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A plenos pulmões # Vladímir Maiakóvski e Haroldo de Campos

Mayakovsky — viveu. Mayakovsky — vive. Mayakovsky — viverá! # Fallindesigh 

Homenagem – um pouco atrasada, mas ainda oportuna – aos 120 anos de nascimento de Vladímir Maiakóvski (1893 - 1930), um dos maiores gênios da poesia universal, aqui em tradução luxuosa de outro grande luminar, Haroldo de Campos.

Camarada vida, vamos para diante!

E então, que quereis...? – Corsário (Vladímir Maiakóvski- Trad. Emílio Carrera Guerra/Aldir Blanc – João Bosco) # João Bosco

E as belas interpretações de O amor ( Caetano Veloso - Nei Costa Santos, sobre poema de Maiakóvski) por Gal Costa e Renato Braz:

Gal Costa

Renato Braz

A PLENO PULMÕES

Primeira Introdução ao Poema

Caros
...........camaradas
............................futuros!
Revolvendo
.................a merda fóssil
.....................................de agora,
perscrutando
....  .............estes dias escuros,
talvez
...........perguntareis
.............................por mim. Ora,
começará
................vosso homem de ciência,
afogando os porquês
.............................num banho de sabença,
conta-se
..............que outrora
.................................um férvido cantor
a água sem fervura
.............................combateu com fervor.*
Professor,
............... jogue fora
............................... as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
........................ de mim
.....................................de minha era.
Eu – incinerador,
...........................eu – sanitarista,
a revolução
.................. me convoca e me alista.
Troco pelo “front”
.........................a horticultura airosa
da poesia –
..................fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim
virgem
...........vargem
...................... sombra
..................................alfombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim".
Estes verte versos feito regador,
aquele os baba,
........................boca em babador, –
bonifrates encapelados,
..................................descabelados vates –
entendê-los,
...................ao diabo!,
..................................quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles –
mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-tin, ta-ran-tin,
ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
....................se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
............. escarra a tuberculose;
putas e rufiões
.......................numa ronda de sífilis.
Também a mim
.......................a propaganda
............................................cansa,
é tão fácil
................alinhavar
................................ romanças, –
Mas eu
............me dominava
................................ entretanto
e pisava
...............a garganta do meu canto.
Escutai,
.............camaradas futuros,
o agitador,
..................o cáustico caudilho,
o extintor
.................dos melífluos enxurros:
por cima
.................dos opúsculos líricos,
eu vos falo
................. como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
....................à Comuna distante,
não como Iessiênin,
.............................guitarriarcaico.
Mas através
...................dos séculos em arco
sobre os poetas
........................e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
.............................não como a seta
lírico-amável,
......................que persegue a caça.
Nem como
.................ao numismata
.......................................a moeda gasta,
nem como a luz
................      .....das estrelas decrépitas.
Meu verso
...................com labor
.................................. rompe a mole dos anos,
e assoma
................a olho nu,
................................palpável,
.............................................. bruto,
como a nossos dias
.............................. chega o aqueduto
levantado
.....................por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
...................................versos como ossos,
se estas estrofes de aço
...................................acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
...............................como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
..................................mas terrível.
Ao ouvido
.................não diz

................................blandícias

.............................................. minha voz;
lóbulos de donzelas
............................de cachos e bandós
não faço enrubescer
................................com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
......................................– tropas em parada,
e passo em revista
..............................o “front” das palavras.
Estrofes estacam
..........................chumbo-severas,
prontas para o triunfo
.................................ou para a morte.
Poemas-canhões,
...........................rígida coorte,
apontando
................. as maiúsculas
.........................................abertas.
Ei-la,
...............a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
...............................alerta para a luta.
Rimas em riste,
..........................sofreando o entusiasmo,
eriça
................suas lanças agudas.
E todo
...............este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
.....................................não batido,
eu vos dôo,
.................... proletários do planeta,
cada folha
..................até a última letra.
O inimigo
..................da colossal
.................................. classe obreira,
é também
.................meu inimigo
.......................................figadal.
Anos
................de servidão e de miséria
comandavam
.........................nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
...............................volume após volume,
janelas
.............de nossa casa
...................................abertas amplamente,
mas ainda sem ler
............................saberíamos o rumo!
onde combater,
.........................de que lado,
........................................... em que frente.
Dialética,
.................não aprendemos com Hegel.
Invadiu-nos os versos
...................................ao fragor das batalhas,
quando,
..............sob o nosso projétil,
debandava o burguês
.............................que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
.....................................– glória –
se arraste
.................após os gênios,
....................................... merencória.
Morre,
.............meu verso,
................................como um soldado
Anônimo
............na lufada do assalto.
Cuspo
........ sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
........sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, –
................................. entre nós todos, –
o comum monumento:
.................................o socialismo,
forjado
................na refrega
....................................e no fogo.
Vindouros,
.................varejai vossos léxicos:
do Letes
......................brotam letras como lixo –
"tuberculose",
......................"bloqueio",
......................................."meretrício".
Por vós,
................geração de saudáveis, –
um poeta,
......................com a língua dos cartazes,
lambeu
.................os escarros da tísis.
A cauda dos anos
............................faz-me agora
um monstro,
........................fossilcoleante.
Camarada vida,
.........................vamos,
.......................................para diante,
galopemos
.................... pelo qüinqüênio afora.**
Os versos
..................para mim
...................................não deram rublos,
nem mobílias
............................de madeiras caras.
Uma camisa
......................lavada e clara,
e basta, –
.................para mim é tudo.
Ao
..........Comitê Central
..................................do futuro
..................................................ofuscante,
sobre a malta
.......................dos vates
........................................velhacos e falsários,
apresento
..................em lugar
....................................do registro partidário
todos
.............os cem tomos
.....................................dos meus livros militantes.

Dezembro, 1929/ janeiro, 1930


(Tradução de Haroldo de Campos)


*Maiakóvski escreveu versos de propaganda sanitária.
**Alusão aos Planos Quinquenais soviéticos.

Poster:


http://en.faldin.ru/artwork/?branch=2&id=167


Poema:

Nova Antologia – Poesia Russa Moderna # Ed. Brasiliense

Música:

Acústico # João Bosco

Novelas # Gal Costa

Edição especial 10 anos # Renato Braz

Exibições: 404

Comentário de Laura Macedo em 1 setembro 2013 às 2:26

Querida amiga Cafu,

Maravilha de postagem pela originalidade do conteúdo forma de apresentação. Adorei as músicas.

Em maio estive em Sampa e visitei a Casa das Rosas, abrigo da biblioteca do poeta Haroldo de Campos. Inesquecível.

Beijos saudosos.

PS - Tenho tentado falar com você via telefone sem sucesso. Se possível ainda hoje envie por e-mail, seu novo número.

Comentário de Cafu em 1 setembro 2013 às 12:56

Queridíssima,

Só agora li a mensagem. Entrarei em contato. Ontem a noite fui ao cinema. Vi Flores Raras. Ótimo filme e magistral interpretação de Glória Pires. Vc e o Gregório já foram ?

A Casa das Rosas está nos meus planos. Eles são os guardiões do legado de Haroldo de Campos, que também viveu, vive e viverá! sem os fardões da Academia, sem os faldrões da Academia (rsrs), mas pelos cem tomos de seus livros militantes.

Tintim! Saúde! Um brinde de cajuína para os conterrâneos de Torquato.

Beijos saudosos.

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