japoneses, tigres e brasileiros que finalmente estão saíndo da miséria e ídem para chineses se eles preferem a harmonia do comunismo porque vocês consideram o que deve ser o regime solidário e harmonioso. SEmpre me lembro que na Rússia, faltava garfos e facas. A grande sociedade igualitária. O interesante é que a Russia foi eficiente onde havia concorrência: indústria armamentista, espacial, esportes e em parte conhecimento científico ( para os setores que havia concorrência).
Comentário de Celso Lungaretti em 13 setembro 2010 às 23:54
Como disse o Caetano, "você não está entendendo quase nada do que eu digo". Nem percebe que eu condeno os experimentos históricos de construção do socialismo em países isolados e atrasados, pregando, como alternativa, modelos libertários, sem ditadura do proletariado e até sem Estado, implantados horizontalmente (não de cima para baixo) e em escala mundial.

Sugiro uma boa releitura.
Comentário de edi em 14 setembro 2010 às 3:36
A sua visão é religiosa no sentido que haverá um novo modelo libertário em escala mundial, cumprindo sonho original de Marx. Marx faz parte da história da sua época, dentro de toda a idéia socialista que existiu na teoria no século XIX e na prática ( ????) no século XX.
Tudo que vc propoe vai contra toda a história humana. O estado não desaparecerá por ideal. Isto não existe. Se um dia o estado acabar será por circunstâncias históricas, mas não esqueça: O PODER NÃO DESAPARECERÁ. A questão é o poder, e não sua forma de se manifestar. Imagina a sua proposta num planeta que mesmo nos locais de maior bem estar, há ódio de diversas origens ( Espanha/ Basco/Catalunha, Irlanda do Norte, Bélgica, Tchecos e Eslovenhos, Países Bálticos X Rússia) e muitos enrustidos e mal resolvidos ( exemplos: Transilvania/Romenia/Hungria , Alemanha/Polonia, Alemanha/França), só para falar da Europa. Não falei dos Balcas, da Turquia e Grécia, OM e sem contar a África e Ásia com inúmeras questões étnicas/religiosas/políticas. Você propoe modelos implantados horizontalmente??????????????? E sou eu que não esta entendendo nada?
Vivi provavelmente mutos momentos análogos ao seu, mas chega uma hora que temos que nos desvincular de sonhos do tipo " Imagine ". A realidade, a história não são o que a gente gostaria.
Por exemplo. Tudo indica que estamos explorando demais os recursos naturais, poluindo demais e provavelmente criando um grave desafio para o futuro próximo. É muito mais provávl que caso a humanidade não se auto limite e/ou crie novas técnicas e fontes de energia e recursos renováveis e não poluentes( exemplo: diminuição da população/ energia solar/hidrogênio e quem sabe exploração espacial), haverá crise mundial e dependendo do grau, possivelmente guerras e dimunuição da população de forma dramática. Não sou vidente, mas não dá imaginar que caso as previsões catastróficas se confirmem, os homens darão a mão e tentarão achar um novo regime voluntariamente. Não é assim que a coisa funciona.
Comentário de edi em 14 setembro 2010 às 3:53
Completando. Talvez a humandade até ache saídas; se forem pacíficas, será resultado de interesses concretos e não fruto da boa vontade entre os homens.
Comentário de Celso Lungaretti em 14 setembro 2010 às 4:34
A História, somos nós que a fazemos. Nada é imutável.

E o certo é que nunca houve condições tão propícias para se assegurar-se uma sobrevivência digna a cada habitante do planeta, nem ameaças tão terríveis para a humanidade se continuar priorizando os interesses individuais em detrimento do bem comum e das necessidades coletivas.

Não estamos mais submetidos ao jugo da necessidade. Já temos condições científicas e tecnológicas para proporcionar a todos o essencial, libertando os homens do trabalho alienado, estressante, escravizante, massacrante. Tudo depende de adotarmos as prioridades certas, descartando o que é parasitário e inútil. Podemos tomar a História na mão. "É só saber querer pra poder chegar", disse o Vandré.

No fundo, o que estamos discutindo aqui acaba sendo uma questão de opção pessoal: há quem prefira a postura cômoda de nada fazer e apostar sempre no pior, e há quem arregace as mangas para tentar legar aos pósteros um mundo sem as injustiças e a desumanidade atuais.

Eu pertencerei sempre ao segundo grupo.
Comentário de edi em 14 setembro 2010 às 17:46
Aí concordo com você. Admiro sua postura. Também quero um mundo melhor, mas tenho dificuldade em acreditar que é questão de querer. Acredito para mim mais em ações micros do que macros, especialmente porque não atuo no mundo macro ( não sou político, não faço parte de nenhuma associação e nem sou da mídia). Levo a sério eleições e não sou discrente no processo político. Acho que a parte as discussões medíocres sobre o Brasil ( que infelizmente estaõ muito fortes neste portal), o Brasil teve a sorte de ter 2 grandes governantes: FHC e LULA, de um gabarito que há muito não tinha. Se houver continuidade ( tanto faz Serra ou Dilma; os 2 são bons), teremos um a chance de ser algo que nunca fomos. Governates como Sarney, Figueiredo e tantos outros que ainda temos como governadores, são uma tragédia. Não acredito mais em divisão esquerda e direita. O que interessa é governar com seriedade. A roubalheira, no Brasil, é característica cultural, indiferente se o sujeito é de direita ou de esquerda ou de centro.Isto seguramente atrasa o país, mas apesar de tudo o país avançou em quase todas as áreas nos últimos 20 anos. Mesmo educação que é criticada, esquecem que hoje estamos chegando a um atendimento do 1.o grau na faixa próxima a 100%. Só depois disso vamos poder realmente mudar o foco para qualidade. Nada se faz do dia para noite. A escola é ruim por muitos motivos e não por vontade do governo ou porque o secretário da educação é ruim ( concordo que eles podem atrapalhar). Ascoisas acontecem, só que demoram.

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