A GENTE SE ACOSTUMA... (02-07-09)

A bofetada veio forte, atingindo-a no lado direito do rosto. Nunca havia sido agredida antes...
Humilhada, expulsou-o de sua casa, horrorizada com a indignidade dele.
Um ano morando juntos! E pensar que o enxergara como “o homem de sua vida!”. As lágrimas, eram tanto pela decepção, como pela covardia dele.
As flores começaram a chegar diariamente. Os cartões, pedidos de perdão tão humildes, declarações de amor eterno, tão verdadeiras, que ela cedeu afinal: recebeu-o de volta, em seu coração, em sua casa.
Ah!... Como se lembrava agora, amargurada, do quanto acreditara na mudança dele, nas primeiras semanas... Tão encantador havia sido, que a paixão voltara, redobrada...
A segunda agressão veio de surpresa, como a primeira. Apenas três meses depois.
Ela chegou a vomitar, de nojo dele e de si mesma!
Estranhamente, dessa vez ouviu suas explicações, antes de expulsá-lo de casa mais uma vez.
Estranhamente, dessa vez ela aceitou suas explicações, praticamente convencida, que fora ela a provocá-lo além dos limites aceitáveis para um homem!
Ela viu que precisava mudar, aceitá-lo como era, não provocá-lo mais...

Lá pelo quinto ano juntos, ela já nem se lembrava mais do primeiro tapa em seu rosto, o motivo, nada...
Na maior parte do tempo, ele era afetuoso e compreensivo. Era quase natural, que a agredisse eventualmente, e ela ouvia suas explicações como um autômato.
“Vai ver tem que ser assim mesmo!...” – acabou pensando, e com tal pensamento, acostumou-se que assim fosse a vida.
Como, de fato, assim foi, até o fim...

Quando li essa breve crônica, minha primeira reação foi ficar completamente indignado!
E, confesso, muito mais com ela, cúmplice e alimentadora das covardias do companheiro.
Como alguém podia se sujeitar a isso...?
Aos poucos, porém, meu próprio coração foi se lembrando de tantas primeiras agressões que recebi em vida, as bofetadas do mundo à minha volta.
As primeiras imagens, de crianças famintas, no Nordeste.
As primeiras imagens, e falas, dos nossos políticos, quando pegos em corrupção.
As primeiras injustiças que presenciei, ao ver que, quem tem dinheiro e poder, não é preso nesse país.
Envergonhado, vi que em muitas coisas eu não era diferente do personagem que eu tanto criticava.
E percebi, horrorizado, que era mais fácil eu ver o cisco no olho dos outros, do que a trava da omissão e covardia, em meus próprios olhos.
Injustiça, corrupção, enganação, canalhices e mentiras de toda a ordem, como se fôssemos todos indignos, todos merecedores da imundície à nossa volta...
As explicações, de tão cínicas, bofetadas diárias em nossas faces.
Foi quando a ficha caiu de vez!
Pessoas e povos, podem ter algo em comum...
Tornamo-nos indiferentes, omissos e acovardados, diante das bofetadas em nossos rostos.
A gente se acostuma...

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