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A insuportável liberdade do amor # Renato Janine Ribeiro

Boutons de Roses # Howard Shooter


Não é a classe social, a formação cultural ou a abertura de espírito que capacitam alguém a lidar com o ser desejado

A INSUPORTÁVEL LIBERDADE DO AMOR

Renato Janine Ribeiro* – Agência Estado


Euclides da Cunha foi um de nossos maiores intelectuais, por sua coragem de pensar. Quando soube da revolta de Canudos, atribuiu-a aos monarquistas. No sertão da Bahia, percebeu que estava errado. Sua coragem de rever o erro valoriza sua obra-prima, Os Sertões. Mas não teve essa grandeza em sua vida pessoal. Casou-se com a filha de um líder republicano. O casamento, porém, não foi feliz. Ele não deu à jovem Ana o amor que ela queria. Ela se envolveu com o tenente Dilermando de Assis. Sabe-se o final da história. Em agosto de 1909, Ana deixa o marido pela última vez. Euclides invade a casa de Dilermando, gritando que vem matar ou morrer. É morto. Dilermando é absolvido.
Por que evocar essa história – que mostra como um grande intelectual foi tão infeliz em sua vida amorosa – quando o assunto da semana é o pai que se matou com o filho pequeno, ao não suportar o fim do casamento? Porque não é a classe social, a formação cultural ou a abertura de espírito para a ciência que capacitam alguém a lidar com o que é difícil no amor, em especial a rejeição.

A tragédia recente é de um pai que não aguenta viver sem a mulher. É imperdoável ele ter matado o filho, ato cruel e odioso. Mas seu suicídio, como o filicídio, decorrem da dificuldade de aceitar a liberdade no amor, no caso, o direito da mulher a seguir seu rumo.

A liberdade no amor não é fácil. Quando concebi um programa a respeito para a TV Futura (que pode ser baixado em www.futuratec.org.br), alguém me sugeriu tratar de casamentos abertos. Recusei. Nada tenho contra quem é feliz numa relação permanente com eventuais casos paralelos. Mas liberdade no amor não é fazer exceções à relação principal. Liberdade no amor é estar livre no (e não do) casamento. É uma realização com o outro.

Comecemos pela falta de liberdade no amor, que existe quando não se consegue tratar do que é mais íntimo. Se tenho uma companheira, espera-se que seja a pessoa mais próxima de mim no mundo, e que tenhamos uma aliança, uma cumplicidade. Se não, é porque algo vai mal. Se não conseguirmos conversar a respeito, piora.

Conversar é uma arte conquistada. Há duas formas de conversa. Uma se desenvolveu na Europa do século 17. É a conversa em sociedade, até mesmo superficial, mas que é condição para o encontro com estranhos ser agradável e a vida social, um prazer. Mas há outra conversa, que é a íntima. Ela inclui assuntos penosos. Um casal pode passar por problemas sexuais, como a redução ou perda do desejo pelo outro. Abordar esse tema é árduo, mas geralmente é melhor fazê-lo antes que um dos parceiros procure uma terceira pessoa.

O que agrava as coisas é que, hoje, toma-se por sinceridade o que é só agressividade. Alguns acham que “dizer o que vem à cabeça” é o mesmo que abrir o coração. Não é. Com frequência, a primeira resposta a algo difícil é a reação agressiva de quem deseja livrar-se de uma situação incômoda. Ofender o outro não é ser sincero. É, apenas, ofender.

Que maturidade é preciso para viver a liberdade no amor? Gilberto Gil, ironizando o slogan da ditadura “Brasil, ame-o ou deixe-o”, recomendava: “O seu amor/Ame-o e deixe-o/Livre para amar./O seu amor/Ame-o e deixe-o/Ir aonde quiser”. Significa aceitar que uma relação de amor é uma relação de certo risco. Não sabemos se e quando pode terminar. Por isso, é preciso investir nela, e o investimento é afetivo. Por isso Euclides, inteligente e corajoso, não foi o marido adequado para uma mulher que queria um homem alegre, o que ele não era.

