É sempre triste constatar que algo histórico morreu. Mais triste ainda é quando o que morre tem a ver com nossas lembranças afetivas.

Estudei piano na infância e na adolescência. Morando em uma cidade do interior de Minas Gerais, as partituras e os famosos métodos de piano eram trazidos do Rio por papai. Quem não se lembra do Hanon ou do Czerny, das Sonatinas de Clementi, do Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach, ou do Método Infantil Para Piano de Francisco Russo? Como esquecer os momentos em que papai chegava de viagem com minhas músicas (partituras) carimbadas pelas lojas "A Guitarra de Prata" e "Ao Bandolim de Ouro"?

No Blog do Nassif, leio o comentário do Marko dizendo que a famosa loja que comercializava instrumentos musicais, "A Guitarra de Prata", fechara suas portas. Entristecida, fui pesquisar a notícia querendo que fosse um engano, mas depois constatei que era mesmo verdade.

Três meses atrás, em uma ida ao Rio, estive no centro e passei pela loja localizada na Rua da Carioca. Famosa por já ter abrigado o Bazar Francês, o Pince-Nez de Ouro, o Zicartola e o Cinema Ideal (com seu teto móvel), a rua ainda guarda em seus prédios um pouco da arquitetura neoclássica.

Do famoso comércio, ainda resistem o tradicional Bar Luiz, o Vesúvio (comércio de guarda-chuvas), o Cine Iris (em estilo Art-Nouveau, mas com programação totalmente pornô) e o Bar Flora, agora transformado em mercearia. Com o fim de A Guitarra de Prata, depois de 121 anos de atividades, mais um marco histórico-cultural do Rio deixa de existir.

Com os agradecimentos ao Carlos Augusto, do Blog de um Sem-Mídia, deixo a notícia da Tribuna da Imprensa, publicada no dia 14/11/08.

Fotos: Helô (setembro/08)

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O fim da loja A Guitarra de Prata.

Antiga loja de instrumentos musicais fecha as portas.

Depois de 121 anos de funcionamento, a loja A Guitarra de Prata, freqüentada por músicos como Pixinguinha, Noel Rosa, Ary Barroso e fornecedora preferida de Paulo Moura e Baden Powell, fechou as portas. Os funcionários foram avisados do encerramento das atividades no último dia 31. Vizinhos acompanharam a retirada de instrumentos nos últimos dias.

"É uma tristeza. Eu ia sempre comprar papel de música, que não se encontra mais por aí, só cadernos. Mas para desenvolver uma idéia, sempre preferi o papel. É uma perda para a música", lamentou o clarinetista Paulo Moura, que freqüentava a loja na Rua da Carioca desde os anos 1950. Outro que tem boas lembranças da Guitarra é o compositor Moacir Luz. Foi ali que ele comprou seu primeiro "violão decente".

"Essa loja remete à minha infância, meu início como músico. Ficava ali, ziguezagueando pela Rua da Carioca, olhando a vitrine, como mosca de padaria. Até que pude comprar meu primeiro violão decente ali", conta. Para Luz, o fechamento desse tipo de loja é resultado do "novo comércio", feito a partir de catálogos, internet e financiado pelos cartões de credito internacionais. "São muitas as facilidades. O hábito de sentar num banquinho e testar o instrumento está acabando", sentenciou.

A Guitarra de Prata foi inaugurada em 1887 por Antônio Tavares de Oliveira. Pioneira na venda de gramofones no Rio, ao longo dos anos tornou-se uma das melhores casas do ramo musical. Conta a lenda que Noel Rosa batucava numa caixinha de fósforo na entrada da loja quando compôs "Com que roupa". Ali Dilermando Reis deu aulas de violão, antes de fazer sucesso no rádio e firmar-se como um dos mais importantes violonistas brasileiros.

Ao longo das décadas, a loja tentou se adaptar aos modismos. Nos anos 1950 e 1960, época de ouro do rádio, a casa vendia até 20 acordeões por dia. Nos anos 1970, as guitarras faziam sucesso. Os teclados tornaram-se, mais recentemente, o instrumento da vez. Violões sempre estiveram entre os mais vendidos. Nos últimos anos, a loja passou a vender também softwares musicais, numa tentativa de acompanhar as mudanças. Não foi suficiente.

"A verdade é que a Guitarra de Prata parou no tempo. Vivemos o nosso pior momento antes do fechamento. O movimento caiu muito, as dívidas acumularam, houve desavença entre os sócios", conta Miguel Roberto Lia, de 71 anos, 52 deles passados entre os instrumentos da Guitarra de Prata, até o fechamento da loja. "Percebemos que as coisas não iam bem quando deixaram de depositar o FGTS, há uns seis meses.

Depois, alguns donos de lojas da vizinhança começaram a visitar, olhar as instalações. A gente perguntava se a loja seria vendida, mas a dona desconversava", conta Lia, que pela primeira vez vê a Guitarra fechada. Nas outras sucessões que acompanhou, a casa permaneceu em funcionamento. Foi assim quando Otilia Clark Ventura assumiu a direção da empresa depois da morte do marido, Samuel Ventura, em 1963. Foi substituída pela neta, Leila Ventura, em 1983. Em 1995, Leila sofreu assalto na Rua do Matoso, na Praça da Bandeira.

Um tiro a atingiu no pescoço e esfacelou sua medula. Permaneceu internada um mês, mas não resistiu. Os filhos assumiram a loja. Não deu certo e venderam para Maria Helena Moço, que até então era fornecedora de instrumentos para a Guitarra de Prata. No mês passado, Maria Helena foi procurada para dar entrevista para matéria sobre empresas centenárias que sobrevivem a sucessivas crises econômicas. Abatida, recusou-se a falar. Nos últimos dias, procurada novamente, não foi localizada.

