A Música no Cinema - Bernard Herrmann (1911-1975), um dos maiores compositor de cinema que já existiu.


Trilha sonora do filme VERTIGO (Um Corpo que cai), dirigido por Alfred Hitchcock
Música composta e conduzida por Bernard Herrmann

Comentário de
J
orge Saldanha


Em 1996, o tradicional selo dedicado à música de cinema colocou no seu catálogo duas edições desta que é considerada por alguns críticos como a melhor trilha sonora de todos os tempos. A primeira é uma regravação digital com o competente Joel McNeely conduzindo a Royal Scottish National Orchestra, com quase 30 min. de música adicional em relação ao CD da Mercury, o único até então disponível, com a gravação original da trilha regida por Muir Mathieson. Em que pese a competência de McNeely como condutor, amplamente demonstrada na versão de Fahrenheit 451 para a própria Varèse, esta nova edição vale principalmente pela música adicional, incluindo a presença da faixa "The Graveyard", cuja gravação original não mais existe, e pela superiorqualidade de som. O que nos leva ao segundo CD, que contém exatamente as gravações originais do inglês Muir Mathieson. Um Corpo Que Cai, pelo seu conjunto de soluções criativas, é com justiça considerado uma obra-prima não apenas de Hitchcock, mas do cinema de todos os tempos.

Já no início da projeção, assistindo aos créditos magistrais de Saul Bass ao som do hipnótico "Prelude" de Herrmann, somos imersos em um perfeito universo "hitchcoquiano", repleto de problemas psicológicos, interpretações freudianas e, é claro, muito suspense. Sem dúvida a peça mais conhecida do score, o "Prelude" divide-se em dois segmentos: o primeiro inicia-se com os violinos, madeiras, vibrafone, harpas e celesta interpretando um ciclo aparentemente interminável de 7 notas: os metais surgem, então, para introduzir as cordas, que iniciam o segundo segmento, um motivo de 4 notas que posteriormente será desenvolvido no magistral tema de amor. Na mesma faixa, segue-se "Rooftop", agitada cena que nos apresenta a acrofobia do personagem principal, representada musicalmente por notas dissonantes, em glissando de harpa.

Para "The Dream", outro marco do score, Herrmann utiliza um tango como base, sua essência latina remetendo aos dramáticos acontecimentos ocorridos na velha missão espanhola.
É interessante notar que Bernard Herrmann, à época impedido, por problemas de produção, de conduzir sua própria obra, colocou restrições ao trabalho de Mathieson. Esta edição de 65 min. acompanhou o relançamento do filme em novas cópias, e a ausência de "The Graveyard" é amplamente compensada por 4 faixas nunca antes disponíveis: "Mission Organ", "The Streets", "The Past" e "The Girl". Apesar de, em alguns trechos, a restauração não ter conseguido mascarar os efeitos do tempo sobre as fitas originais, temos pela primeira vez, quase que na íntegra, a versão que os críticos consideram definitiva, o que nos leva a preferi-lo em relação ao CD de McNeely.


Muitos discutem se Bernard Herrmann foi o maior compositor de cinema que já existiu. Mas é indiscutível que Herrmann, graças ao seu legado em termos de estrutura musical, uso de instrumentação inovadora e estilo de composição, teve grande influência no modo como os filmes passaram a ser musicados, e conquistou seu lugar ao lado de Miklos Rozsa, Erich Wolfgang Korngold, Franz Waxman, Alfred Newman e Max Steiner na galeria dos grandes compositores da Era de Ouro de Hollywood. Nascido em Nova York no dia 29 de junho de 1911, Herrmann foi um prodígio que iniciou a compor ainda adolescente, e aos 20 anos de idade formou uma orquestra. A sua amizade com o então apenas promissor diretor Orson Welles levou-o a compor para muitos dos programas de rádio de Welles, e principalmente ao seu primeiro scorecinematográfico em 1941 - CITIZEN KANE. Nos trinta anos que se seguiram, Herrmann compôs algumas das mais inovadores e marcantes trilhas que o cinema conheceu. A filmografia de Herrmann contém tantas obras-primas que é difícil destacar alguma: THE MAGNIFICENT AMBERSONS, THE GHOST AND MRS. MUIR, THE WRONG MAN, VERTIGO, NORTH BY NORTHWEST, PSYCHO, CAPE FEAR...

Em contraste ao estilo que prevalecia em Hollywood, as trilhas de Herrmann, no lugar de luxuriantes arranjos para toda a orquestra, possuíam orquestrações incomuns, normalmente dando ênfase a uma categoria específica de instrumentos. É o caso da música de PSICOSE (1960), composta exclusivamente para cordas. Igualmente inovador foi o uso de temas breves e facilmente reconhecíveis, ao invés de melodias mais longas. Herrmann conquistou o Oscar em 1941 por THE DEVIL AND DANIEL WEBSTER, sendo também indicado por CITIZEN KANE (1941), ANA AND THE KING OF SIAM (1946), TAXI DRIVER (1976) e OBSESSION.

