A “RÉS-PÚBLICA”, OS MENINOS E O VELHO

A grande massa de um povo não se compõe de diplomatas ou só de professores oficiais de direito, mesmo de pessoas capazes de ajudar com acerto, e sim de criaturas propensas à dúvida e às incertezas. A massa não está em condições de distinguir onde acaba a injustiça estranha e onde começa a sua justiça própria. O povo, em sua grande maioria, é de índole feminina tão acentuada que se deixa guiar, no seu modo de pensar e agir, menos pela reflexão e mais pelo coração. Esses sentimentos, porém, não são complicados, mas simples e consistentes. Neles não há grandes diferenciações. São ou positivos ou negativos: amor ou ódio, justiça ou injustiça, verdade ou mentira. Nunca, porém, o meio termo. Tudo isso foi compreendido, sobretudo pela propaganda inglesa e por ela aproveitada, de uma maneira verdadeiramente genial. Lá não há indecisões que possam provocar dúvidas.

Adolf Hitler no livro “Minha Luta”

No dia de hoje a Republica no Brasil completa quase 130 anos. Na duração desta “Rés-Pública”, tivemos suicídio, renúncia, golpe e impedimento. Manifestações como o da “Legalidade”, em respeito à Constituição, até a ameaça de guerra civil em plena Baía da Guanabara. O primeiro “golpe” ocorreu logo após a Proclamação: Marechal Deodoro durou apenas 2 anos após greve e ameaça da Marinha em bombardear o Rio de Janeiro. Teve que sair. Assumiu o vice sob protesto do Manifesto dos 13 Generais, mas Floriano, “o Marechal de Ferro”, governou sob o “culto à personalidade”, o Estado de Sítio, algo que se verificou em toda a República Velha. Getúlio a destruiu e instaurou o Estado Novo, no qual impediu o contragolpe de comunistas e fascistas da Ação Integralista nacional. Veio a redemocratização para o florescimento da democracia até cair na ditadura militar. O Movimento das “Diretas Já” a derrubou e a Nova República já conheceu dois impedimentos: Collor e Dilma. Muitas aventuras, mas sem super-heróis.

Saímos de uma eleição. De um lado o slogan “Conhecerás a verde e a verdade vos libertará” e de outro “Numa mão o livro e no outro a carteira de trabalho”. Venceu o primeiro, o maior valor agregado. Quem destruiu o perdedor não foi a “Fake News”, mas um elixir que mistura testosterona como bálsamo para reduzir o sentimento de “medo do desconhecido”. Chame o Marechal de Ferro, o “doutrinador”.  Chamem os militares. Foi assim que a Secretaria de Educação de Goiás fez com escolas públicas para “enquadrar” os alunos que estavam demolindo as instituições de ensino. Qual foi a doutrina para dopar o esgarçamento do tecido social? Disciplina e Meritocracia. Qual será o remédio para outros municípios brasileiros que verificam o mesmo fenômeno: vandalismo em lousa, professores ameaçados e livros rasgados na frente de seus mestres. A “anomalia” pronunciada pelo general Moura, o vice eleito, conceito estruturado pelo sociólogo francês Durkheim. O “professor” perdeu o pleito com o seu sonho. Não está na moda, assim como a geração digital não pode ser “enquadrada”.  Nem as livrarias podem ser salvas pelo subsídio. Venceram os golpistas de 1964 que viram seu discurso ser legitimado pela “soberania popular” quase 55 anos depois: “combate à corrupção, nomeação por critérios técnicos e não políticos e destruição de qualquer ideologia de esquerda”.  Uma situação “anômala” esta eleição. A promessa continua com o mesmo desafio: “ a verdade que liberta”.

Votei no Haddad, apesar de não ser petista. Acreditei na vitória só na primeira entrevista ao “Jornal Nacional”. Parecia um presidente, mas logo veio o choque de realidade. Enquanto Bolsonaro se aproximava de Trump, Haddad era quase uma versão “Hillary masculina”. A visão da “politicazinha de Washington” versus o “outsider”. A mesma que elegeu Hitler contra a República de Weimar. Não há política, pois a etimologia grega define como “limite”. Mas esta geração não quer limite. A cada entrevista seguinte parecia que ele havia sido “enquadrado” pelo PT de Gleise Hoffman. A princípio visitava o ex-presidente Lula como se não tivesse “visão da história”. Era a busca pelo “mestre”, não o preso político em Jerusalém, mas o encarcerado em Curitiba. A mesma busca pelo “mestre” que a maioria do povo depositou nas urnas, não o crucificado na Judá ocupada, mas o capitão reformado. A busca por um doutrinador, o super-herói. O mesmo que está em cartaz nos cinemas.  Aquele que “abate” corruptos como o Witzel quer fazer com os traficantes. Será que haverá o “remake” do governo Marcello Alencar e do general Cerqueira com as denúncias da Anistia Internacional sobre as vítimas inocentes?

