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A história de 50 anos de lutas e alegrias de Cândido e Albertina

Esta é a história de meus QUERIDOS PAIS. A história da minha família, assim como do BRASIL recente.
Publicado no jornal "Serras da Mantiqueira", especializado na divulgação turística da Serra da Mantiqueira, fornecendo informações nas áreas cobertas pelos temas Cidadania, Meio Ambiente, Turismo Sustentável, Cultura, História, Economia, Entretenimento, Pesquisa e Desenvolvimento. Abrange as seguintes cidades do estado de São Paulo: São Francisco Xavier (Distrito de São José dos Campos, onde meus pais moram), Monteiro Lobato, São Bento do Sapucaí, Santo Antônio do Pinhal e São José dos Campos.

Link para a matéria: http://www.jornalsmantiqueira.com.br/jornal/noticias-descricao.php?...

A história de 50 anos de lutas e alegrias de Cândido e Albertina

João Batista Cândido, 78 anos, e Albertina Paulo Cândido, 72 anos, farão
Bodas de Ouro no dia 25 de janeiro de 2011. Cinquenta anos se passaram e
as lembranças de um passado de luta por melhores condições de vida são
inesquecíveis. “Hoje ando me esquecendo do que aconteceu ontem, mas do
passado não me esqueço de nada. O médico disse que isso é normal na
minha idade, não é?”, disse Cândido.Cândido nasceu em Serrania, MG, e
teve 16 irmãos. Ainda muito jovem foi morar com o tio na Lapa, SP.
Albertina nasceu em São Paulo, num bairro que hoje possui o metro
quadrado mais caro da cidade, Vila Nova Conceição. Mas na década de 50
não era tão nobre, assim.O casal se conheceu na JOC (Juventude
Operária Católica), grupo de operários que se reuniam semanalmente lá em
São Paulo para falar da escola, da família, do trabalho, da vida social
e política. Lá os jovens aprendiam a lutar pelos seus direitos de
cidadão, a conhecer os problemas trabalhistas, onde “operários não
podiam ser escravos, máquinas, mas sim, filhos de Deus”. Aprendiam que
pobres e ricos, trabalhadores e empresários eram iguais perante Deus. E
na época a industrialização e o capitalismo tomavam o poder e exploravam
os trabalhadores.Em 1960, Cândido foi trabalhar na Cobrasma de
Osasco, uma empresa que fabricava vagões de trem. Em 1961, ele e
Albertina se casaram e foram morar numa casa muito simples, em Osasco,
dois cômodos, e que chovia dentro. Tudo muito difícil e na fábrica as
coisas também não andavam nada bem. O trabalho era perigoso, “a gente
mexia com fundição de aço que chegava aos 900 graus de temperatura”.
Trabalhavam em condições de insalubridade, sem segurança, sem roupa
adequada, sem refeitório, levavam comida de casa. A Cobrasma tinha 4 mil
funcionários e funcionava em três turnos. “A fábrica não parava. Da
nossa casa, a três quilômetros eu ouvia o barulho da fábrica, as
marteladas, o apito”, lembrou Albertina.E lá aconteciam muitos
acidentes: leves, graves e até mortes havia. Os mais jovens não tinham
nenhuma experiência, não sabiam o trabalho e sofriam. Então, os
operários começaram a se organizar aos poucos para ver o que poderiam
fazer para mudar. Um dia, um rapaz de 18 anos sofreu um acidente
terrível e morreu dentro da fábrica. Invés de alguns serem liberados
para ir ao enterro resolveram combinar com o chefe 1 minuto de silêncio.
Cândido falou com o chefe dele e o chefe concordou. Pensaram numa
estratégia para parar a fábrica inteira. Tocar o apito geral. Cândido
foi falar com o chefe e o chefe pensou que era apito da seção e não o
geral, e aceitou. Combinaram às 10h da manhã. Quando chegou a hora, o
apito tocou e aos poucos, os funcionários paravam. Passou-se o minuto
mas ainda havia barulho, então decidiram permanecer até que a fábrica
ficasse em silêncio total. “Imagine o que significava. Aquela fábrica
que nunca parava, parou”.Assim aconteceu para o desespero dos chefes
que queriam saber porque tudo estava parado. Passaram-se 5 minutos ou
6. E voltaram ao trabalho. A partir dali ganharam força imensa para ir
em frente com as reivindicações. Estavam prontos para formar a Primeira
Comissão de Fábrica do Brasil em 1962. Nesta época expandia a
emancipação política da cidade. E foi fundada a subsede da Frente
Nacional do Trabalho em Osasco. Eles lutavam pela autorização do
sindicato dos metalúrgicos de SP para instalar uma sede da categoria em
Osasco. Eleições foram feitas e formou-se a diretoria em 1963.Em
1964 instala-se no país um regime de ditadura violenta e insensível aos
anseios populares. Com o golpe militar afastou João Goulart da
presidência, assumindo o poder o Marechal Castelo Branco. Houve
intervenção no sindicato. Foram caçados. A partir daí aos poucos
formaram uma comissão cujos membros iam à diretoria da empresa negociar,
falar dos problemas comuns de todos. As organizações operárias que
surgiam na época eram todas reprimidas pelo governo e empresários, mas a
Comissão de Fábrica da Cobrasma tendo à frente João Cândido e Albertino
de Souza Oliva (advogado) permaneceu. Em 1967 um grupo de jovens
operários estudantes conquistaram a presidência da Comissão de Fábrica, e
João Cândido atuou como Secretário Geral.Em 1968 fizeram greve de 3