Herrmann e Hitch (no set de THE TROUBLE WITH HARRY)

Apesar de Herrmann ter sido um sujeito difícil e irascível, ao longo de sua carreira manteve com sucesso algumas parcerias com diretores e produtores. De fato, o compositor é lembrado pelo cinéfilo principalmente por sua colaboração com o mestre do suspense, Alfred Hitchcock. Dentre as muitas trilhas para Hitchcock, destacam-se THE MAN WHO KNEW TOO MUCH (1956) - no qual aparece conduzindo uma orquestra - VERTIGO (1958) e o já citado PSYCHO (1960).

Tão importante quanto a colaboração com Hitchcock foi a obra de Herrmann dedicada ao cinema fantástico. Filmes como THE 7th VOYAGE OF SINBAD (1958), THE THREE WORLDS OF GULLIVER (1960), MYSTERIOUS ISLAND (1961) e JASON AND THE ARGONAUTS (1963), em parceria com o mestre dos efeitos especiais Ray Harryhausen, tiveram suas cenas filmadas quadro-a-quadro engrandecidas pela música enérgica e criativa do compositor. Como nenhum outro de seus colegas, "Benny" (como seus amigos o chamavam) conseguia não apenas criar melodias para acompanhar as imagens de um filme, mas também transportar essas imagens para a música, elevando-a para uma nova dimensão de impacto.

A partir de 1993, uma série de relançamentos e regravações em CD trouxeram a obra de Herrmann para toda uma nova geração de apreciadores de trilhas sonoras. Destaca-se na extinta Fox Classic Series THE DAY THE EARTH STOOD STILL (1951), com a gravação original remasterizada em estéreo. A London relançou várias suítes de obras conduzidas pelo compositor nos anos 60 e 70 (já editadas nos anos 80 nos 4 CDs de The Concert Suites), e a Marco Polo produziu uma nova gravação de JANE EYRE (1944), à qual seguiu-se GARDEN OF EVIL (1954). A Rhino lançou a primeira versão integral da trilha de NORTH BY NORTHWEST (1959), mas sem dúvida o mérito maior fica com a tradicional gravadora Varèse Sarabande, que ao lado de outros títulos de Herrmann em catálogo, adicionou regravações conduzidas por Joel McNeely de FAHRENHEIT 451, VERTIGO (além da versão expandida da gravação original), THE TROUBLE WITH HARRY e PSYCHO. A Varèse também retomou a série clássica da Fox com a gravação estéreo original de JOURNEY TO THE CENTER OF THE EARTH (1959) e THE GHOST AND MRS. MUIR. Nesta primeira edição integral de VIAGEM AO CENTRO DA TERRA, as orquestrações graves e majestosas, sem qualquer tipo de cordas e com o uso de vibrafone, metais, cinco órgãos e harpas, a música mostra ser o verdadeiro cenário do filme. Nela podemos visualizar as cavernas gigantescas, os monstros pré-históricos, a cidade perdida de Atlântida, as explosões vulcânicas. Na nova edição de PSYCHO (VSD-5765), de um modo geral, o condutor conseguiu recriar o ritmo e o tempo da música de Herrmann, porém haverá quem ainda prefira a versão que o próprio autor regravou em 1975, conduzindo a National Philarmonic Orchestra, ou até mesmo a excelente adaptação que Danny Elfman fez da trilha para a controvertida refilmagem de 1998. O CD de McNeely, contudo, possui alguns bônus - uma versão alternativa da sequência pós-assassinato, e mais importante, o tratamento original de Herrmann para a faixa "Discovery". No filme, Hitchcock preferiu repetir os violinos do assassinato do chuveiro na cena em que Vera Miles descobre o cadáver embalsamado da mãe de Norman Bates (Anthony Perkins). A série de McNeely prosseguiu com CITIZEN KANE e a trilha rejeitada por Hitchcock para TORN CURTAIN.

Entre as recentes regravações de obras de Herrmann, ainda citamos THE 7th VOYAGE OF SINBAD (VSD-5961), conduzida por John Debney, a primeira versão completa em CD de JASON AND THE ARGONAUTS (MAF-7083), conduzida por Bruce Broughton (ver em CDs comentados), e THE EGYPTIAN, composta em parceria com o grande Alfred Newman. Bernard Herrmann morreu em 23 de dezembro de 1975, algumas horas após encerrar as gravações de TAXI DRIVER, de Martin Scorcese, trilha relançada em 1998 pela Arista em uma estupenda e completa edição. Scorcese, aliás, era um grande fã do compositor, a quem teve a oportunidade de homenagear quando refilmou CAPE FEAR (1991): reutilizou a trilha do filme original composta por Herrmann, adaptada por Elmer Bernstein, juntamente com trechos do score não utilizado em TORN CURTAIN.

HERRMANN E O OSCAR

1941 - Vencedor, Melhor Partitura Original para Drama - The Devil and Daniel Webster
1976 - Indicado, Melhor Partitura Original - Taxi Driver
1976 - Indicado, Melhor Partitura Original - Obsession
1946 - Indicado, Melhor Partitura Original para Drama ou Comédia - Anna and the King of Siam
1941 - Indicado, Melhor Partitura Original para Drama - Citizen Kane

Filmografia de Bernard Herrmann, cortesia de Internet Movie




http://www.scoretrack.net/bernard.html

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