A LABORIOSA E FATIGANTE FAINA DIÁRIA DE UM APOSENTADO

               A LABORIOSA E FATIGANTE FAINA DIÁRIA DE UM APOSENTADO

    Oito horas da noite de uma sexta-feira, cá estou eu, pensativo, em conversa com minhas abotoaduras de ouro. Houve tempo em que eu conversava com meus botões. Hoje não! Gozando de polpuda e generosa aposentadoria, recebendo enormes dividendos de ações adquiridas durante a vida ativa e vultosos rendimentos por aplicações de capital amealhado não muito honestamente, hoje converso com minhas abotoaduras de ouro. Abandonei os pobres botões madreperolados. Vez por outra, em meus devaneios vespertinos, após estafante dia de “não faz nada”, costumo enlaçar-me com minhas gravatas italianas, de seda, a remoer recordações de luxuriosas noitadas.

    Comecei a fazer um resumo do dia. Após repousante noite de sono, acordei um pouco mais cedo. Acordei-me não! Fui acordado! Minha esposa levantou-se mais cedo e a movimentação dela no quarto me despertou. Hoje é dia de vir a moça que faz a faxina geral na casa. Levantei-me, tomei banho, barbeei-me e fui tomar o costumeiro e frugal café da manhã. Um copo de leite, um pãozinho francês com manteiga, duas fatias de pão de forma com uma fatia de presunto e outra de queijo prato, uma pera, um mamãozinho papaia, três pães de queijo, três bolachinhas champanhe e finalmente, uma generosa chávena de café capuchino. Tinha bolo de mandioca também, mas pensando na glicemia, reneguei-o. Pensei um bocado no que fazer e resolvi ir lá para o quarto do fundo e tirar mais uma soneca. Coisa pouca! Só mais uma horinha de sono.

    Após a soneca, sentei-me frente ao PC, olhei meu mapa astral e fiz meu horóscopo. Seria um bom dia. Tudo correria a contento. Sem lugar para ficar, pois seja lá onde for que eu estivesse lá vinha a moça com o balde e o esfregão, resolvi sair. Fui, como de praxe, encontrar os amigos na padaria. Não deu para ficar. Estavam lá dois energúmenos conversando em política. Dirigi-me lá para o bar do Alaor, frequentado por “veinhos como eu”, a maioria viúvos. Deu para passar mais de uma hora em agradável bate-papo, até que chegou um tal de Oldevandes, (isso lá é nome que se preze?) viúvo que recentemente enrabichou-se com uma “morenaça”, que carinhosamente tem lhe ajudado a gastar os cobres da aposentadoria. O cara começou a contar proezas sexuais dele e da tal enrabichada. Tem coisa mais chata que um velho gabando-se de atletismos de alcova e acrobacias de “boudoir”? Fui embora almoçar.

     Depois do almoço, que por sinal, não saiu do trivial: espaguete à bolonhesa com atum, lombinho à granadine e alguns caquis de sobremesa, outra repousante soneca. Hora e meia. Apenas para esperar o resultado do jogo do bicho. Arrumei-me e saí de novo. Fui lá para a praça do meu padrinho, encontrar-me com o Clauberto, o Sinfrônio e o Diocésio. Modéstia a parte, em se tratando de nomes de colegas vagabundos, como disse lá aquele ex-suposto sábio FHC, eu sou dez. Quanto ao negócio de “praça do meu padrinho” eu devo explicações. O seguinte é esse: a praça chama-se João de Barros. Foi um dono de venda, daquelas que vendiam gêneros a granel, fumo de rolo e todo tipo de secos e molhados. Foi meu padrinho de batismo. Ser meu padrinho, para ele, já era a glória, mas ele foi também pai de um fazendeiro que virou empresário e que se fez prefeito. Aí, né? Agora é praça! Meus companheiros de “nada a fazer na vida” estavam lá. Conversamos até entardecer. Saí dali, passei na locadora, peguei um filme bem cult, capaz de satisfazer meu superior intelecto: “O bicho vai pegar” e vim embora.

Agora, terminado o filme, estou aqui, todo cogitabundo, aguardando a entrada do Fluminense em campo, nas quartas de final da copa SP de futebol Jr. Vou assistir ao jogo, depois cear. Recolher-me-ei ao leito, para mais uma reconfortante noite de sono, tranquilo, com a consciência leve e aquela agradável sensação do dever cumprido.

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Comentário de Marco Antônio Nogueira em 23 janeiro 2012 às 16:35

EURÍPEDES,

 

“Bueníssima” esta sua crônica.

Esta é a vida de um sábio aposentado,

pra servir de exemplo àqueles que

ainda não o são. Mas, comigo é um

pouco diferente: as horas que você

perde em sono eu as ganho aqui

na Internet.

Aliás, você conhece aquela de

Tancredo?

Perguntaram-lhe quantas horas

ele dormia.

Ele: - 3 horas.

- Mas, é muito pouco, Governador!

- E pra quê dormir muito? Quando

  se morre tem-se a eternidade.

 

Mas, estou cá pensando: você é

muito antigo, Eurípedes. Esta

palavra que você usou aí

- FAINA – como se diz lá em

nosso Triângulo Mineiro,

é mais antiga do que andar

pra frente. Lembro-me de só

tê-la ouvido quando eu

tinha 06 anos de idade.

E numa situação que jamais

esqueço. Seguinte: em minha

turma de moleques havia um

que era FANHO. E toda vez

que ele vinha se aproximando

um daqueles maldosos já

Ia lhe pedindo: Fale FAIANA.

Até que um dia o FANHO,

de tão humilhado e revoltado

arrebentou com o atrevido.

 

Agora, falando sério, amigo,

continue a nos brindar com

suas crônicas. São valiosas.

 

Ah, não daria pra você narrar

aqui como foi a vida do

Dr. Adib Jatene, quando morou

aí em Tupaciguara?

Sabemos que antes de

Ir pra Uberaba ele passou

por aí.

 

Abração,

 

Marco Nogueira

Comentário de Marco Antônio Nogueira em 23 janeiro 2012 às 16:44

EURÍPEDES,

Acabo de divulgar

esta sua crônica na

Confraria Mineira de Cultura.

Abraço,

Marco Nogueira

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