A SAGA DO CARNAVAL (IX): RANCHOS



******************************************************


O Rancho era uma espécie de cordão mais organizado e com presença feminina. Instrumental mais rico, com violões, cavaquinhos, flautas e clarinetes. Um coro entoava a marcha do rancho e havia certa coreografia nas apresentações.O porta-estandarte era obrigatório, bem como um mestre de harmonia para a orquestra, um de canto para o coro e o terceiro para a coreografia.



Na sua ascendência portuguesa e açoriana, os ranchos faziam parte do ciclo de festejos natalinos em vários lugares das regiões norte e nordeste do Brasil



O pioneiro dos ranchos foi o "Rei de Ouros", fundado em 6 de janeiro de 1894 pelo baiano Hilário Jovino Ferreira, que emigrou da Bahia para o Rio de Janeiro indo morar no bairro da Saúde.





A primeira inovação do "Rei de Ouros" foi apresentar o rancho no carnaval e não no natal como era costume em sua terra.



Havia muita rivalidade entre os "ranchistas" e quando uma delas, a famosa Tia Ciata, brigou com Hilário Jovino, o mais importante deles, na época, para provocá-lo criou um rancho bastante descuidado. Com repolhos, tomates e cebolas no seu estandarte, deu-lhe o nome de "O Macaco é Outro".





Outros ranchos que ficaram famosos foram Mimosas Cravianas, Flor de Abacate, Botão de Rosa, Recreio das Flores, Kananga do Japão, Ameno Resedá.



No dia dos desfiles dos ranchos eles tinham quase que por obrigação passar na casa de Tia Ciata, que morava na Rua da Alfândega, e Tia Beniana, no Largo de São Domingos, para cumprimentá-las e, implicitamente, pedir sua benção. Era um compromisso tão sério que o rancho que o não fizesse era considerado como se não tivesse saído no carnaval.





O rancho Ameno Resedá nasceu num piquenique, realizado na ilha de Paquetá em 17 de fevereiro de 1907. O jornalista e escritor João Ferreira Gomes o famoso Jota Efêge, é o autor da biografia desse famoso rancho, que não só fez história, mas marcou uma linha divisória no carnaval brasileiro.



Segundo Haroldo Costa o Ameno Resedá, graças à sua organização, aos enredos escolhidos, aos cantores - geralmente tenores - (naquela época não se usava nenhum tipo de amplificação) e muitos outros fatores tornou-se o mais querido rancho do Rio e ficou conhecido até no exterior.



O Ameno Resedá existiu durante 34 anos. No dia 15 de fevereiro de 1941, o Jornal do Brasil publicava: "Desaparece o Ameno Resedá".



Fechava-se um dos mais ricos e importantes capítulos da história do carnaval carioca. Seu hino oficial, atribuído ao compositor e músico Bonfiglio de Oliveira, dizia:



SALVE O AMENO RESEDÁ

SALVE O DEUS DA FOLIA

SÃO GLÓRIAS! SÃO GLÓRIA!

VIEMOS COM PRAZER E ALEGRIA



Mas sua semente germinaria nos "Aliados de Quintino", "Turunas de Monte Alegre", "União dos Caçadores", "Azulões da Torre", "Decididos de Quintino", "Unidos do Cunha", "Recreio da Saúde", desfilando todos os anos até que na década de 60 começaram a perder força, e em 1997 apenas uma agremiação apresentou-se.



Nos anos 70 houve uma tentativa de reerguer os ranchos por parte de Haroldo Costa, Eneida, Lúcio Rangel, Ricardo Cravo Albin e Alopisio de Alencar Pinto.



Na década de 80, com o entusiasmo de Lígia Santos, Turíbio Santos, Orlando Miranda e outros admiradores, houve a tentativa de reconstituição do rancho "Sodade do Cordão" que, há quarenta anos, o maestro Villa-Lobos, já preocupado com os sinais de decadência, tinha decidido botar na rua.





No dia 5 de fevereiro de 1940 o rancho desfilou na Feira de Amostras, tendo à frente o próprio Villa-Lobos com seu chapéu gelo, comandando as evoluções.

E os desfilantes vinham cantando com entusiasmo a marcha do maestro:



ADEUS, BELA MORENA

EM TEU NOME OUVI FALAR

VAMOS VER O SODADE DO CORDÃO

QUE SAIU A PASSEAR



Os ranchos criaram a marcha-rancho, ritmo básico e indispensável para seus desfiles e gênero que teve grandes cultivadores como Nássara, Lamartine Babo, Zé Keti, João de Barro. Alcir Pires Vermelho, Carlos Lyra e Vinicius de Moraes.



Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes




Fonte:

- 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro, de Haroldo Costa. – São Paulo: Irmãos Vitale, 2001.

- História do Samba. Fascículos da Ed. Globo, 1998.

Exibições: 325

Comentário de Gregório Macedo em 14 fevereiro 2010 às 1:56
Matéria toda boa, com um desfecho espetacular: a marcha-rancho do seu coração.
Beijos.

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço