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A qualidade da democracia aumenta quando a população é mais escolarizada?

Queima de livros - Berlim 1933

A qualidade da democracia aumenta quando a população é mais escolarizada?

É inegável que existe uma conexão importante entre democracia e escolaridade, mas essa relação não é mecânica nem absoluta. Povos com elevados níveis de educação não necessariamente escolhem governantes ou programas de governo que valorizam princípios democráticos, em especial aqueles historicamente associados a esse regime político: liberdade, igualdade e fraternidade.


O nazismo — antítese radical da democracia — surgiu e prosperou em uma Alemanha desenvolvida e escolarizada e contou com membros dos mais altos estamentos da sociedade entre seus quadros e ideólogos: empresários, banqueiros, juristas, políticos, militares, profissionais da mídia, cientistas, intelectuais, artistas. Da mesma forma, muitas das ditaduras que infelicitaram o Planeta na segunda metade do século XX foram dirigidas e apoiadas pelas elites letradas locais, com o aval, ou até mesmo o patrocínio, de governos de nações consideradas o suprassumo da civilização. Trazendo a questão para os dias de hoje, só para citar um exemplo, vemos a sociedade francesa – berço histórico da revolução burguesa e das liberdades democráticas – dividir-se e digladiar-se em torno da legalização do casamento homossexual e da adoção homoparental.


O que determina, então, a existência de uma democracia genuína? Ela só se torna possível onde o Estado está presente como garantidor de direitos, deveres e oportunidades para todos. Ela só se concretiza onde prevalecem os direitos fundamentais, as liberdades públicas, a dignidade humana, o respeito à vida e à diversidade. Ela só se fortalece e se consolida por meio de distribuição de poder e riqueza, cidadania efetiva, informação de qualidade, ações afirmativas e participação social nos destinos coletivos.


Claro que a educação faz parte desse contexto e influencia a qualidade dos processos e dos resultados. Contudo, não se deve esquecer que há muitas maneiras de se ser ignorante. A baixa escolaridade é apenas uma delas. Não é a única nem a mais danosa. A boa notícia é que a baixa escolaridade tem conserto, se enfrentada com investimentos maciços, leis que corrijam injustiças, políticas públicas focadas na equanimidade e na viabilização plena da democracia.


Já as outras formas de ignorância... só mesmo penetrando os desvãos do coração e os abismos da mente humana para acender alguma luz que traga esclarecimento, misericórdia, verdade e libertação.
O Iluminismo não concluiu seu trabalho. O Socialismo Democrático é um projeto que engatinha entre acertos e erros, conquistas e retrocessos. Por último, mas não menos importante, carece ao homem percorrer um longo caminho de autoconhecimento e evolução espiritual.

As utopias humanistas seguem sendo laboratórios de reflexão e experimentação de possibilidades. O sonho ainda não acabou e se constitui, de forma desigual e combinada, como obra aberta, tal qual nossa incompleta condição.

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