Quando venceu o primeiro turno, os torcedores da democracia pensaram que Haddad seria a imagem que os brasileiros precisam. Ledo engano. O primeiro ato foi se reunir com as lideranças sindicais. Pensei que o jornal “O Globo” fosse fazer uma reportagem sobre os operários que votam em Bolsonaro, se lixando para os seus “lideres” como “voto de Cabresto”. Foi à missa em homenagem à Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, ao lado de sua vice, a comunista Manuela D´Ávila, para afastar qualquer imagem do eleitorado conservador da convicção no “Materialismo Histórico”. A imagem do politicamente correto, tal qual Dilma no passado. A que deixou como legado a imagem de pesadelo. Enquadrou os bancos privados através do público e os juros voltaram a ser extorsivos. A que congelou o preço das passagens de ônibus dando voz ao MBL. A que fez a Comissão da Verdade para não cair no esquecimento a ditadura militar e terminou com aplausos de jovens em Niterói após a eleição de Bolsonaro.

Ouvi de um aluno beneficiado pelo Fies: “Bolsonaro é o novo! Haddad é o velho!”  E fez uma profecia: “Bolsonaro acabará com a propaganda eleitoral gratuita obrigatória porque eleição se ganha nas redes sociais”. A mesma que o assessor de Trump, hoje afastado do governo, vaticinou: “A nossa verdade vai estar nas redes sociais”. Daí não é estranho ver as imagens agressivas do presidente norte-americano contra a impressa tradicional, chamada pelos críticos de “PIG” para lembrar sobre o “golpismo”. Hoje tachado de “velho”.

E como estarão os trabalhadores, cujo partido foi criado em seu nome. Ouvi de um operário da construção civil: “Queremos é que a economia encontre o seu ponto de equilíbrio e volte a crescer”. Nos Estados Unidos votaria em Trump, aqui no Brasil votou no Bolsonaro. O discurso de “enquadrar” os bancos ficou para os surdos. Taxar os ricos também. O “professor” não leu “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Hollanda.  O discurso de direita está em alta. Só não pode haver briga na Paulista entre “Galinha Verde” e esquerdista. Sim, os anos 30 estão de volta. O nacionalismo também. Somos todos brasileiros, mas vestir verde e amarelo ou usar a Bandeira Nacional durante o processo desta campanha política era visto como “apoiador de Bolsonaro”. Para estar do outro lado tinha que estar rodeado de bandeiras vermelhas e disputar espaço por apoiadores do PSTU. É, uma situação “anômala” esta eleição. Com uma diferença: perdeu a eleição o sonho da “carteira de trabalho”.   

Bolsonaro começa o seu caminho ao Planalto com o mesmo discurso fracassado do Collor: Extinção ou fusão de ministérios. O “remake” já produzido e varrido. Assim como a “destruição de feudos”, a começar pela Petrobrás; o combater à corrução através dos “Marajás”. Será que desta vez vai? A esperança deste povo sem cidadania é como um sonho. Em 1989 ele durou dois anos, assim como um século antes com o Marechal. Não foi um pesadelo maior do que nos anos 60 quando um candidato foi eleito para o Planalto com a maior votação até então da história republicana em oposição a JK, o presidente “Bossa Nova”. O “Doutrinador” tinha um nome: Jânio Quadros. Naquele tempo operários, classe média e personalidades ricas deram as mãos e puseram na lapela uma vassoura como estandarte em nome do fim da corrupção no País. E a maioria cantava nas ruas em tom nacionalista verde e amarelo:

“Varre, varre, vassourinha/ varre varre a bandalheira/ Que povo já está cansado de viver desta maneira. Jânio Quadros é a esperança deste povo abandonado/ Jânio Quadros é a certeza de um país moralizado. Alerta, meu irmão/ Vassoura, meu irmão/ Vassoura, conterrâneo/ Vamos vencer com Jânio”.

A esperança do povo abandonado de um país moralizado durou apenas 6 meses. Seu legado restou apenas, entre outras medidas moralistas, a proibição do biquíni que hoje é vista na Praia de Ipanema em tamanho cada vez mais reduzido, mas que sua doutrina considerava “indecente”.  Veio a crise, política e econômica. Para terminar esta conversa escrita, lembro as palavras do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha após iniciar o processo de impeachment contra a presidente Dilma:

- Que Deus tenha misericórdia deste País

De lá para cá, não foi o mesmo. Nem para os “golpistas”.

Rio de Janeiro, 15 de novembro de 2018

 

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