A montagem de uma falácia - texto (com probleminhas...) e pdf (integral da página)

A montagem de uma falácia

Maria Sylvia de Carvalho
Franco*
O discurso de Sarney na data
emquesecomemoraademocracia
surpreendeu tanto por exumar
uma velha técnica de controle
político (os freiosàliberdade
de expressão) como por sua
retórica, tecidaemargumentos
sofísticos. Sua fala aponta uma
polaridade na vida pública
atual: o Congresso, legítimo representantedopovo,
eaimprensa,
que pretenderia essemesmo
papel. “É por essa contradição
que existe hoje, um contra o outro,
que, de certo modo, amídia
passou a ser uma inimiga do
Congresso,umainimigadasinstituições
representativas.”
Afalácia desse enunciado está
namontagem deumacontradiçãoapartirdeproposiçõesparalelas:
Congresso e imprensa
reclamando representar o povo.
Imortal que é, Sarney deveria
melhor conhecer o vetusto
conceitoquemobilizou,relevante
na cultura antiga e no pensamento
moderno. A contradição
envolve componentes irredutíveiseintrinsecamenteconstitutivosumdo
outro: por exemplo,
a tensão do arco e da corda, forçascontráriasesimultâneas,
resultanomovimentoquedispara
aflecha(Heráclito);Creonteimpõe
leis seculares e Antígona
postula deveres ancestrais: ambos
desafiam valores antinômicos
eaomesmotempolegítimos
(Hegel); o capitalista inexiste
sem o trabalhador... (Marx). O
imagináriodaimprensaeacompetência
do Senado não são ao
mesmo tempo antagônicos e
imanentes um ao outro, não geram
contradição. Sarney passa
diretamente da suposta analogia
entre imprensa e Congresso
paraoconflitoentreambosedaí
para a contradição, produzindo
um raciocínio aparentemente
verossímil,masinverídico.Retórica
ardilosa.
Não pela simetria dos fins,
maspor seu reverso, Congresso
e imprensa podem, isto sim, entrar
em oposição. O jornalismo
possui a força de representar o
povo na medida que revela, por
exemplo, a opinião pública escandalizada
pela corrupção e
conduta indecorosa de parlamentares.
Entretanto,noplanohistórico,
aimprensaquereclamoupara
si a representação popular
paradoxalmente negou esse
projeto. Dizendo-se autônoma
faceaoEstado,apartidospolíticos
e a gruposde interesses, essa
linha jornalística elegeu, como
alvos, objetivos públicos
abstratos e verdades formais,
empenhando-se em registrar o
mundodemododistanciado, independente
da dinâmica sociopolítica
neleemcurso.Aobjetividade
assim vista fundaria a
imprensa democrática, representativa
do povo que não mais
se reconhece nos partidos políticos
frágeis e poderes estatais
desvirtuados. Alegando saberes
e instrumentos de pesquisa
superiores,essavocaçãoprofissional
aspirou chamar a si os
olhos e ouvidos de um público
cego, surdo, emudecido, entendendo
informar e ser porta-voz
de cidadãos passivos e privatizados,
alheios à vida coletiva.
Para Walter Lippmann, (Public
Opinion, l922) figura central no
moderno jornalismo americano,
não há uma opinião publica
informada e os eleitores são incompetentes
para dirigir assuntos
públicos. O telos dessa
tendência favorecida por Sarney,
velha de quase um século,
supunha uma “democracia
sem cidadãos” (Entmann). O
jornalismoindependenteecientífico,
devotado ao fato e à objetividade,
justificou-seemnome
do público e ao mesmo tempo
reduziu-o a um fantasma (cf.
Th. L. Glasser e Ch.T. Salmon,
ThePress,PublicOpinionandPublic
Discourse).
Nãoé difícil discernir comoo
papeldaimprensarepresentantedopovoseinserenumprograma
tão autoritário quanto outras
pretensões ruinosas de esclareceremonitoraraconsciência
das massas. Ademais,emtoda
pretendida neutralidade entranha-
se a adesão aos poderosos
(M. Weber). Desse ângulo,
compreende-se a assertiva de
Sarney, cujos parâmetros foram
modulados num horizonte
tãoprepotente quantoseus próprios
discursos e atos. Nessa
luz, a epifania da imprensa como
representante do povo não
se manifesta pela contradição
com o Parlamento, como quer
Sarney, mas pelo vazio institucionaldeumpreenchidovicariamente
pela outra.
Nem tudo, porém, é assim
tosco no debate sobre a censura
à imprensa, onde ressalta a
Areopagítica, escrita por Milton
ao ser renovado (1643) o requisitodelicençaparaacirculação
de livros, imposta pelo LongoParlamento.
Antes(1641), esse
mesmo Parlamento havia
abolido a Star Chamber, que
agia como censora.
Milton coloca comoepígrafe,
nesse texto, uma fala de Teseu,
nas Suplicantes, de Eurípides,
ampliandoumpoucootextogrego
(cf. 438 sg. ed. G. Murray):
“Esta é a verdadeira liberdade,
quandoahomenslivres,/devendoaconselharopúblico,
épermitido
falar livremente./Aquele
que pode e deseja, merece eminente
louvor;/Àquele que não
pode,nemdeseja,épermitidoficarempaz:/
Oquepodesermais
justonum Estado, que isto?”
O contexto mais amplo onde
se inscreve esse trecho é uma
críticaà tirania, nos termos correntes
no século 5º a.C. (exclusão
dos melhores, solidão, lisonja,
desmesura, lascívia) amplamente
retomados desde o Renascimento.
Eurípides acentua
a distinção entre o domínio de
um só e o livre governo pelo povo:
importânciadodiscursoeda
persuasão em lugar da violência,
constituiçãoigualitáriadacidade,
consulta ao povo não só
nas decisões internas,comonas
tratações com o inimigo, invocando
o respeito aos códigos comunseàsleispan-
helênicas.Esgotados
os recursos pacíficos,
desencadeia-seaguerra.Natramadeprudência
tecidaaolongo
da peça, esse é umensejo para o
bravoecautelosoTeseucontrastar
a selvageria do combate e as
instituições políticas. À violência
belicosa opõe-se à racionalidade
civilizada, mas a primeira
não é descartada.
A guerra enquadra a tragédiadeEurípideseotextodeMilton.
Este se colocou a serviço
dosprincípiosrepublicanoseassistiu
à sua derrocada, sempre
seopondoaogovernomonárquico.
Noperíodoemque escreveu
Areopagítica, já prenunciava a
emergênciadeumanovatirania
em que depositara as promessas
de liberdade civil e religiosa.
Suaprisão foidecretada, seuslivros
queimados.
Apesar disso, uma aragem
de esperança irradia da Areopagítica.
Milton confia no diálogo,
recusa a lisonja aos poderosos,
acusa energicamente a censura:“
Quemmataumhomem,mata
uma criatura de razão ...
quem destrói um bom livro mata
a própria razão”. A defesa do
livro é perpassada de um veio
prazeroso,algo satírico: “Livros
são como as carnes e os alimentos,
uns são bons, outros de má
substância”, tendo Deus deixado
ao homem sua escolha. Ao
ampliar a dieta do corpo humano,
mantendo as regras de temperança,
Ele também deixou ao
arbítrio do homem o regime de
nossas mentes. O poeta recusa
uma virtude enclausurada, estranha
a seu adversário, o mal,
ressaltandoosbenefíciosda“leitura
promíscua” de livros, afirmando
sua ética mundana.
Compreende-se que Milton,
escritorquebuscaa“humanidade
elegante da Grécia”, que não
temeoabismodoterroreosublime
da beleza, encontre-se com
Eurípides: “O poeta deve gerar
com alegria os cantos que dá à
luz.Se ele não a experimenta, se
ele próprio é infortunado e incapaz
de deliciar a outros ele mesmo,
nãotemessedireito”.(Suplicantes,
180-183). ●
*Professora titular dos
Departamentos de Filosofia
daUnicamp e da USP

