Minha tradução da história "The Wayward Princess", do livro 'Tales of the Dervishes', de Idries Shah, baseada também na memória da tradução feita por Clarissa de Paula Ilg.

A PRINCESA OBSTINADA

Um certo rei acreditava que tudo que a ele tinha sido ensinado e o que ele acreditava era correto. De todo modo, ele era somente um homem, mas um homem de idéias limitadas.
Um dia ele disse para suas três filhas:
- Tudo que eu tenho é de vocês ou será de vocês. Através de mim vocês obtiveram suas vidas. É a minha vontade que determina seu futuro e, por conseguinte, determina seu destino.
Em obediência e quase persuadidas da verdade disso, duas das moças concordaram.
Entretanto, a terceira filha respondeu:
- Embora minha posição demande que eu seja obediente às leis, eu não posso acreditar que meu destino seja sempre determinado por suas opiniões.
- Já veremos sobre isso - respondeu o rei.
Ele ordenou que ela fosse aprisionada numa pequena cela, onde ela penou por anos. Enquanto isso, o rei e suas filhas obedientes gastavam livremente a riqueza que, de outro modo, teria sido gasta com a prisioneira.
O rei dizia para si mesmo:
- Esta menina jaz na prisão, não por sua vontade, mas pela minha. Isto é prova suficiente para qualquer mente lógica que é a minha vontade e, não, a dela, que determina o seu destino.
As pessoas do país, ao saberem da situação da princesa, diziam umas às outras:
- Ela deve ter feito ou dito alguma coisa muito errada, para que um monarca, em quem nós não achamos nenhuma falha, trate assim sua própria carne e sangue.
Pois eles ainda não tinham chegado ao ponto em que sentissem a necessidade de por em dúvida a presunção do rei de estar correto em tudo.
De tempos em tempos o rei visitava a moça. Ainda que pálida e enfraquecida pelo seu aprisionamento, ela se recusava a mudar de atitude.
Finalmente, a paciência do rei chegou ao fim.
- Seu desafio contínuo - ele disse para ela - só continuará a me aborrecer e pode enfraquecer minhas prerrogativas, se você permanecer em meus domínios. Eu poderia matá-la; mas serei magnânimo. De agora em diante, você será banida para as terras desoladas, vizinhas ao meu território. São ermos, habitados somente por bestas-feras e aqueles exilados excêntricos, que não podem sobreviver na nossa sociedade racional. Lá, você logo descobrirá se pode ter uma existência longe de sua família; e, se puder, se a preferirá à nossa.
Seu decreto foi imediatamente obedecido, e a princesa foi conduzida até as fronteiras do reino. A princesa achou-se liberta em uma terra selvagem, que guardava parca semelhança com as vizinhanças protegidas da sua criação. Mas ela logo aprendeu que uma caverna poderia servir de casa, que nozes e frutas poderiam vir de árvores tanto quanto de pratos de ouro, que o calor provinha do Sol. Aquela terra selvagem tinha um clima e um modo de existir próprios.
Depois de algum tempo, ela tinha sua vida tão organizada, que obtinha água de fontes, vegetais da terra e fogo das brasas de uma árvore que queimava lentamente.
- Aqui - ela disse para si mesma - há uma vida cujos elementos se integram, formam um todo. E, no entanto, nem individual e nem coletivamente obedecem aos comandos de meu pai, o rei.
Um dia, um viajante perdido – por acaso um homem de muitos recursos e de grande engenhosidade – deparou-se com a princesa exilada, apaixonou-se por ela e levou-a para o seu país natal, onde eles se casaram.
Depois de um tempo, os dois decidiram retornar àquela terra selvagem e lá construíram uma cidade enorme e próspera, onde sua sabedoria, recursos e fé foram expressos em sua máxima plenitude. Aqueles excêntricos e outros exilados, muitos dos quais se pensava serem loucos, harmonizaram-se de modo frutífero e completo com aquela vida de múltiplas facetas.
A cidade e suas cercanias tornaram-se renomadas em todo o mundo. Não demorou muito para que seu poder e sua beleza excedessem em muito o reino do pai da princesa.
Pela escolha unânime de seus habitantes, a princesa e seu marido foram eleitos a monarquia conjunta para este reino ideal.
Depois de um bom tempo, o rei decidiu visitar aquele lugar estranho e misterioso, que havia brotado naquela terra selvagem e que era, ele havia escutado, habitado em parte por aqueles que ele e seus iguais desprezavam.
Quando, com a cabeça abaixada, ele se aproximou vagarosamente dos pés do trono, sobre o qual se sentava o jovem casal e levantou seus olhos para mirar aqueles cuja reputação de justiça, prosperidade e compreensão ultrapassavam de longe sua própria fama, foi capaz de ouvir as palavras murmuradas por sua filha:
- Como você pode ver, Pai, cada homem e cada mulher tem o seu próprio destino e faz a sua própria escolha.

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Diz-se que esta história foi contada para responder a seguinte pergunta:
- Por qual razão poderia se supor que a imposição das regras da Lei é insuficiente para assegurar felicidade e justiça?

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