O diretor Franco Zefirelli, sempre tão fino em suas declarações, desta vez “pisou no tomate” .Vejamos o que ele diz a respeito do soprano Daniela Dessi, que ele julgou estar acima do peso e da idade : “Ela não tem nada a ver com minha imagem de Violeta que, certamente, não era assim tão corpulenta”. E a coisa não parou por aí: “Ela é velha demais para convencer o público em uma trama que fala de paixão da juventude”.
Por que o veterano diretor não exigiu antes o que esperava do visual do elenco? Mas convenhamos, desde as últimas décadas do século XX, e não só na ópera, a era da imagem predomina. O vídeo foi implacável com grandes cantores, antes vistos de longe em pesados figurinos, no meio de grandes cenários em escala gigante (para entender:- nenhum ambiente interno pode ter mais do que 3 metros de pé direito ,excetuando-se grandes palácios ou grandes igrejas) .No palco tudo fica agigantado , por exemplo, na Tosca de Puccini, o gabinete de Scarpia no palácio Farnese, fica com 10 metros de altura. A água-furtada em La Bohème do mesmo Puccini muitas vezes parece uma grande fabrica abandonada.
Os cantores se "amoldavam", se encaixavam naquela escala gigante, e os gordinhos passavam batido, ou seja, ficavam na proporção se vistos ao vivo.
Mas com a chegada do vídeo, a revolução teve inicio. Começamos a ver silhuetas delgadas e rostos fotogênicos cantando bem. Sempre me perguntei, porque tínhamos que ser condescendentes com a òpera? Porque engolir um final de La Forza del Destino de Giuseppe Verdi com o tenor mal podendo abraçar a "satisfeita soprano" e ainda pior, ela morrendo em pé? Porque aceitar uma cantora gorda "fingindo" estar com tuberculose na Traviata de Verdi? (lembramos que o fracasso desta ópera na estréia,
foi em parte devido a silhueta robusta da criadora do papel . A plateia riu, quando na cena final, o médico vaticina para a criada de Violetta: -La tisi non le accorda che poche ore... e isso- em Veneza/1852 !).
Ouvir Montserrat Caballé ou Jessie Norman é bem diferente de assistir uma ópera com elas e tentar ,digamos, idealizá-las no papel. Mas, as vezes, as próprias particularidades da capacidade de um cantor e das exigências da ópera, tornam difícil resolver a equação. Por exemplo em Madama Butterfly -a personagem tem 15 anos com silhueta de gueixa ,a parte teatral e musical exige da interprete uma grande maturidade. Dificilmente encontraremos uma cantora preparada antes dos 30, e com medidas de adolescente, para cantar uma das mais difíceis criações de Puccini.
Muitas vezes se critica que Madama Butterfly foi cantada por uma matrona gorda com voz pesada etc....
e estes mesmos se esquecem, que Turandot ,mais uma vez cito outra obra de Puccini, que é cantada com uma voz pesadíssima de soprano dramático tem apenas 18 anos .Na maioria dos casos são cantadas por soprano enormes. Sempre achei Calaf meio míope, quando canta- "Óh divina bellezza, oh meraviglia" quando vê Turandot pela primeira vez. Dificilmente veremos no cinema uma atriz interpretando Orfeo (personagem masculino). Mas quando se fala cantando tudo começa a ser possível, ou começava....
A ópera pede certa tolerância visual. Será que veríamos com o mesmo prazer, no cinema, o clássico Romeu e Julieta, do mesmo Zeffirelli, com uma Julieta interpretada por Caballé? Ou ainda , o filme A Dama das Camélias, interpretada (falando) pela mesma Daniela Dessi rejeitada por Zeffirelli?
A polêmica não terminará. O visual da ópera está mudando, isso é inegável, nunca se viu tanta gente bonita reunida nos palcos líricos como nos últimos anos. O artista moderno se expõe e se preocupa com isso, antes de ser vaidade, mostra respeito com o publico.
