...

Naquela manhã de sábado, a casa entristeceu. Apenas o barulho da louça sendo lavada e do aspirador de pó, que vez ou outra parecia querer engasgar. Não havia mais brincadeiras ou estripulias pela sala; “brinquedos” espalhados por todo o apartamento foram recolhidos, e a agitação a que estávamos acostumados simplesmente desapareceu. Sem Felício, recuperamos a paz e a tranquilidade de antes; mas, no fundo, queríamos todos o nosso “furacão” cotidiano de novo ao nosso lado.

Federico, mesmo sem sair de sua rotina, percebia algo errado; atento, observava nossa apreensão, e em uma clara demonstração de afeto ficou junto de nós o tempo inteiro. Dormindo, confesso, mas sempre perto de nós. Quando acordava, miava por Felício, e não obtendo resposta, voltava a cochilar.

Por mais que nos esforçássemos, não conseguíamos nos concentrar em nossas atividades. Era inevitável pensarmos em Felício e na alegria que nos trouxe. Apesar do pouco tempo de convivência, aquele gatinho havia nos conquistado a todos.

Lembro-me de ficar sentada o tempo todo, olhando para o telefone, esperando por aquele que foi uma das mais aguardadas ligações. O aparelho tocou somente às 14:30, e em disparada partimos em busca de Felício. Assim que o vimos, corremos em sua direção, mas para decepção geral ele ainda estava sedado. Antes de deixarmos a clínica veterinária, já com Felício nos meus braços, a veterinária nos disse que, devido à excitação e medo com que chegara, foi preciso lhe dar quase duas doses de anestesia. Por isso, ficaria o dia inteiro entorpecido e sonolento. Alertou-nos ainda para alguns efeitos colaterais, como vômitos e dores.

De volta ao lar, em misto de dó e consternação, improvisamos uma “cama” para Felício sobre uma caixa de papelão que adorava. Lá o acomodamos enrolado num cobertor, para que não sentisse frio. Nesse tempo, Fed acordou, pressentiu Felício por perto e foi logo inspecionar pra ver o que se passava. Mas por conta dos medicamentos Felício exalava um odor estranho e Federico imediatamente se afastou dele , pondo-se a confortá-lo de longe.

Durante o dia, Felício alternou raros momentos de sonolência desperta e constantes períodos de sono profundo. Não saímos de seu lado, para que tivesse a sensação de estar em segurança, ainda que não conseguisse nos ver ou ouvir.

Ao cair da noite, me deitei no sofá e aconcheguei Felício em meu colo. Ele já queria acordar, mas estava sem controle dos movimentos. Quando conseguia levantar-se, andava lentamente, tropeçando nas patas. Queria ir à sua comida e água, contudo, no meio do caminho vomitava, em reação à cirurgia. Por isso, voltava cambaleando e se acocorava em mim, para mais algumas horas de descanso. Fed, vez ou outra, se aproximava dele. Entretanto, ao pressentir Felício diferente, prontamente se distanciava daquela situação.

Felício iniciou o processo de total recuperação entre onze horas e meia-noite. Ainda que felizes, concluímos que passaríamos mais uma noite acordados. Decidi então dormir na sala, para poder controlar os passos de Felício, se resolvesse zanzar pela casa. De madrugada foi ao prato de comida, cinco, seis vezes, sem conseguir abrir a boca para comer ou beber. Muito magrinho e desolado, voltava para cama em completo desânimo.

Pela manhã, depois de mais algumas tentativas frustradas de comer, começamos a nos preocupar com a condição física de Felício. Acreditávamos que fosse apenas mais uma etapa por qual teria que passar para o completo restabelecimento, embora , por vezes, nossos sentimentos ignorassem a racionalidade - chegamos ao ponto de forçar a musculatura bucal de Felício para fazê-lo tomar água. De nada adiantou o esforço, pois ele não comeu nem bebeu, e nos conformamos com a idéia de esperar o tempo certo de restabelecimento.

O domingo foi, para Felício, mais uma oportunidade para descansar e dormir bastante. Por volta das duas da tarde, finalmente, conseguiu comer e bebericar um pouquinho de água, diminuindo a nossa inquietação. Por conta da alta dose de medicamentos, ele levou mais tempo para ficar esperto e ativo novamente. Passou quase dois dias em sereno recolhimento.

Saber Felício se recuperando foi um alívio, assim como saber que não precisaríamos mais nos preocupar com desconfortos hormonais. Entretanto, estávamos curiosos para saber se ele tivera uma possível mudança comportamental, por conta da cirurgia. Como seria termos um Felício calmo e sossegado? E nós? Como encararíamos mudança tão brutal? Confesso que estávamos todos ficando com saudades das artimanhas de Felício.

Federico parecia partilhar de nossas dúvidas. Sentado diante de um Felício adormecido, parecia perguntar-se em profunda angústia: “Como irá acordar este molequinho”?

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Comentário de Helô em 30 março 2009 às 22:38
Nada como uma pressãozinha :)
Quero mais!
Besos.

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