José Cleves
Tenho birra de jornalista que encerra a reportagem com base naquilo que foi divulgado, oficialmente, mesmo quado o assunto foge da normalidade. Tivemos, dias atrás, um caso raríssimo em Belo Horizonte, uma tragédia shakesperiana que, se não fosse a abundancia de provas de sua concepção, entraria para a história como um dos crimes mais cabulosos e misteriosos do Estado. Ainda assim, o caso teve um tratamento factual, sem que houvesse, por parte da imprensa, uma abordagem mais aprofundada sobre a causa deste fato raro na literatura criminal.
O gerente de uma locadora de veículos (que os jornalistas insistem em chamar de empresário), Djalma Brugnara, 49 anos, matou a procuradora federal, Ana Alice Moreira, 35, e se matou a seguir, picando o corpo com uma faca, até cravá-la no peito – algo rarissimo na literatura criminal e, por essa razão, digno de registro para estudos criminológicos, antropológicos, sociológicos e psicanálíticos, sobre os limites da mente humana. Se Émile Durkheim (1858-1917) estivesse vivo ele, que foi um dos pais da sociologia moderna e um estudioso do auto-extermínio (Suicídio: 1987), certamente que faria um tratado sobre o assunto.
Não sou um durkheimiano qualquer. Estudei as obras deste francês à exaustão, não apenas as dele, como também as de vários outros iluministas da época – o próprio Freud que, como ele, obcecou-se por outro asssunto complexo para a ocasião – a sexualidade – e tirou disso um bom proveito para a evolução da humanidade. A questão do suicídio, que é um dos tabus da sociedade moderna – e da imprensa –, merece um estudo que vai além das formalidades policialescas e jornalísticas.
Digamos, pois, que tais fatos devam ser analisados dentro de um contexto individual e não coletivo. No caso ocorrido em Belo Horizonte, envolvendo personagens da alta sociedade – ele, de família tradicional, um bon vivant, aparentemente sem maiores problemas, e ela uma jovem mulher bem-sucedida, ambos vivendo, há anos, numa mansão de luxo em um condomínios da região metropolitana, onde gozavam de conforto, privacidade e segurança.
O casal tinha dois filhos e uma vida aparentemente pacata, mas marcada pelo ciúme. Começaram as brigas, ameaças, até que no dia 25 de janeiro, Alice resolveu dar queixa do marido na polícia. Ainda assim, continuaram vivendo sob o mesmo teto até que dia 1º a procuradora foi assassinada por volta das 4h da madrugada pelo marido que enfiou-lhe várias facadas no peito, no quarto do casal.
O crime foi testemunha em outro cômodo fechado, pela babá e os dois filhos do casal – de 7 e 3 anos que, naturalente, ja estavam acostumados com as brigas. Djalma fugiu no seu carro, andou poucos quilômetros e entrou em um motel à margem da BR 356, onde ocupou a suite de número 16 e foi encontrado morto quase 20h depois.
Crime passional?
Pelos levantamentos periciais divulgados extra-oficialmente, o corpo apresentava 28 perfurações a faca – cinco delas mais profundos: dois nas verilhas, dois no pescoço e um no peito. À primeira vista, tudo leva a crer que ele se autoflagelou, picando o corpo em busca das veias femorais e do pescoço para se matar e, não obtendo êxito, apunhalou o peito, tendo morte agonizante e em horário não presumível – o corpo foi encontrado já em estado rígido, não permitindo aos legislas determinar a hora de sua morte.
Crime passional? Não sabemos, embora seja este o tratamento dado ao caso pela imprensa, mas segundo o próprio Willian Shakespeare, ao definir os chamados crimes de sangue, o homicida passional é movido pelo amor e o ódio – e não pelo dinheiro ou poder – e nem sempre pela loucura, como ele ilustrou em suas magnificas obras Otelo, Macbeth e Hamlet, uma verdadeira descriçao psicológica da arte ocidental sobre estas três modalidades de criminosos.
No primeiro caso Shakespeare relata um crime passional (Otelo matou a mulher por um ciúme doentiu e depois se matou com a mesma faca); em Macbeth, que destronou e matou o rei da Escócia, foi pela volúpia do poder e do dinheiro, e em Hamelt, foi um ato de loucura, conforme gritou o personagem para a platéia, após matar enganado Polonius que ele imaginava ser o seu tio (que caçava por ter matado o seu pai): “Não foi Hamlet que matou; foi a sua loucura”).
O que eu quero, com isso, é tirar a dúvida do leitor sobre o que de fato levou Brugnara a matar Alice: se foi pelo dinheiro (não há registros, nas reportagens que li, sobre as reais condições financeiras do criminoso), se foi por amor e ódio, mais provavelmente por ódio, porque não acredito na pessoa que mata por amor – quem ama não mata, é o que penso – e/ou por loucura, porque o público não foi informado direito sobre a peronalidade do criminoso, se ele era, de fato, um homem violento, brigão, destemperado, com episódios de loucura em sua vida cotidiana, etc.
Nossa função é prevenir
A única coisa que sabemos, mesmo à distância dos laudos, é que ele se penitenciou com extremamente violenta, ao picar o corpo com a faca, de forma agonizante, em um ato de loucura repentina que merece estudos pela raridade deste gesto. Eu, por exemplo, que tenho 40 anos de jornalimo a céu aberto e que já vi e li quase de tudo neste mundo (depois do 11 de setembro, ninguém pode duvidar de mais nada), garanto que este tipo de crime é atipico mesmo nas tragédias gregas, fartas em relatos do mundo cão, como a incestuosa, fraticida e infanticida Medea, que insperou Eurípedes, e Fedra, também imortalizada por seus escritos, pela crueldade descabida.
Faço essas reflexões para despertar, na sociedade, uma prevenção coletiva contra pessoas de sentimentos exagerados, dentro daquele princípio de que, mesmo nas tragédias, tiramos alguma coisa de proveito, que é o exemplo. E para que esta análise seja possível, é necessário que a imprensa, que tem a responsabilidade de retratar os fatos com fidelidade, exerça o seu papel de informar bem a sociedade sobre as impurezas da mene humana. As obras de Shakespeare, por exemplo, tinham essa finalidade, em uma época em que a melhor forma de se comunicar com o povo era através da arte cênica. Esta é a grande contribuição que o teatro deu e vem dando à ciência, ao reproduzir episódios da vida cotidiana como, aliás, fez o dramaturgo Nélson Rodrigues, em A vida com ela é.
O que não pode a imprensa fazer é dar a fatos desta relevância um tratamento comum, banal, cotidiano, registrando-os nos limites das formalidades policialescas e jornalísticas. Ora, repórter que se preze tem que esmiuçar os fatos e estudá-los para informar o público com mais qualidade. O jornalista cubano Ricardo Cardec escreve que as generalidades servem para obscurecer os fatos. Portanto, quando contextualizamos uma notícia de forma genérica, inespecífica, pouco explicativa, deixamos muitas dúvidas a serem dirimidas pelo leitor, e isso faz um mal muito grande a ele, porque o objetivo dos meios de comunicação é dissecar fatos quando estes exigem reflexões que vão além de seu registro sucinto.
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