dias, onde ninguém entrava ou saía da fábrica para pressionar o governo
federal por ajuste salarial. Mas na verdade era para desmoralizar o
regime, afinal o direito de greve estava na constituição de 1946.O
governo militar então tomou a fábrica. A polícia entrou e levou Cândido e
mais 4 operários. Enquanto isso, Albertina estava em casa com os 5
filhos do casal. E este momento da vida deles é lembrado com muito
carinho, pois jamais se esquecerão da solidariedade dos companheiros.
“Muitos foram passar a noite comigo e com as crianças, imagine, numa
casa pequena, de 2 cômodos, mas foi inesquecível a força que deram pra
gente”, contou Albertina.Cândido ficou 4 noites e 3 dias preso no
porão de um casarão isolado em Higienópolis, sem luz, sem comunicação.
Sofreu tortura psicológica e teve muito medo. “O militar perguntava: o
senhor é comunista? Eu respondia que não. Então ele afirmava. O senhor é
comunista! O senhor conhece fulano? Eu dizia: Não senhor. Não conhece?
Eu respondia calmamente assim: como vou saber? Essa pessoa pode ter tido
outro nome. Se o senhor tiver foto dele eu posso responder se conheço -
Ainda bem que não tinham a foto. Mas um de nós sofreu violência física,
apanhou no pau de arara o Zequinha”, contou Cândido. Ele disse que viu
muito sofrimento dos companheiros, perdeu vários deles, outros sumiram e
até hoje não se sabe o que aconteceu. Muitas e muitas histórias na
memória desta época.“Então eu disse para o militar: daqui pra frente
tenho 5 filhos pra criar, o que acontecer comigo é responsabilidade de
vocês, vocês serão responsáveis pela minha família”. Depois dessas
palavras, Cândido conseguiu a liberdade. “Eu acho que ele foi solto
porque ele estava calmo para falar com os militares e eles viram que era
um pai de família que estava ali”. Cândido decidiu ir para São José dos
Campos procurar emprego. Em novembro daquele ano (1968) conseguiu na GM
e depois de um mês foi buscar a família. Três dias depois foi mandado
embora. A GM descobriu que ele fez parte do movimento e que até preso
ele foi em São Paulo.A família passou dificuldades, porém, mais uma
vez, contaram com a solidariedade dos companheiros de luta que pagaram o
aluguel e colocaram comida na mesa. Cândido conseguiu emprego na FIEL,
as coisas foram se estabilizando, lá ficou 2 anos, depois trabalhou na
TECNOLON e depois na RODHIA, na época RODOSÁ. E em todas as empresas a
mesma história ele via se repetir: falta de boas condições de trabalho e
falta de segurança. “Tínhamos uma função e daqui a pouco éramos
obrigados a fazer muitas outras funções, não tínhamos mais única
profissão”, os empregados ficavam doentes e nada era feito. E como já
tinha no sangue toda a história que viveu em São Paulo não baixava a
cabeça para as coisas erradas que via, e, ao cobrar, era mandado embora.Aos
45 anos de idade sem emprego, decidiu trabalhar por conta própria com a
sua profissão de Encanador Hidráulico. Não dava mais certo dentro da
empresa. Cândido ficou 15 anos trabalhando como autônomo e na época se
filiou ao PT (Partido dos Trabalhadores), que surgiu em 1980. Cândido
passou a ser presidente do Diretório do PT na região. E quando Ângela
Guadagnin venceu as eleições em São José dos Campos chamou Cândido para
administrar o Distrito de São Francisco Xavier em seu governo, de 1993 a
1996.Uma nova história de vida começou para o casal. Conheceram o
Distrito e se apaixonaram. Fim da administração, Cândido e Albertina
decidem viver ali para sempre. Albertina se engajou no Grupo de Mulheres
que se reúnem semanalmente para confeccionar artesanatos e falar da
vida, da família, dos problemas, das soluções, das tristezas e das
alegrias.A casa espaçosa do casal, no momento, se encontra em
reforma para receber a família no Natal. Ao todo tiveram 6 filhos, 10
netos e está chegando mais um neto, só que ele já tem 10 anos de idade,
adoção de um dos filhos.“Sou feliz. Sou feliz por estar vivo depois
de tudo que passei. Poder ver a família reunida em casa, meus filhos e
netos. Eles vêm, tocam violão e cantam, são minha alegria. Tenho orgulho
da vida. Tenho orgulho de tudo que fiz. Orgulho de ter mentido para os
militares naquela prisão, em defesa dos meus companheiros”.

Dilma Rousseff na presidência

Cândido disse que tem muita admiração pela Dilma por ela ter enfrentado a
ditadura. Ele disse que muitos a criticaram durante a campanha
eleitoral, mas eles não passaram o que ela passou, que foi pior do que
ele passou, pois além de tortura psicológica, ela sofreu tortura física
na prisão. “Ela mentiu sim, assim como eu fiz também. Eu a defendo. Nós
tínhamos que mentir para não entregar nossos companheiros. Arriscamos
nossa própria vida por eles”.Albertina defende Dilma e também os
movimentos que cobram do governo melhores condições de vida. “Defendo
Dilma porque ela é mulher e é competente. Contudo, eu acho que a
organização dos movimentos no Brasil devem continuar no governo dela.
Sou a favor dos movimentos, hoje, principalmente pela luta por melhores
condições de saúde e educação, ainda precários no País”, finalizou.

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