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A história da pobreza da Amazônia, causada pela biopirataria que começou destruindo a produção de borracha

PORTO VELHO, sábado, 8 de janeiro de 2011 - Após a exploração do pau-brasil pelos portugueses,n época do Descobrimento, o primeiro caso de biopirataria contra o país, num tempo em que esse conceito não existia, mas era praticado, surgiu o caso da borracha na Amazônia.

É oportuno conhecer essa parte da história do Brasil, no momento em que o governo começa a “leiloar” as florestas para se verificar que o comportamento dos estrangeiros em relação à Amazônia, e a falta de capacidade do governo brasileiro de proteger (ou valorizar) a região, continuam os mesmos,.

O látex, a borracha, é uma resina produzida pela seringueira, a hévea brasiliensis, uma árvore da Amazônia. Foi um dos maiores tesouros naturais da Amazônia e de certa forma está na origem da própria revolução industrial do planeta.

É também um dos maiores paradoxos da história do Brasil. Simboliza um jamais igualado período de prosperidade e, simultâneamente, um tempo de injustiças sociais, de corrupção do Poder Público.

E tornou-se emblema da incapacidade de os próprios brasileiros protegerem suas riquezas da cobiça internacional.

Tesouro natural

 Ao descobrirem o Novo Mundo,os europeus descobriram a borracha e suas possibilidades industriais. Os índios do rio Solimões ensinaram os portugueses a defumar e a usar o látex para fazer bombas ou seringas.

Desde 1827 a Amazônia mandava para o exterior látex extraído dos seringais nativos. Na década seguinte o americano Charles Goodyear adicionou enxofre à borracha tornando-a capaz de resistir ao calor e ao frio.

A vulcanização como esse processo foi batizado revolucionou a industrialização na Europa e nos Estados Unidos e quando o escocês John Dunlop usou a borracha para inventar o pneu para bicicletas a Amazônia passou a ocupar um lugar importante na economia mundial.

Na virada do século XIX para o XX, os negociantes da borracha em Manaus e Belem já sabiam que eram donos de uma mina e melhor ainda, o monopólio era deles.

Das bicicletas, a grande moda da época, os pneus logo passaram aos automóveis. A borracha começava a fazer a humanidade andar mais depressa.

 Trabalho escravo

 Para explorar a riqueza que era extraída dessa árvore era necessário abundante mão-de-obra. Imensas populações indígenas foram recrutadas à força para tirar borracha. Aldeias eram cercadas e mulheres e crianças e obrigadas a tirar borracha.

Mas as seringueiras espalhadas por vários quilômetros de floresta exigiam mão de obra livre. Surgiu o seringueiro e uma nova relação entre o trabalho e o capital: o aviamento. O seringueiro é o personagem anônimo porém o mais dramático e central da história da borracha, o nordestino solitário, sem mulher, que se adapta à selva amazônica.

Foi a grande seca de 1877 quem empurrou os nordestinos principalmente os do Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco para a Amazônia. Era mais fácil do que ir para a economia cafeeira já em desenvolvimento no sul.

Eles eram arregimentados por intermediários que lhe faziam promessas de riqueza. Mas aqui o pagamento era substituído pelo aviamento, um sistema de crédito no qual o dinheiro não aparecia nunca, substituído por alimentos industrializados, roupas, calçados e outras utilidades elementares.

  Lucro para os estrangeiros

 Era a escravidão do débito. O seringueiro era pago em gêneros e sempre ficava devendo. O sistema ainda vigora por quase toda Amazônia extrativista, base da sua organização de trabalho que se espalhou até mesmo aos últimos refúgios, aos últimos igarapés, aos últimos encostos na mata, levando o produto da economia moderna da Europa e dos Estados Unidos ao caboclo.

O Brasil, nessa época, sub estimava a importância estratégica econômica da borracha da Amazônia, como se a região não fizesse parte do pais. Enquanto isso, cientistas do Jardim Botanico Real de Kew em Londres pediam a todos os ingleses que se aventuravam pelo mundo que lhe trouxessem espécimes vegetais para estudo.

Eles tentaram várias vezes contrabandear as sementes da seringueira para a Inglaterra mas as sementes não resistiam à viagem e apodreciam.

A historia começou a mudar em 1866 quando dom Pedro II abriu o rio Amazonas à navegação internacional.

Logo em seguida chegou a região o aventureiro inglês Henry Alexander Wickham com a missão de contrabandear a hévea brasiliensis para o sudeste asiático, numa operação patrocinada pelo Jardim Botânico de Kew.  

Era um ato de biopirataria do tipo que as nações desenvolvidas hoje discutem com as nações do 3º mundo, a questão da posse dos bancos genéticos

O biopirata inglês teve sucesso por que teve o apoio de funcionários públicos brasileiros corruptos e de uma sociedade capitalista alienada..

Os produtores de borracha da Amazônia ficaram indiferentes ao roubo. E o Brasil continuou ignorando (como até hoje ignora) a Amazônia, então tão rica quanto o Sul.

Até a Inglaterra assumir o monopólio da produção mundial da borracha e causar a pobreza que existe desde então no Norte.

Restou a riqueza da história de sofrimento, coragem e estoicismo do nordestino, que sustentou o esplendor da Era de Ouro da Borracha.

O sertanejo nordestino agora está integrado à selva, transformado no caboclo, o sertanejo da Amazônia, tão valoroso, valente e fundamental para o Brasil quanto seus antepassados que a Grande Seca do Século XIX expulsou para cá. Acesse www.noticiaRo.com para ler esta história completa.

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Comentário de Montezuma Cruz em 8 janeiro 2011 às 18:00
Até o final do século passado, o monopólio da borracha despertava governos, universidades, estudiosos, enfim. Infelizmente, adormeceram-no. Isso é um tiro no pé, pois estamos em pleno Terceiro Milênio, quando colocamos na ordem do dia a água, o látex de seringais de cultivo, as roças sem queima, o plástico, o petróleo e o crédito de carbono. Nelson Townes vai sempre além da notícia. Traz fragmentos ou a própria história na sua essência. Perceber os Brasis que existem atrás dessas notícias é um ato de patriotismo, algo tão demodé nesse mundão com oceanos de mediocridade. Por isso é sempre bom ler textos esclarecedores tal qual o que aí está. Parabéns, Nelson Townes, sempre didático!

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