A SAGA DO CARNAVAL (X): BLOCOS



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Os Blocos carnavalescos sugiram da reunião de vizinhos e conhecidos de um mesmo bairro, rua ou trabalho. Tinham caráter improvisado, sem coreografia ou enredo definidos, medida porém que só veio ser adotada em fase posterior.

De qualquer forma o bloco sempre se caracteriza pela liberdade do folião que reúne os amigos tendo como finalidade apenas a diversão, sem estar preso a normas e regulamentos.

Não são raros os casos em que famílias inteiras saem no mesmo bloco nos dias de reinado de mono.

O bloco é tão livre que, por mais de trinta carnavais, desfilou pelas ruas do Rio de Janeiro o Bloco do Eu Sozinho, que se tornou famoso e era esperado a cada ano, embora fosse sempre igual.



Era comum nos dias de carnaval, nas vizinhanças do Teatro Municipal, encontrar-se a figura insólita de Júlio Silva, na contra mão da alegria. Usava um chapéu tirolês, a parte superior de um fraque e uma larga calça de algodão estampado.

A última vez em que Júlio botou seu bloco nas ruas foi em 1979; faleceu em julho daquele ano aos 84 anos de idade.

Os blocos põem ser de sujos, embalos ou empolgação e de enredo. Os primeiros, ao contrário do que o nome indica, sempre primaram pela originalidade das fantasias, que não obedeciam a um padrão uniforme. Talvez venha daí a denominação de “sujos”.

Segundo Haroldo Costa, os bairros de Botafogo, Lapa e Laranjeiras sempre concentraram um grande número de blocos de sujos.

Os chamados blocos de embalo tiveram o seu apogeu nos anos 60.



O Bafo da Onça, do Catumbi, o Cacique de Ramos, do subúrbio da Leopoldina, e os Boêmios de Irajá mobilizaram nessa época alguns milhares de pessoas com a mesma fantasia, um samba de qualidade extraordinária da lavra dos compositores locais e uma bateria arrebatadora.

Os blocos de enredo, eram escolas de samba em escala reduzida, que desfilavam e competiam, Algumas ficaram famosas na cidade, como os Canarinhos das Laranjeiras, o Balanço da Mangueira, Flor da Mina do Andaraí e Unidos do Cabral.

No alvorecer do século XXI os blocos continuam sendo um fator de integração no carnaval brasileiro, desmistificando os derrotistas e pessimistas de plantão, que insistem em afirmar que o carnaval de rua morreu.


Fonte:
- 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro, de Haroldo Costa. – São Paulo: Irmãos Vitale, 2001.
- História do Samba. Fascículos da Ed. Globo. 1998.

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Comentário de Henrique Marques Porto em 12 fevereiro 2013 às 16:17

Laurinha,

Conheci de muito perto os carnavais de rua do Rio de Janeiro entre 1966 e 1969. A partir desse ano começou o declínio. Foi intencional. Em 1969 tinha muita polícia nas ruas do centro. Inclusive carros das forças armadas, além da PM. Um dia essa história há de ser esclarecida. Fui preso nesse ano junto com outros foliões e levado para uma delegacia na Lapa. Ninguém tinha feito nada, além de tentar brincar o carnaval.

Existiam nuitos blocos em todos os bairros do Rio. Eram milhares deles! E ainda tinham os que se formavam espontaneamente, sem nenhuma comibinação prévia. Não precisava muita coisa para surgir um desses blocos. Bastava um surdo, dois ou três taróis e alguns tamborins e pandeiros. A eles iam se juntando outros foliões que tinham instrumentos. Se o samba fosse bom, o povo ia se juntando e o bloco saía. Não tinha percurso definido e nem hora para terminar. Só acabava quando o bloco esvaziava ou a cerveja chamava os ritimistas. Certa vez entrei num desses, um típico bloco de sujo, na Avenida Presidente Vargas. Juntou muita gente atrás do bloco. Só se desfez no Largo do Machado! Não achei outro bloco para fazer o caminho de volta e tive que votar a pé mesmo, sem folia, para o centro.

O "Bloco do Eu Sozinho" eu vi mais de uma vez. Conta-se que Júlio Silva tentou formar um bloco lá pela década de 1920. Os amigos e conhecidos não toparam. Aí ele dedidiu sair sozinho mesmo. Repetiu nos anos seguintes e criou a tradição. Ele desfilava pelas ruas do Centro da Cidade, principalmente Presidente Vargas e Rio Branco, carregando um bumbo. Ele fazia uma marcação lenta e evoluía nesse rítmo. A fantasia variava a cada ano, mas o rosto era sempre o de um Palhaço. A última que o vi (não lembro em que ano) foi na Presidente Vargas, pouco depois de Central do Brasil. Vinha batendo o bumbo como sempre, e o cartaz com a inscrição "Bloco do Eu Sozinho" já tinha sido substituído por pequeno estandarte que ele fixava nas costas.

Com ruas muito largas no Centro, o Rio tinha certamente o maior e mais animado carnaval de rua do mundo! Os trens vinham cheios dos subúrbios e das cidades da Baixada Fluminense. Aliás, o carnaval já começava no trem! Não descarrilhavam por milagre. 

Eu e um grupo de amigos virávamos a noite nas ruas. De sexta-feira de tarde até a manhá da Quarta-feira de Cinzas. Só voltávamos para casa para tomar banho, comer e dormir um pouco. O carnaval na rua acabava por volta das 5 horas da manhã de quarta-feira. E era triste ver a cidade vazia, com os restos da folia espalhados pelo chão.

Muio boa essa série sobre o Carnaval. Parabéns!

beijão

Henrique 

Comentário de Laura Macedo em 12 fevereiro 2013 às 20:41

Querido amigo Henrique,

Adorei seu relato sobre os carnavais de rua do Rio de Janeiro (1966/1969). Muito carismática a figura do Júlio Silva e seu Bloco do Eu Sozinho. Soube por um amigo que o MIS (RJ) gravou seu depoimento para a posteridade. Fiquei com peninha de você. Uma coisa é andar quilômetros na folia, outra bem diferente é o mesmo percurso sozinho. Nossa geração navegou por mares violentos; uns não sobreviveram; outros escaparam com seqüelas e poucos sem seqüelas (será?)...

Estava planejando para este ano uma nova série sobre o carnaval, mas os preparativos do aniversário de 60 anos de Gregório consumiram muito meu tempo. Como eu já tinha produzido, em anos anteriores, vários posts sobre a temática resolvi republicá-los no Facebook.

Sempre gostei muito de carnaval, ao contrário do meu irmão. Tempos depois percebi que era, também, uma forma de vencer minha grande timidez. Meu pai caía na gandaia e só voltava na quarta-feira de cinzas, mas minha mãe me deixava sair com as filhas de uma grande amiga dela. Eu adorava participar de blocos (lembro bem do bloco “As Espiãs), do corso na carroceria de caminhão e dos bailes nos clubes. Na minha época as moças só freqüentavam os bailes noturnos depois dos 15 anos de idade. Chorei muito no carnaval de 1969. Faço aniversário em abril e sendo o carnaval em fevereiro, minha mãe, ao contrário das mães das minhas amigas, proibiu-me os bailes noturnos. Conheci Gregório em julho de 1970 e, de lá pra cá, haja carnaval. Ainda bem que encontrei um parceiro folião :)

Super beijo

Laurinha

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