O espantoso não é que Euclides, quando não havia divórcio no Brasil e o preconceito era fortíssimo, escolhesse ser assassinado com tanta vida pela frente (pois sabia que Dilermando era bom atirador). O espantoso é que tragédias dessas continuem acontecendo, quando a separação se tornou quase banal, afetando boa parte dos casamentos no mundo.

Talvez haja aqui algo bem difícil. Uma das maiores realizações que se espera da vida é o encontro de um amor de verdade, intenso, pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão – do grego pathos, que designa a situação em que sou passivo (em oposição à ação) e minha razão fica inibida – não é boa juíza de caráter ou de relações, como tem frisado Flavio Gikovate. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu “eixo”) sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. O amor apaixonado não substitui minha obrigação de saber quem sou, o que eu desejo, o que vou fazer. Mas, como a paixão não é amor, isso não reduz o sentimento mais profundo pelo outro. Apenas coloca na ordem do dia uma questão que afronta o consumismo afetivo de nosso tempo: a necessidade de converter o entusiasmo passional, que leva ao erro, em amor. A mídia fala muito em paixão, pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que “foram felizes para sempre” só é possível com o amor, não com o fulgor passional.

*Professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo


Via:
http://blogdofavre.ig.com.br/

Exibições: 119

Comentário de Cafu em 24 novembro 2009 às 0:10

Oi Dirce,
Tentei assistir ao programa Liberdade no Amor e na Amizade que o Renato Janine cita acima, mas o Futura é muito complicado para acessar. E eu não sou instituição (ainda bem)...
:(
Beijos.
Comentário de Anarquista Lúcida em 24 novembro 2009 às 1:32
Cafu, tema difícil esse... A maior coragem é se arriscar a amar muito, porque a gente passa a ser ou nao ser dependendo da resposta do outro. Por outro lado, se nao se corre esse risco, isso tb dá muito vazio...
Comentário de Cafu em 24 novembro 2009 às 9:50

Anarquista,
Poesia é risco. Amor, também. Ela é a liberdade da linguagem. Ele é a liberdade do Ser.
Beijos.
Comentário de Anarquista Lúcida em 24 novembro 2009 às 12:49
Uma liberdade que dá vertigem...
Beijos
Comentário de Cafu em 24 novembro 2009 às 13:06


AMAR É...


SER

LIVRE

COM

OUTRO

SER

LIVRE


:)))))))
Beijos, guria.
Comentário de Cafu em 24 novembro 2009 às 14:33
Que saudade dos seminários organizados pelo Adauto Novaes, dos professores e colegas do Núcleo de Filosofia Sônia Viegas e da própria Sônia que nos ensinava:"a filosofia nasce da poesia e aspira voltar para ela"...
Pensar o amor não é incompatível com viver , poetizar e sentir o amor. O Banquete do Platão que o diga.
Beijos e obrigada pela ótima contribuição.
Comentário de Cafu em 24 novembro 2009 às 16:39
KKKKK.
É um belo inventário de concepções sobre o amor que não envelheceu. Eu considero uma das páginas mais belas da filosofia de todos os tempos. Meu ex-núcleo, em BH, uma vez promoveu um seminário sobre O Banquete, que foi analisado sob diferentes perspectivas: psicanálise, linguagem, arte, antropologia, filosofia. Foi bom demais!
Beijos.
Comentário de Cafu em 25 novembro 2009 às 23:24
Simone,
Que presentão! Muito obrigada. Deu a maior vontade de reler O Banquete .Eu passei minha coleção Os Pensadores para a nora, mas posso pedir o Sócrates emprestado por um tempo.
Seu texto me fez lembrar como faz falta na minha vida as aulas e debates sobre filosofia e poesia. Era meu grande tesão. Cheguei até a fazer 2 semestres de grego antigo, para entender melhor os textos e algumas palavras-chave. Aí mudei de cidade e tive que interromper os estudos. O núcleo, que resistia com muita bravura às dificuldades financeiras e de infra, logo depois teve que fechar as portas. Tenho certeza que para muitos ex-alunos ficaram as melhores lembranças e um aprendizado muito rico.
Beijos de gratidão.

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