"Eu a encontrei aqui na rua e ela comentou apenas que tinha fechado. Sem entrar em detalhes. É uma coisa meio estranha passar pela Carioca e ver uma loja tão tradicional fechada. Sinto um certo vazio", comentou Marcos Oliveira, proprietário da Casa Oliveira, fundada em 1956, agora a mais antiga loja do ramo musical em funcionamento na Rua da Carioca. "É uma perda para a história musical da cidade", resume o cavaquinista Mauro Diniz, cliente da também tradicional Bandolim de Ouro, mas que "sempre comprava alguma coisinha" na Guitarra.

No número 37, onde funcionou a Guitarra, não foi deixada nenhuma informação aos fregueses - a única inscrição é de uma placa da prefeitura em homenagem à loja com a frase: "Mais de um século de tradição, contribuindo para o aprimoramento da nossa cultura musical". A estudante de música Sheila Frauches, de 30 anos, ficou frustrada ao encontrar as portas de ferro cerradas.

"Comprei aqui meu teclado e agora vim para comprar o violão. É uma loja de muita tradição. Difícil acreditar que não tenha resistido". Lia tem esperanças de ver A Guitarra de Prata reaberta. "Já soube que a loja foi vendida. Parece que vão fazer obras. Espero que reabra com o mesmo nome", comentou. O antigo vendedor, que já recebeu convite para trabalhar em outras duas lojas da rua, decidiu aposentar-se de vez. "Encerrei o ciclo. Meus filhos estão bem encaminhados. Gostei dessa vida de "vagabundo", brinca.

Observação: grifos meus

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Comentário de Laura Macedo em 8 dezembro 2008 às 19:23
Helô.
Imagino o que você sentiu com o fechamento da "Guitarra de Prata".
Eu que nunca estive lá para comprar um violão, partituras editadas ou simplesmente papel de música, fiquei super emocionada com seu relato...
É muito triste quando um marco histórico, de qualquer cidade, deixa de existir...
Beijos.
Comentário de Sérgio Troncoso em 8 dezembro 2008 às 21:51
Por aqui também já vi casos iguais de lojas e casas tradicionais acabarem fechando por não conseguir acompanhar os novos tempos ou perder clientela por falta de inteligência comercial de algum nôvo proprietário ou administrador.É um movimento normal da vida,que para nós que nos sentíamos aconchegados nêsses locais,sempre traz alguma saudade ou algum sentimento melancólico de prazer perdido.O que sobra são os belos textos que imortalizam,não só os locais fisicamente,mas principalmente as sensações,cheiros e gôstos dos momentos pessoais que por ali alguns desfilaram.Helô entristece,todos entristecemos.Um abraço,Sérgio.
Comentário de Oscar Peixoto em 10 dezembro 2008 às 22:04
Menina, meu modesto violão (que agora já passou para outra geração) Gianini, foi comprado lá. Não faz muito tempo, almocei no Bar Luiz e aproveitei para rever aquela loja mágica que você tão bem fotografou. Uma pena ter fechado. A Casa Carlos Wehrs foi a primeira a ir embora, agora a Guitarra de Prata...Meu Rio de Janeiro está morrendo, Helô.
Comentário de Henrique Marques Porto em 17 dezembro 2008 às 0:35
Helô,
Ernesto Nazareth trabalhou na Guitarra de Prata. Tocava as músicas cujas partituras estavam à venda e mostrava as novidades e lançamentos para a freguesia. O velho piano em que trabalhou ainda estava lá até bem pouco tempo. O que terá sido feito dele? A Guitarra de Prata já tinha deixado de ser um comércio como qualquer outro. Era, e ainda é, um bem cultural a ser preservado.
Abraço
Henrique Marques Porto
Comentário de Luiz Mariano em 6 janeiro 2009 às 22:05
Tive o privilégio e o prazer de trabalhar lá com sob a administração da saudosa e valente Leila Ventura, e também ao lado do sempre eficiente, educado e amigo leal, Miguel e muitos outros que por lá passaram. Fiquei triste com a notícia do fechamento desta maravilha que foi para muitos de nós, "A Guitarra de Prata".
Comentário de Cesar Henrique Fernandes Barreto em 16 março 2010 às 19:30
A loja foi reaberta a mais de um 1, hoje a mesma completa 123 anos de existência, claro que houve algumas alterações, mas a loja continua com sua foram original. Aqueles que amam A Guitarra de Prata, façam uma visita e recordem a história que está guardade dentro de cada um.
Comentário de cristiano moreira f oliveira em 5 março 2012 às 14:21

eu também tive o privilégio de ter trabalhado nesta loja, que significa muito para a história musical do rio, berço de tantos ilustres artistas... uma das maiores experiências foi atender o saudoso tim maia, por telefone. ele mandou um musico ir buscar um contra-baixo, comprou comigo. conto essa história pra todo mundo. trabalhei com o saudoso miguel, grande miguel, me ensinou muito. os gerentes eram o flávio e o amorim. fiz parte do quadro de 95 a 98. ótimos momentos... salve !

Comentário de Avelino em 6 junho 2017 às 18:03

Ola , tenho um Bandolim feito artesanal com selo da Guitarra de Prata, acredito que seja da década de 70 ou 80 , e estou muito interessado em saber quem era o Luthier que fabricava Bandolim para revenda na Guitarra de Prata. 

Se alguem puder me ajudar com alguma informação serei muito grato. Abraço

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