Portal Luis Nassif

Quando eu era criança comemorávamos na escola eventos festivos como, carnaval, páscoa, dia disso e daquilo, assim como hoje.

Pintura de desenho, colagem de bolinha de papel crepom, dobraduras e recortes coloridos, mas o evento que me fazia perder o sono era a festa junina...

Eu gostava de tudo, mas na festa junina meu estômago embrulhava, a professora chegando com aquele bloquinho feito de sulfite, grampeado com uns 10 números sequenciados, os quais tinhamos que vender para angariar fundos para a festança, nosso incentivo era o de quem vendesse mais desses "votos" seria declarado mister e miss caipiras, sempre quis ser miss caipirinha, SEEEEMPRE!

Então eu ficava um mês esquematizando minha mega operação venda de votos limpa estoque!

Lá em casa éramos eu e mais 3 irmãos, como arrecadar esse dinheiro todo no seio familiar? Fora de cogitação. O jeito era sair de porta em porta vendendo os tais votos, mas e o perigo? Bares, esquinas e terrenos baldios, como vender os os votos? E por vezes eu saí bairro à fora para vender meus votinhos, mas era só um sujeito me olhar mais estranho que eu já corria, quando achava alguma velha, ela fingia que não havia me escutado atrás dela tentando vender meus votinhos. Nas casas não dava, era só chegar perto do portão e lá vinha um cachorro me recepcionar ( tenho medo de cachorro até hoje), como é que eu ia ser uma miss caipirinha desse jeito?

Que tristeza, que tristeza! Eu murchava , sabia que não ia ser missa caipirinha nunca, não adentraria pela quadra enfeitada com bandeirinhas, ao fundo um palco improvisado com os bancos da merenda, meu sonho estava se esvaindo, não iam falar meu nome num microfone rouco, de onde saia um grunhido incompreensível, eu não seria adornada com aquela faixa feita de cartolina e lantejoulas, ah, lantejoulas! Sabe o que é isso? Lantejoulas ao redor da faixa, escrito "miss caipira do ano tal", eu tinha que vender votos!

Não foi por falta de tentar,mas eu nunca fui miss caipirinha, nunca... e nem citei o fato de  nunca ter sido noivinha, noivinha era para menina branca do olhinho claro, e óbvio, o pai podia comprar seu vestidinho, o sapatinho e o buquezinho... essa idéia eu tirava rápido da minha cabeça.

Eu só lavava o cabelo com sabão de pedra ( acho que loirinha só lavava com johnsons), usava a mesma sandalinha gasta todo o santo dia, o uniforme surrado, remendado, ficando curto, eu só tinha 7 anos mas já era bem realista...

Pô mas eu queria ser a miss caipirinha, só uma vez...

Passou tanto tempo, fiz tanta coisa, quis ser médica, bombeira ( essa não deu, só tenho 1,50 de altura), motorista, professora, cantora, babá, dentista, dona de restaurante, caixa de supermercado, etc.

Acabei sendo atriz, sou muitas pessoas, em várias situações, já fui morta, já fui homem, já fui rato, já fui mãe, já fui princesa,ah é, eu fui PRINCESA! Que miss caipirinha que nada, eu fui princesa, que aliás está num patamar muito acima da pobre noivinha, pobrezinha...

Meu pai é simplesmente o Rei, meu namorado é nada mais nada menos que o príncipe, só que meu aspecto de princesa deixa a platéia um tanto perplexa: peruca black power, uma flor imensa bem presa em cima da orelha, botas vermelhas cano longo.

Não aceito ordens e não beijo sapo, digo tudo o que penso e não tenho medo de escutar tudo o que preciso, gosto da minha cor queimada de Sol e não arrego na hora de disputar um bonitão com uma loira alta e magra, uma princesa bem brasileira em homenagem à todas as nossas meninas baixas, altas, magras, gordas, sardentas, pálidas, pretas, sonhadoras, realistas...

Mais cedo ou mais tarde tudo o que a gente deseja se realiza, assim como a gente nasce e nem percebe, um dia abre os olhos e -puf- simplesmente aconteceu... 

E assim me contaram e assim vos contei e assim me encantaram e assim vos encantei...é emocionante ver a platéia de costas, indo embora...

Exibições: 189

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2018   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço