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A Lira da Vila: sassaricando no carnaval em Sampa

Ainda é um homem bonito, daqueles que não se sabe a idade. Negro de barba, tocando pandeiro e puxando samba, afinado, boa voz, na mesa do bar no carnaval da Vila Buarque, em São Paulo. Vai sair o bloco Lira da Vila.
É um sem-teto, me dizem.
“Vai-Vai entra na avenida hoje às 5 da manhã, êta! Alô bateriaaaa!”, ele grita.

Era da Vai-Vai, sabe lá o que aconteceu com ele.

E canta a linda música de Geraldo Filme, o inesquecível sambista paulistano, um dos fundadores da escola:

“Siêncio no Bexiga”

Silêncio, o sambista está dormindo
Ele foi, mas foi sorrindo
A notícia chegou quando anoiteceu
Escola, eu peço o silêncio de um minuto
O Bexiga está de luto
O apito de Pato N'água emudeceu
Partiu
não tem placa de bronze não fica na História
Sambista de rua morre sem glória
Depois de tanta alegria que ele nos deu
E assim
O fato se repete de novo
Sambista de rua, artista do povo.

E foi mais um que foi sem dizer adeus”


E Adoniran, Cartola, e tanta música boa. E histórias.Conta o Jorge:
“Uma vez alguém disse pro Cartola que ele tinha inventado uma rima errada, não me lembro qual. E ele respondeu: “Mas como, se essa palavra eu tirei do padre”. Sabe qual era o padre? O Antonio Vieira”.
E dá-lhe samba e também as tradicionais do carnaval: ”Eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato”.

Do lado aparece uma requebrante figura magra, branco-neve, de colar de havaiana e não sai mais. De onde surgiu esse?
Pelo segundo ano o Lira da Vila bota o bloco na rua, camiseta branca com uma lira azul no meio e a letra do enredo nas costas.

Todo mundo é do bairro? Não, tem gente de Pinheiros, do centro, de vários lugares. Na sexta, juntou famílias com carrinhos de bebês e doidos das mais variadas tribos, cantando marchinha, acompanhando um carrinho puxado manualmente, e pra quê mais?
"Aqui não tem axé nem pagode ruim", dizem orgulhosos.

E enquanto no sábado, o bloco não sai, será que sai, ora garoa, ora faz sol, vai chegando gente com a camiseta, um fantasiado de cigano, outro, um finlandês de terno preto e chapéu idem, com dois copos de bebida diferente em cada mão. Um japonês, outro pernambucano, Marciano, dono da livraria Metido a Sebo, que além de toda hora pacientemente abrir o estabelecimento pras moças fazerem xixi, traz de lá sua garrafinha de cachaça das boas e serve a todos.

Passa o caminhão de lixo, o batuque tá animado, os garis executam sua ágil coreografia e aproveitam para sambar um pouquinho, tão rápida passagem.

Dos prédios, na sexta, me contam, jogavam confete e aplaudiam, “e a gente pensava que os vizinhos iam reclamar do barulho”.

Estão lá, felizes, o dono do boteco da esquina da Dr.Vila Nova com General Jardim se abasteceu dessa vez, na sexta faltou cerveja.
Ali do lado, a Biblioteca Monteiro Lobato, que reúne sempre o pessoal da Sosaci, a associação em defesa do saci. A programação musical de lá ainda se mistura um pouco com o batuque do bar, e o temível jornalista José Ramos Tinhorão reclama: “nem no carnaval esse pessoal toca música brasileira!”.

Tinhorão, jornalista polêmico do Jornal do Brasil dos anos 70 é um freqüentador assíduo do pedaço, grande pesquisador da cultura urbana, com 26 livros publicados. Acompanhou o bloco na sexta até as 23 horas, com seus 81 anos, e o pessoal continuou depois, até as 5 da matina.

Do antigo prédio do Estadão, na Major Quedinho, partiu outro bloco, contam. E na Vila Madalena, tem uma pá deles.
Inclusive a Associação Etílico Musical da Vila, cuja eu conheci outro dia.

É assim, o que é bom não morre, é resgatado mais cedo ou mais tarde.

“Misto de exibicionismo e de chamariz para o turismo sexual, Carnaval não é. A música, samba não é”, diz Janio de Freitas no jornal de domingo, procurando um nome para a antiga festividade. E tem razão.

Mas fora esta, montada para o comércio e para a mídia, a outra sobrevive, na Bahia, em Pernambuco, Minas Gerais, norte, sul e centro-oeste, nos interiores, nas cidadezinhas, e até em alguns bairros de Sampa.

Porque, afinal

Sa –sa –sa-ricando, todo mundo leva a vida no arame.
Sa-sa–saricando, o brotinho, a viúva e a madame
Sentaram no ovo de Colombo
Foi um assombro sassaricando
Quem não tem seu sassarico
Sassarica mesmo só
Porque sem sassaricar
Essa vida é um nó...

Exibições: 59

Comentário de Graúna, ó xenti!!!! em 23 fevereiro 2009 às 7:03
...tinha intenção de abrir um Fórum com o "Bloco do Blog", pedindo pra que as pessoas colocassem marchinhas & ritmos afins... Mas, como ocê apertou o gatilho primeiro... entro no seu bloco, he, he...


Ride palhaço
K K K K K K
K K K K K K
K K K K K K
kkkk (2 vezes)

Eu sou seu Pierrô
colombina, colombina
reparte esse amor
metade pra mim
metade pro seu Arlequim
Comentário de elizabeth em 23 fevereiro 2009 às 12:25
serviço secreto da Abin?

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

adorei
Comentário de Graúna, ó xenti!!!! em 23 fevereiro 2009 às 17:31
Graúna hoje não tem labuta, he, he... tá de folga de todos os lados (A; B; C; D...)

Ela vai queimar os ácaros, digo, dar um trato às penas & refrescar as plumas na praia, CLARO, que disfarçada com seu “Serviço SECRETÍSSIMO”...

Saudações ensolaradas \♥/

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