A inutilidade de certas agendas e suas conseqüências

Meus caros amigos, estava eu em um seminário no Chile, há duas semanas, quando fui submetido a uma daquelas provas de falta de apreço civilizatório que são os almoços com direito a palestras. Assim, entre o meu bife e a apresentação sobre as maravilhas do modelo competitivo do mercado elétrico norueguês, fiquei com o primeiro. A razão da vitória do bife sobre o modelo dos nossos irmãos nórdicos é o simples fato de que, como é do conhecimento do mundo mineral, o decantado modelo do pool que reunia Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca funcionava muito bem até ser defrontado com a necessidade de expansão do sistema. A partir daí, as dúvidas sobre o sucesso do modelo do Nord Pool cresceram, e essa experiência passou a ser mais um retrato na parede. Diagnóstico este a que, naturalmente, chegou o simpático professor norueguês ao final da sua palestra, que coincidiu com o final do meu bife.

Considerando que o grande desafio dos países emergentes é justamente a viabilização da expansão do sistema, os ensinamentos aportados pela experiência liberalizante dos nórdicos são fatalmente modestos. Assim, sugiro aos amigos que, diante de situações incontornáveis como estas, nas quais tenham que escolher entre uma agenda inútil e um bom bife, fiquem com o bife.

Contudo, para que esse conselho não caracterize uma simples falta de educação acadêmica tupiniquim, gostaria de apresentar as razões que me levam a ele.

Durante a década passada o grande mote no mundo da energia era a liberalização dos mercados. O mundo girou, a lusitana rodou, e a vaca foi solenemente para o brejo. Essa caminhada ao brejo iniciou-se nos primeiros anos do novo milênio com a crise da Califórnia, o escândalo da ENRON e o blecaute da costa leste americana; apressou o passo com o racionamento brasileiro; pegou embalo com a disparada dos preços do petróleo; para, finalmente, se chafurdar na lama da grande crise financeira que explodiu no ano passado.

Desde 1988 eu discuto a reforma liberal nos mercados de energia. De um jeito ou de outro, essa foi a minha agenda intelectual. Como nunca consegui me sentir a vontade com a idéia de que um mundo da energia inteiramente novo havia surgido nos anos 1990s, e, portanto, o que havia acontecido antes disso não tinha a menor relevância, minha relação com as propostas reformistas sempre foi difícel. Quanto mais ampliava o foco da análise e incorporava a evolução da indústria de energia, principalmente o caso da energia elétrica, ao longo de toda a sua história, mais fortalecia em mim o sentimento de que a proposta de liberalização desses mercados carecia de fundamentos conceituais e práticos. Na verdade, eles eram superficiais, incompletos, pedestres e repousavam, por um lado, no exercício acrítico de uma fé nos mecanismos de mercado e, por outro, na prática do mais puro oportunismo de determinados agentes que identificavam ganhos imediatos, sem a menor avaliação sobre as graves conseqüências futuras, no apoio às teses de liberalização dos mercados de energia.

Nesse sentido, o Grupo de Economia da Energia do IE/UFRJ foi um dos poucos grupos de pesquisa que apoiou as mudanças no marco institucional do setor elétrico brasileiro em 2003. Isso se deu pelo simples fato de que a gente vinha acompanhando o debate internacional sobre o tema, que indicava que a vaca já havia subido no telhado. Contudo, as viúvas do fracasso ainda tentaram carpir o defunto do racionamento durante algum tempo. Porém, dada a esbórnia em que se encontrava o setor elétrico, a discussão não se sustentou; premida pela velha máxima de que, no mundo da energia, não há argumentos contra o sucesso, tampouco justificativas a favor do fracasso. Não deu certo, muda a estratégia e ponto final. Na linguagem da galera: perdeu!

Entretanto, apesar da vaca já estar desabando do parapeito, foram necessários mais cinco anos de artigos e notas em blogs, chamando a atenção de que a mudança brasileira de 2003 foi necessária e que, em si, não era nem mesmo original, quando se olhava para o que estava acontecendo no mercado elétrico americano e no europeu. Com o adendo de que a experiência liberalizante européia devia ser vista com cuidado para não levar gato por lebre. Afinal, o que Bruxelas queria ia continuar querendo. Pelo menos enquanto existissem os chamados grandes campeões nacionais como a EDF francesa ou a E.ON alemã. Em outras palavras, nesse caso, a política energética da Comunidade Européia ia em uma direção e as políticas energéticas dos Estados Nacionais em outra.

Espero que agora, com a crise da mãe de todas as liberalizações, a ficha dos meus colegas liberais finalmente caia. Afinal, pra tudo tem limite.