Página do estadão com o texto da MSCFranco.pdf

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Comentário de Joao Bosco Rocha em 21 setembro 2009 às 0:30
AJUSTEI PARA VOCÊ. QUE MARAVILHA DE TEXTO. COMOVENTE! A DISTINTA CONSEGUIU CHOVER NO MOLHADO E EXAROPAR O XAROPE. Aqui vai o texto ajustado:

A montagem de uma falácia

Maria Sylvia de Carvalho Franco*

O discurso de Sarney na data em que se comemora a democracia surpreendeu tanto por exumar uma velha técnica de controle político (os freios à liberdade de expressão) como por sua retórica, tecida em argumentos sofísticos. Sua fala aponta uma polaridade na vida pública atual: o Congresso, legítimo representante do povo, e a imprensa, que pretenderia esse mesmo papel. “É por essa contradição que existe hoje, um contra o outro, que, de certo modo, a mídia passou a ser uma inimiga do Congresso,uma inimiga das instituições representativas.”
A falácia desse enunciado está na montagem de uma contradição a partir de proposições paralelas: Congresso e imprensa reclamando representar o povo.
Imortal que é, Sarney deveria melhor conhecer o vetusto conceito que mobilizou, relevante na cultura antiga e no pensamento moderno. A contradição envolve componentes irredutíveis e intrinsecamente constitutivos um do outro: por exemplo, a tensão do arco e da corda, forças contrárias e simultâneas, resulta no movimento que dispara a flecha (Heráclito); Creonte impõe leis seculares e Antígona postula deveres ancestrais: ambos desafiam valores antinômicos e ao mesmo tempo legítimos (Hegel); o capitalista inexiste sem o trabalhador... (Marx). O imaginário da imprensa e a competência do Senado não são ao mesmo tempo antagônicos e imanentes um ao outro, não geram contradição. Sarney passa diretamente da suposta analogia entre imprensa e Congresso para o conflito entre ambos e daí para a contradição, produzindo um raciocínio aparentemente verossímil, mas inverídico. Retórica
ardilosa. Não pela simetria dos fins, mas por seu reverso, Congresso e imprensa podem, isto sim, entrar em oposição. O jornalismo possui a força de representar o povo na medida que revela, por exemplo, a opinião pública escandalizada
pela corrupção e conduta indecorosa de parlamentares. Entretanto, no plano histórico, a imprensa quer e clamou para si a representação popular paradoxalmente negou esse projeto. Dizendo-se autônoma face ao Estado, a partidos políticos e a grupos de interesses, essa linha jornalística elegeu, como alvos, objetivos públicos abstratos e verdades formais, empenhando-se em registrar o mundo de modo distanciado, independente da dinâmica sociopolítica nele em curso. A objetividade assim vista fundaria a imprensa democrática, representativa do povo que não mais se reconhece nos partidos políticos frágeis e poderes estatais desvirtuados. Alegando saberes e instrumentos de pesquisa superiores, essa vocação profissional aspirou chamar a si os olhos e ouvidos de um público cego, surdo, emudecido, entendendo
informar e ser porta-voz de cidadãos passivos e privatizados, alheios à vida coletiva.
Para Walter Lippmann, (Public Opinion, l922) figura central no moderno jornalismo americano, não há uma opinião publica informada e os eleitores são incompetentes para dirigir assuntos públicos. O telos dessa tendência favorecida por Sarney, velha de quase um século, supunha uma “democracia sem cidadãos” (Entmann). O jornalismo independente e científico, devotado ao fato e à objetividade, justificou-se em nome do público e ao mesmo tempo reduziu-o a um fantasma (cf. Th. L. Glasser e Ch.T. Salmon,
The Press, Public Opinion and Public Discourse). Não é difícil discernir como o
papel da imprensa representante do povo se insere num programa tão autoritário quanto outras pretensões ruinosas de esclarecer e monitorar a consciência das massas. Ademais, em toda pretendida neutralidade entranha- se a adesão aos poderosos (M. Weber). Desse ângulo, compreende-se a assertiva de Sarney, cujos parâmetros foram modulados num horizonte tão prepotente quanto seus próprios discursos e atos. Nessa luz, a epifania da imprensa como representante do povo não
se manifesta pela contradição com o Parlamento, como quer Sarney, mas pelo vazio institucional de um preenchido vicariamente pela outra. Nem tudo, porém, é assim
