As senhoras nunca acompanharam folhetim?!
Não é assim que a coisa anda.
Desta vez vai, agora tem que rallentar, senão cadê emoção?


...

Para nossa alegria, Felício foi retomando ao longo da semana sua rotina e seu jeito endiabrado de ser. Voltamos a conviver com traquinagens e artimanhas. Ver Fed no seu caminhar desajeitado e Felício com seus galopes, juntos novamente, nos trouxe a certeza de que havíamos tomado a melhor decisão. A casa foi novamente ganhando ares de lar; bagunçadíssimo, é claro.
Com os dois operados e livres do período de repouso, concentramo-nos em realizar um antigo sonho: mudarmo-nos para uma cidade mais tranquila, com melhor qualidade de vida e, se possível, perto do mar. Ao discutirmos as etapas e detalhes desse projeto, definimos que nossa nova moradia seria uma casa, que além de atender às nossas necessidades, proporcionaria a Fed e Felício espaço e liberdade. Mesmo não precisando de tanto espaço para gastarem energia, como os cães, por exemplo, sabíamos que para eles seria importante o contato direto com aquilo que a natureza oferece: a suavidade do vento, o cheiro do mato, o sabor da chuva, o tato das folhas.
Tanto Fed quanto Felício viveram a vida inteira (até aquele instante) dentro de um apartamento. Todas as sensações e experiências foram sentidas através de uma janela, apenas observando o que acontecia lá fora e muito embaixo.
Ao mesmo tempo, acordamos que a nova casa teria de contar com portões e muros altos, para não permitir a saída dos dois. Imaginávamos que um dia teríamos de lidar com as inevitáveis curiosidades de Fed e, especialmente, Felício em querer conhecer o que havia do lado de fora. Incomodava-me saber que não haviam sido criados para subir em telhados ou passar as noites na rua.Tinha medo de que não soubessem se comportar dentro de um novo “mundo”.
Minha preocupação era maior com Felício, que vivia sempre atrás de emoções e aventuras. Por diversas vezes, precisamos fechar as janelas do apartamento para que não pulasse sobre revoadas de maritacas, que de quando em quando iam se exibir diante da janela do apartamento. Federico, ao contrário, sempre foi cauteloso e precavido, jamais se arriscaria subindo em muros ou telhados.
Lendo um artigo de jornal, soube que gatos criados dentro de residências vivem em média 13, 14 anos; mas essa idade cai bruscamente para 4, em felinos que têm algum tipo de atividade na rua, devido a confrontos com outros animais, atropelamento, maus-tratos, envenenamento etc. Cientes de todos os problemas que nos causaria tê-los fora de casa, ainda assim achamos injusto prendê-los em uma redoma, só por causa da nossa tranquilidade, cerceando a natureza interna e a necessidade instintiva deles.
Concluímos, então, que o melhor a fazer seria submetê-los a um período de adaptação, para que estivessem bem preparados quando estivessem fora de casa.
Se com Felício nossos tormentos eram com relação ao seu temperamento e personalidade, Federico nos preocupava por sua fragilidade. Por ser siamês, Fed sempre foi suscetível a mudanças de temperatura, contraindo facilmente gripes e resfriados. Também não suportava altas temperaturas no verão. Em dias muito quentes, seu organismo reagia através de vômitos e diarreia.
Mesmo assim, confiávamos que os ares de um novo ambiente e a alta umidade de uma cidade litorânea fossem dar a Fed alívio suficiente para atenuar os efeitos do calor sobre ele.
Um mês antes da mudança, compramos uma gaiola e a deixamos aberta no meio da sala. Queríamos que vissem que era deles e se sentissem à vontade com o novo objeto. Que percebessem que aquilo não significava algo ruim. Uma semana e meia antes do esperado evento, notamos que Federico começava a agir de modo estranho. Estava com o andar mais lento e a respiração ofegante. Observando-o com maior atenção, ao longo da semana, notamos que esse comportamento intercalava-se de acordo com o clima. Fed dava sinais de que desenvolveria mais uma reação de seu metabolismo àquele verão.
Senti muita raiva e cheguei a discutir muito asperamente com meu pai, quando ele me disse um dia, com a maior frieza: “A máquina está começando a pifar”.

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Comentário de Helô em 31 março 2009 às 1:38
Curiosidade: o nome do Fed foi em homenagem a Fellini?
E continua o suspense!
Bjs, Liu.
Comentário de Liu Sai Yam em 31 março 2009 às 11:22

Comentário de luzete em 2 abril 2009 às 0:58
nossa, e o sérgio me mostrou um gato todo lascado.
e o gato original é este!
ele me paga!
inveja mata, já dizia... quem mesmo? qualquer um, vai!
Comentário de luzete em 2 abril 2009 às 1:01
eu nem sabia que a saga continuara.
haja emoção.
mas este final eu conheço, numa outra versão: o gato subiu no telhado...
Comentário de Liu Sai Yam em 2 abril 2009 às 1:05
Luzete,

O gato é metáfora indireta das vicissitudes de seres submetidos a caprichos além de sua compreensão.
Sobe no telhado mas não cai! Ou cai atirando.
Brincadeira... Foi inspirado num filme tcheco que não do seu tempo: "Um dia um gato".
Êita filme inesquecível, tanto que até hoje não me sai da cabeça.

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