Porém, devo confessar para vocês que não me sinto satisfeito. Constato que, mesmo incomodado com a agenda liberal, perdi um grande tempo da minha vida discutindo um monte de bobagens. Nesse sentido, não se deve perder de vista o poder de exclusão que tem uma agenda ruim, porque, querendo-se ou não, é ela que estrutura o debate, querendo-se ou não, é ela que define os termos desse debate, querendo-se ou não, é ela que determina o quê será discutido e o quê não será.

Desse modo, hoje eu sou um especialista em um fracasso. Posso sustentar uma sólida argumentação de como se constrói um fracasso; porém, será que sou capaz de sustentar uma argumentação de como se constrói um sucesso?

Digo à minha mulher que eu sou um médico que conhece várias maneiras de não se curar uma doença. E, por favor, não me venham com aquela história de que fazendo errado também se aprende. A contraposição a esse argumento se encontra em uma história emblemática no nascimento da indústria elétrica.

No processo de invenção da lâmpada, Edison experimentou um número infindável de filamentos até encontrar o mais adequado. Dessa forma, ele identificou milhares de maneiras erradas de fazer a lâmpada elétrica antes de encontrar a certa. Contudo, Tesla não fez milhares de vezes o sistema elétrico das cataratas de Niágara, que derrotou o sistema proposto por Edison e fundou, de fato, a indústria elétrica tal qual a conhecemos. Tesla concebeu e executou o sistema uma única vez. E certa.

Assim, Edison era perseverante, porém, Tesla era genial. A agenda de Edison só ia até a lâmpada. A agenda de Tesla alcançava todo o sistema. Por isso, uma boa agenda faz diferença, sim!

Eu espero que a nova geração tenha uma agenda melhor do que a minha, porque, meus amigos, não existe coisa pior pra quem quer melhorar o seu futebol do que ficar marcando jogador ruim.

Porém, como diz um amigo, na vida nada se perde. Pelo menos agora tenho bons argumentos teóricos para escolher o bife.

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Comentário de Edmar Roberto Prandini em 12 abril 2009 às 14:30
Excelente texto, excelentes exemplos, excelente o posicionamento!

Parabéns!
Comentário de Ronaldo Bicalho em 12 abril 2009 às 18:27
Prezado Cristovam,

Considero importante a sua colocação porque ela permite aprofundar a discussão.

Você tem razão quando diz que Edison formulou um modelo; porem, que modelo era este?

Aquele que ele havia desenvolvido no seu laboratório do Menlo Park para chegar à lâmpada. A Pearl Street station, a primeira central elétrica americana, é um prolongamento da experiência do Menlo. Uma extrapolação; um scaling up.

No entanto, como agenda para a Indústria elétrica nascente, ela é restrita. É restrita, justamente, porque Edison está encaixotado na solução de um sistema com uma única tensão (100 V) que usa corrente contínua.

Nesse esquema, os sistemas são naturalmente limitados espacialmente, portanto, a solução é construir vários sistemas independentes. Nesse caso, não há oportunidade para a exploração de economias de escala; em conseqüência, os espaços para a redução dos custos/tarifas é limitado.

Para Tesla, os sistemas têm de operar em várias tensões, em corrente alternada, de forma a agregar todas as cargas em um único sistema de geração. Dessa forma, abre-se espaço para a exploração de economias de escala e para reduzir substancialmente custos e tarifas.

Portanto, são duas agendas, sim! Agendas que se defrontam no nascimento da indústria elétrica na chamada batalha dos sistemas.

A vitória da agenda de Tesla funda a Indústria elétrica como a conhecemos hoje. Sem ela, a eletricidade teria continuado a ser um bem de luxo, e não o produto sofisticado que tem o maior grau de difusão e uso no mundo.

Aqui não se trata de retórica, ou distorção oportunista em cima dos mortos, trata-se de ter clareza sobre os elementos essenciais da indústria elétrica que já estão presentes no seu nascimento.

O discurso mercadista no setor elétrico passa por cima das especificidades dessa indústria, a partir de uma simplificação retórica, considerando que a eletricidade é uma mercadoria como outra qualquer e que o mercado elétrico é um mercado como outro qualquer. Isto não é verdade!

Aqui não se trata de promulgar distorções em nome dos mortos, mas, de promulgá-las em nome dos vivos. Na verdade, em nome dos muito vivos.

O bife da palestra eu posso ter demorado três dias para digerir, porém o conteúdo da palestra eu demorei vinte anos para digerir. Depois disso, não aceito mais certo tipo de simplificação, ancorada em uma visão puramente ideológica, com roupagem de independência técnica.

Prestar atenção na realidade é construir modelos que respeitem as características essenciais do objeto, e não abstraí-las em uma simplificação que é, no mínimo, desonesta em termos intelectuais.

Assim, prezado Cristovam, obrigado pela sua colocação que permite uma certa polêmica que sempre é bem-vinda no debate.

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