tosco no debate sobre a censura à imprensa, onde ressalta a Areopagítica, escrita por Miltonao ser renovado (1643) o requisito de licença para a circulação de livros, imposta pelo Longo Parlamento. Antes(1641), esse mesmo Parlamento havia abolido a Star Chamber, que agia como censora. Milton coloca como epígrafe, nesse texto, uma fala de Teseu, nas Suplicantes, de Eurípides, ampliando um pouco o texto grego (cf. 438 sg. ed. G. Murray): “Esta é a verdadeira liberdade, quando a homens livres, / devendo aconselhar o público, é permitido falar livremente./Aquele que pode e deseja, merece eminente louvor; /Àquele que não pode, nem deseja ,é permitido ficar em paz:/ Oquepodesermais justo num Estado, que isto?”
O contexto mais amplo onde se inscreve esse trecho é uma crítica à tirania, nos termos correntes no século 5º a.C. (exclusão dos melhores, solidão, lisonja,
desmesura, lascívia) amplamente retomados desde o Renascimento.
Eurípides acentua a distinção entre o domínio de um só e o livre governo pelo povo: importância do discurso e da persuasão em lugar da violência, constituiçã oigualitária da cidade, consulta ao povo não só nas decisões internas, como nas tratações com o inimigo, invocando o respeito aos códigos comuns e à sleispan- helênicas. Esgotados
os recursos pacíficos, desencadeia-se a guerra. Na trama de prudência tecida ao longo
da peça, esse é um ensejo para o bravo e cauteloso Teseu contrastar a selvageria do combate e as instituições políticas. À violência belicosa opõe-se à racionalidade civilizada, mas a primeira não é descartada. A guerra enquadra a tragédia de Eurípides e o texto de Milton. Este se colocou a serviço dos princípios republicanos e assistiu à sua derrocada, sempre se opondo ao governo monárquico. No período em que escreveu Areopagítica, já prenunciava a emergência de uma nova tirania em que depositara as promessas de liberdade civil e religiosa. Sua prisão foi decretada, seusl ivros queimados.
Apesar disso, uma aragem de esperança irradia da Areopagítica. Milton confia no diálogo, recusa a lisonja aos poderosos, acusa energicamente a censura:“ Quem mata um homem, mata uma criatura de razão ...quem destrói um bom livro mata a própria razão”. A defesa do livro é perpassada de um veio prazeroso, algo satírico: “Livros são como as carnes e os alimentos, uns são bons, outros de má substância”, tendo Deus deixado ao homem sua escolha. Ao ampliar a dieta do corpo humano,
mantendo as regras de temperança, Ele também deixou ao
arbítrio do homem o regime de nossas mentes. O poeta recusa
uma virtude enclausurada, estranha a seu adversário, o mal, ressaltando os benefícios da “leitura promíscua” de livros, afirmando sua ética mundana.
Compreende-se que Milton, escritor que busca a “humanidade elegante da Grécia”, que não teme o abismo do terror e o sublime da beleza, encontre-se com
Eurípides: “O poeta deve gerar com alegria os cantos que dá à luz.Se ele não a experimenta, se ele próprio é infortunado e incapaz de deliciar a outros ele mesmo, não tem esse direito”.(Suplicantes, 180-183).
●*Professora titular dos
Departamentos de Filosofia da Unicamp e da USP
Comentário de Roberto Locatelli em 21 setembro 2009 às 12:28
O papel da velha mídia (jornais, rádios, TVs) deixou de ser o de fiscalizar a vida pública. A velha mídia passou a ser um partido; ela se pretende no direito de destituir o Presidente da República, o Presidente do Senado, o Presidente da Câmara.

A tensão entre o arco e a corda só tem sentido se o arqueiro soltar a corda, atirando a flecha. Se a tensão persistir, fatalmente a corda se romperá, pois ela é mais fraca que o arco. Foi o que ocorreu no episódio "Fora Sarney": o PiG (Partido da imprensa Golpista) foi derrotado.

Os políticos demo-tucanos se pautam pela mídia golpista. E isso é um risco pois os objetivos de um e de outro não são exatamente os mesmos. Embora a Folha e o Estadão não passem de quadros de aviso de José Serra, os políticos precisam de votos. A mídia golpista não. Se 1% da população do Estado de São Paulo resolver assinar a Folha, o Otavinho ganhará muito dinheiro. Mas para um político, 1% não serve. Só vale 50% + 1. Ao permitirem que a mídia os comande, os demo-tucanos estão dando sucessivos tiros no pé.

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