Um leitor afirmou, ”na ópera o que importa é apenas a voz, as gordinhas dão de dez a zero nas magrelas”. Só a voz importa,
então a questão é: Por que colocar figurino? Apenas para conferir aqui vão alguns nomes das "magrelas" atuais: Natalie Dessay, Elina Garanca (se diz diz Garancha), Renne Fleming ,Anna Netrebko ,Waltraud Meyer,Cristina Gallardo-Domas, Diana Damrau, entre muitas outras. Estas se cuidam, provando que, para cantar bem , não é necessário estar acima do peso.(todas tem farto material no you tube caso queiram conferir). Lembrando ícones de um passado, menos recente, temos Mirella Freni, Anna Moffo, Ileana Cotrubas, Kiri Te Kanawa, Teresa Stratas. Esta última inclusive, compôs talvez, a Traviata mais convincente no cinema, no filme de Zeffirelli. O grande diretor também produziu um Otello de Verdi maravilhoso, primando sempre pelo bom gosto nas imagens e na mais absoluta, quase neurótica, fidelidade à época. Discordo que seus filmes sejam de gosto duvidoso.
Os amantes de ópera, aos quais me incluo, crescemos vendo-a com este véu de tolerância: "sim, são gordas - mas cantam muito bem" .Aprendemos a aceitar que era assim e nada podia ser feito. Mas os tempos estão mudando.
Marylin Horne, Jessie Norman, Montserrat Caballé estão entre as maiores vozes do seculo XX.( tenho tudo que gravaram) Sem dúvida, são extremamente convincentes quando transmitem intenções e verdades de um personagem.Mas ver Caballé, no final da Tosca, ao invés de pular da torre, como manda o drama de Sardou, sair andando calmamente pela coxia lateral, é no mínimo decepcionante. Ou ainda, em La Forza Del Destino, que menciono acima, morrendo em pé, ao lado de um "jovencito" Carreras que mal conseguia abraçá-la fica estranho.
O maior exemplo desta busca pela perfeição do" fisic de role" é a história de Maria Callas, que dos 120 quilos que pesava no início da carreira, passou da noite para o dia para 60 quilos. Graças a uma tênia que pegou de tanto comer "beef tartar". Ao invés de se tratar e retirar o verme, deixou que a consumisse, até adquirir a silhueta adequada, nos moldes dos anos cinqüenta. No período imperavam as divas de Hollywood, entre elas, Audrey Hepburn, atriz que inspirou Callas a compôr seu novo visual, como atestam algumas fotos da época. Callas sempre se preocupou com a sua aparência, depois de ser ridicularizada nos seus primeiros anos de palco, quando era grande e gorda. Carlo Maria Giulini conta que na primeira Traviata que regeu com o grande soprano, quando ela entrou em cena ele teve um susto, o vestido era branco e ela parecia uma grande taça de sorvete. Ela cantou Butterfly uma unica vez , e depois não quis mais , pois se achava muito grande para interpretar uma gueixa.
A ópera sobrevive há três séculos, seu visual se amoldou a estética do momento. Tenho certeza que vai sobreviver e se adaptar a esta nova era, e a muitas que ainda virão.
Esta conversa aliás, é bem velha, e me faz lembrar
um comentário, que nunca consegui me certificar se realmente é de Bernard Shaw, que diz mais ou menos o seguinte: "Ópera é um gênero de espetáculo singular, onde mulheres gordas se queixam aos berros, numa língua incompreensível, para seus amados, ,cuja aparência é escandalosamente pouco romântica. Nunca conseguimos entender bem a razão de tanta lamentação, mas os enredos se resumem na seguinte formula: O tenor quer se casar com a soprano, o mezzo-soprano tem ciúme, o barítono impede o casamento, mas no final vem o baixo e resolve a situação, isto se, não morrerem todos no final."
Tenho certeza que este julgamento esta mudando, bem como muito breve , senão agora, não tem mais efeito a frase de Noel Coward: "As pessoas se enganam quando dizem que a ópera já não é o que costumava ser. Ela é o que sempre foi - e este é o problema"

Walter Neiva, diretor que se dedica exclusivamente a encenação de óperas, com vasto currículo nacional e internacional.

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