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As descobertas arqueológicas do mundo antigo até hoje despertam a curiosidade de leigos e estudiosos. A arquitetura e a engenharia das Grandes Pirâmides egípcias, construídas há, mais ou menos, 4.500 anos, bem como os Zigurates e grandes palácios da Mesopotâmia, sempre maravilharam a imaginação ocidental. Mas, sem dúvida, as descobertas mais importantes do Oriente Médio Antigo estão relacionadas à decifração da escrita dos povos que lá habitavam: o hieróglifo dos egípcios, que indiretamente originou a maioria dos alfabetos hoje conhecidos, e o cuneiforme dos mesopotâmicos. As duas escritas forneceram dados importantes sobre diversos aspectos daquelas sociedades, como a organização social, religião, assuntos mercantis, ciência, arte e etc.

O presente artigo refere-se a um aspecto da cultura da antiga Mesopotâmia (região que hoje corresponde, principalmente, ao território do atual Iraque), que, sem dúvida, não é dos mais importantes para compreensão dessa civilização, mas reflete de certa maneira o grau de complexidade alcançado por ela. Trata-se da culinária da antiga Mesopotâmia. Graças ao trabalho do Professor J. Bottéro, reproduzido resumidamente no livro “Ancient Iraq” de Georges Roux, podemos ter uma pequena noção dessa cozinha, cuja descrição foi encontrada em documentos escritos em tabletes de argila, nas ruínas do grande palácio de Mari, localizado em Tel Hariri na Síria, referentes ao período entre 1800 -1700 A.C. Tal palácio é conhecido pelos arqueólogos como “a jóia da arquitetura oriental arcaica”. A fama de sua beleza era tanta, que o filho do rei de Ugarit (hoje Ras-Shamra, na costa Síria), a pedido de seu pai, viajou 600 km com o único propósito de conhecer a “casa de Zimri-Lim,” nome do rei que governava Mari naquele período.
Segue, abaixo, alguns detalhes dessa culinária, descritos com as próprias palavras do Professor Georges Roux; surpreendentes devido à variedade de alimentos, ao refinamento de seu preparo, bem como, a sua antigüidade, e, que, segundo J. Bottéro, pode ser considerada “a mais antiga culinária do mundo”.




“A partir do período de Hamurabi (1800-1700 A.C.), a arte de preparar os alimentos ou de embelezá-los era perfeita e o cozinheiro (nuhatimmun) era um artista talentoso. Segundo os documentos encontrados nas ruínas de Mari, havia grande variedade de utensílios usados para o preparo dos mais diversos pratos. Os alimentos podiam ser fervidos em água, algumas vezes misturados com gordura, no vapor, assados ou cozidos sobre brasas. Outro detalhe interessante era quanto a maneira de adicionar uma variedade de ingredientes na mesma mistura, produzindo, assim, sabores raros, apresentando iguarias perfeitas de maneiras apetitosas.

Os criados de Zimri-Lim serviam pratos acompanhados de variados tipos de carne vermelha, como a de boi ou vaca, carneiro, cabra, cervos e gazelas, bem como, peixes, pássaros selvagens, aves domésticas, na maioria das vezes grelhadas ou tostadas. As carnes também podiam ser cozidas ou guisadas em caçarolas de barro ou em caldeiras de bronze, acompanhadas por ricos molhos, condimentados com um sabor predominante de alho. Quanto aos vegetais, esses eram cuidadosamente preparados. Os mesopotâmicos apreciavam também sopas, diversos tipos de queijos, frutas frescas, secas ou cristalizadas, bolos delicadamente aromatizados de todas as formas e tamanhos, servidos com cervejas de diversas qualidades e vinho da Síria. Não há indicação exata do tempo de cozimento e da temperatura, e como não conhecemos o significado dos nomes Acadianos de certos alimentos, é impossível reproduzir esses pratos hoje em dia. Entretanto, essa culinária refinada que indubitavelmente é a ancestral da cozinha Árabe e Turca é outra prova da complexidade que a civilização Mesopotâmica alcançou no início do segundo milênio”.

A descrição acima refere-se a uma culinária praticada há mais ou menos 4.000 anos atrás, no suntuoso palácio de Mari. Sabe-se, todavia, que entre 3.000 A.C. e 2.500 A.C., ou seja, há quase cinco mil anos, já existiam grandes palácios em Ebla (hoje, Tell Mardik, norte da Síria) e em outras cidades da Mesopotâmia, e que muito provavelmente deveria haver uma prática culinária de certa complexidade, ainda mais antiga, naquela região.

Outra história relacionada à cozinha do Oriente Médio Antigo, diz respeito à origem da pizza e das massas folhadas. Segundo o professor da USP, Gabriel Bollaffi, a teoria mais importante sobre a origem da pizza, diz que os fenícios, três séculos antes de Cristo, costumavam acrescentar coberturas de carne e cebola ao pão em forma de disco (pão sírio). Os turcos posteriormente também adotaram esse costume durante a Idade Média. Com o advento das cruzadas a prática de acrescentar cobertura ao pão sírio, chegou a Italia pelo porto de Nápoles. Lá os italianos incrementaram o pão com diversos tipos de cobertura como o queijo e, mais tarde, após a descoberta da América, o tomate, desta maneira originando a pizza. Quanto às massas folhadas que hoje compõe sobremesas como o strudell, o sfogliatelli e os pastéis portugueses, sabemos que a sua origem remonta a antiga Assíria. Na época dos árabes ou dos otomanos surgiram os doces folhados como a baklawa e a fataier. De acordo com a Enciclopédia Britânica esses doces podem ser considerados como os ancestrais do strudell. Os otomanos teriam levado essas iguarias para o leste europeu, quando da invasão daquela região a partir do século XVI. Mais de cinco séculos antes, quando os árabes conquistaram a península Ibérica e o sul da Itália, estes teriam levado os doces folhados para lá; suposição embasada na semelhança que hoje vemos entre os folhados portugueses e italianos e os seus “ancestrais” levantinos.

A partir desses relatos e das suposições apresentadas podemos levantar a hipótese de que as culinárias contemporâneas, do Oriente Médio, do Norte da África, e, mesmo a culinária de certas regiões da Europa mediterrânea e do Leste Europeu, são herdeiras, em parte, da cozinha da Antiga Mesopotâmia, “a mais antiga culinária do mundo”.

Bibliografias Relacionadas
-Ancient Iraq, Georges Roux, Penguin Books, 1992.
- Enciclopédia Britãnica
-Super Interessante, n 12, dez 1997

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Comentário de Helô em 27 outubro 2008 às 15:50
Carlos
Você não imagina como gostei do seu post. Adoro cozinhar, valorizo muito uma comida bem preparada e me interesso bastante por artigos como este. Tempos atrás, li uma reportagem com Leila Youssef Kuczynski, chef do restaurante Arábia (SP), onde ela dizia entre outras coisas que "Dos afagos que um ser humano pode fazer ao outro, dar de comer é o mais genuíno". Se você quiser ler a reportagem completa, clique aqui.
Sobre os doces folheados, para mim não existem melhores que os da Confeitaria Catedral, aí no Paraíso, perto da Catedral Ortodoxa. Sempre que vou a SP tenho de dar uma passadinha por lá. É uma perdição!
Bjs.

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